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Felipe Calderón deixará um México pior, dizem analistas

Uma guerra interna com mais de 60 mil mortos é apenas a parte mais visível de um governo que acentuou a pobreza, a corrupção e o poder dos narcotraficantes, além de enfraquecer o Estado com políticas neoliberais
por Tadeu Breda, da RBA publicado 22/06/2012 19:59, última modificação 26/06/2012 19:39
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Uma guerra interna com mais de 60 mil mortos é apenas a parte mais visível de um governo que acentuou a pobreza, a corrupção e o poder dos narcotraficantes, além de enfraquecer o Estado com políticas neoliberais

Mais de 60 mil mortes provocadas pela chamada guerra ao narcotráfico são saldo do governo Calderón (Foto: Presidência do México)

São Paulo – Os mexicanos vão às urnas no dia 1° de julho para eleger um novo presidente da República. Quatro candidatos se apresentaram ao cargo, que até hoje foi ocupado por apenas dois partidos: Partido Ação Nacional (PAN) e Partido Revolucionário Institucional (PRI). O vencedor governará o país pelos próximos seis anos, até 2018, sem possibilidade de reeleger-se. No México, cada período presidencial é conhecido como “sexênio”, e analistas políticos acreditam que o do atual chefe de Estado, Felipe Calderón, foi o pior dos últimos tempos.

“A administração de Felipe Calderón não possibilita avaliações positivas em nenhuma área”, defende John Ackerman, professor do Centro de Investigações Jurídicas da Universidade Nacional Autônoma do México (Unam). “Temos mais violência, mais corrupção, mais pobreza e mais desigualdade do que seis anos atrás. Até mesmo a estabilidade econômica – da qual o governo tanto se vangloria – estamos começando a perder. O peso está se desvalorizando e é possível que se desvalorize ainda mais depois das eleições.”

Sem dúvida, o grande símbolo do sexênio de Felipe Calderón, filiado ao PAN, são as mais de 60 mil mortes provocadas pela chamada guerra ao narcotráfico – uma das primeiras medidas tomadas pelo presidente logo após assumir o cargo, em 2006. Com ajuda financeira e militar dos Estados Unidos, Calderón desatou uma política de confrontação direta com os grandes cartéis da droga no país. Seu objetivo era perseguir os chefões do tráfico e sufocá-los. Porém, o tiro saiu pela culatra: o acosso armado provocou uma sangrenta disputa entre as facções criminosas e espalhou cadáveres pelo território nacional sem, no entanto, diminuir o consumo, a produção ou a venda de substâncias ilegais.

Direitos humanos

A situação é tão grave que um grupo de advogados, respaldados pela assinatura de 23 mil cidadãos mexicanos, está denunciando Felipe Calderón à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), sediada em Washington, pelos crimes de guerra e lesa-humanidade cometidos no país. “Os cartéis continuam recrutando e convertendo crianças em pistoleiros, cometem assassinatos dentro de hospitais, amputam e decapitam seus inimigos”, lamenta Netzaí Sandoval, um dos autores da ação. “O exército pratica a tortura dentro dos quartéis, desaparece com cadáveres, assassina civis e estupra mulheres e meninas durante as operações militares de combate ao narcotráfico.”

Fabíola Escárzaga, pesquisadora da Universidade Autônoma Metropolitana Xochimilco (UAM-X), explica que a militarização do país para combater o narcotráfico tem raízes no duvidoso processo que elegeu Felipe Calderón. Na época, houve sérias denúncias de fraude. O candidato derrotado, Andrés Manuel López Obrador, do Partido da Revolução Democrática (PRD), sustentou uma concentração popular na capital durante meses para contestar os resultados. Pesquisas indicam que, ainda hoje, cerca de 40% dos mexicanos não acreditam na lisura da apuração. “O presidente decretou uma guerra aos cartéis para legitimar sua gestão”, observa. “Colocar o exército nas ruas também serviu para amedrontar os movimentos sociais que haviam se mostrado combativos na gestão anterior.”

Em 2006, mesmo ano em que Felipe Calderón assumiu a presidência, o México assistiu a pelo menos três episódios intensos de luta social, em três estados diferentes. Em Chiapas, no sul do país, o Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) promoveu a chamada Outra Campanha justamente para confrontar o sistema partidário, entendido como ineficaz para atender às demandas do povo. Também no sul nasceu a Assembleia Popular dos Povos de Oaxaca (APPO), que reuniu organizações sociais depois que um protesto de professores foi duramente reprimido. Já o estado do México, no centro do país, assistiu à revolta de Atenco, que derivou em massacre.

Estado mais fraco

“A guerra e os 60 mil mortos são apenas a parte mais visível de uma situação profundamente problemática: o enfraquecimento do Estado mexicano”, analisa John Ackerman, jurista da Unam. “Da mesma maneira que hoje em dia os narcotraficantes têm mais poder para controlar e subjugar as instituições públicas, o mesmo ocorre com os poderes econômicos. O governo trabalha para os grandes monopólios e duopólios e não impôs um regime de competitividade democrática.”

A estratégia militarista, segundo Fabíola Escárzaga, serviu exatamente para aprofundar as políticas neoliberais. Enquanto comandava a caçada aos chefões do tráfico, o governo de Felipe Calderón promoveu uma reforma nas leis trabalhistas mexicanas, fortemente criticada pelos sindicatos independentes do país. “O presidente também acelerou o processo de privatização interna da estatal Petróleos Mexicanos (Pemex), que hoje está mais aberta ao capital estrangeiro.”

A pesquisadora da UAM-X lembra que, diferentemente dos países sul-americanos, o México sofre mais fortemente as consequências da crise internacional que estourou em 2008. A recessão teve como epicentro os Estados Unidos, vizinho com quem os mexicanos mantêm um acordo de livre comércio. “Os tratados possibilitaram a entrada de todo tipo de produtos estadunidenses, inclusive produtos agrícolas, o que deteriorou a qualidade de vida e trabalho dos camponeses e prejudicou as empresas nacionais, sobretudo as pequenas e médias”, avalia Fabíola Escárzaga.

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