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Atenas para por dois dias enquanto Parlamento grego vota pacote do FMI

Plano de austeridade passa por crivo nesta quarta-feira; analistas esperam aprovação por margem pequena de votos
por Roberto Almeida, do Opera Mundi publicado 06/11/2012 15h37, última modificação 06/11/2012 16h06
Plano de austeridade passa por crivo nesta quarta-feira; analistas esperam aprovação por margem pequena de votos

Moradores de cidades do noroeste da Grécia participam de protesto contra aumento de impostos em frente ao Parlamento em Atenas (Foto: Yorgos Karahalis/Reuters)

Atenas – Cartazes espalhados por toda a cidade, a cada poste, avisam que Atenas vai parar pelas próximas 48 horas. Manifestações vão tomar conta da praça Omonia, norte da capital grega, e Syntagma, no centro, em protestos contra o pacote de austeridade do FMI (Fundo Monetário Internacional), que foi apresentado ontem ao parlamento e deve ir à votação amanhã (7).

Desde ontem (5) as três linhas de metrô e os diversos trens de superfície, que atendem a 1 milhão de passageiros por dia, estão suspensos em virtude da greve de parte dos funcionários do transporte público ateniense. Somente ônibus abarrotados continuam circulando pela cidade para suprir a demanda. A partir de hoje, funcionários do serviço público, estudantes, professores e jornalistas também aderem à greve geral, que vai paralisar o país.

Ao mesmo tempo, a presença policial em Atenas é massiva, com agentes de forças especiais circulando por áreas consideradas críticas, no centro histórico da capital grega. Como reflexo dos efeitos da crise e da imagem de violência dos protestos, a quantidade de turistas é pequena, apesar do bom tempo, com temperatura pelo menos 10 graus acima do frio que já chegou à Europa ocidental.

O elegante aeroporto Eleftherios Venizelos, construído para a Olimpíada de 2004, estava às moscas no último sábado. Restaurantes na área de Monastiraki, próxima à Acrópoles e à área dos protestos, ficaram vazios na noite de ontem e devem permanecer assim pelas próximas 48 horas.

Para jornalistas, funcionários públicos e estudantes ouvidos pelo Opera Mundi, o clima no país é de completa frustração. “Todo ano que passou é melhor que o próximo”, disse um deles, com sorriso amarelo. “Talvez em 10 anos melhore alguma coisa”, continuou. Em pesquisa recente do Eurobarometer, 100% dos gregos consideraram a situação econômica péssima. O desemprego entre jovens de 18 a 25 anos está acima dos 50%.

O pacote do FMI, a ser votado pelos deputados gregos, prevê um desembolso de 13,5 bilhões de euros (cerca de R$ 35 bilhões) em troca de medidas de austeridade. Se aprovado, a Grécia se compromete a atender todas as demandas da troika, formada pelo BCE (Banco Central Europeu), Comissão Europeia e FMI.

O documento, com 54 páginas, ordena mudanças na constituição grega para facilitar o pagamento da dívida, a fusão de todos os planos de saúde em um único sistema estatal – com benefícios reduzidos, a fusão de departamentos de ensino das universidades gregas e, entre as medidas mais polêmicas, a privatização de empresas do setor elétrico.

Há pontos bastante específicos na cartilha do FMI, como a abertura de supermercados a produtos pré-embalados e congelados, como carnes, peixes, e queijos, além da flexibilização nos reajustes das mensalidades de escolas primárias e secundárias. Os cortes em benefícios sociais, informa o documento, devem chegar a 395 milhões de euros (cerca de R$ 1 bilhão) em 2013.

Aprovação apertada

Apesar de conter diversos pontos polêmicos, analistas acreditam que a cartilha do FMI deverá ser aprovada no Parlamento grego por uma margem pequena de votos. A bancada do primeiro-ministro Antonis Samaras, do partido de centro-direita Nova Democracia, não contará com os votos de uma sigla de sua frágil aliança, a Esquerda Democrática, o que pode acirrar a disputa.

A cartilha, chamada tecnicamente de terceiro memorando, passará por discussões nesta terça-feira (6) no Parlamento. A votação deve ocorrer amanhã à noite, no auge dos protestos marcados pela Associação de Servidores Públicos (Adedy, na sigla em grego) e pela Frente Militante dos Trabalhadores (Pame, na sigla em grego) na praça Syntagma, a poucos metros dali.