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Neruda foi envenenado por ditadura de Pinochet, diz motorista do poeta

Justiça chilena investiga episódio desde junho
por Redação da RBA publicado , última modificação 02/12/2011 18h41
Justiça chilena investiga episódio desde junho

Pablo Neruda morreu duas semanas após o golpe de Estado contra o governo de Salvador Allende (Foto: Divulgação / Wikipedia)

São Paulo – O motorista, ajudante e amigo pessoal de Pablo Neruda declarou que o poeta chileno foi morto pelo regime de Augusto Pinochet, instalado a partir de um golpe de Estado dias antes, em setembro de 1973. A duas emissoras locais de rádio, Cooperativa e Bío Bío de Chile, Manuel Araya disse que Neruda foi envenenado com uma injeção fatal na Clínica Santa María, onde estava internado.

A morte de Neruda é historicamente atribuída a um câncer de próstata contra o qual o poeta lutava. Em junho deste ano, a Justiça chilena aceitou o pedido de investigação do episódio, a partir de suspeitas do Partido Comunista do país. Na ocasião, a Fundação Pablo Neruda, que administra as casas e o acervo convertidos em museus do poeta no Chile, negou a versão.

Araya é a principal testemunha do caso e sustenta que a internação na clínica foi uma tentativa de protegê-lo, e não por estar em más condições de saúde. "Ele estava doente de câncer, mas resistia muito bem. Ele não estava mal, não tinha por que ter morrido."

"Pensávamos que na clínica estaria mais seguro. Nunca pensamos que lhe iam dar uma injeção e ele ia morrer", disse o ajudante e amigo. Uma vez internado é que ele piorou. Araya contou ter recebido um telefonema de Neruda dizendo que se sentia fraco e com febre, suspeitando ter recebido algum tipo de injeção no estômago.

Ao chegar, o médico teria pedido que o próprio motorista comprasse o medicamento indicado para o tratamento. Embora tenha estranhado o pedido, por estar em uma clínica que poderia fornecer o remédio, ele acabou concordando em ir até uma farmácia. Ao deixar o local, porém, foi detido por carabineros a serviço da ditadura chilena. Horas depois, o prêmio Nobel de literatura de 1971 morreu.

À época da morte, Neruda preparava-se para deixar o Chile rumo ao México, exilado. A viagem era indesejável à ditadura, segundo Manuel Araya. Militante comunista e referência para a esquerda de toda a América Latina, Neruda teve papel político destacado no governo de Salvador Allende, iniciado em 1970.

No dia 11 de setembro de 1973, o governo de Allende foi deposto em um golpe de Estado. Neruda morreu no dia 23 daquele mês. A revelação de uma versão diferente sobre a morte do poeta acontece sete meses depois de o corpo do líder político ter sido exumado. Os exames confirmaram que Allende se suicidou.

Segundo o Sul21, o presidente do Partido Comunista chileno, Guillermo Teillier, disse que é "um dever moral" exigir investigação sobre o assunto.

O ex-embaixador do México no Chile Gonzalo Martinez é apontado como outra testemunha-chave para a versão de Araya, já que o diplomata esteve com Neruda dias antes da morte do poeta. O encontro foi dedicado a acertar detalhes sobre a concessão de asilo político na capital mexicana. Martinez relata ter encontrado Neruda doente, mas distante do estado catatônico que a equipe médica da clínica lhe atribuiu em documentos oficiais.

Com informações do Sul21