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Ipea vê crise da Europa se arrastar ainda por muitos anos

Documento aponta que causas originais da recessão não estão sendo combatidas e não vê nos líderes políticos a atitude para resolver a questão
por João Peres, da RBA publicado , última modificação 03/11/2011 16h31
Documento aponta que causas originais da recessão não estão sendo combatidas e não vê nos líderes políticos a atitude para resolver a questão

São Paulo – O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) acredita que as saídas procuradas pela União Europeia vão manter o bloco em recessão durante muitos anos. Documento divulgado nesta quinta-feira (3) indica que os investimentos tomados desde 2008, com a injeção de recursos públicos para o salvamento de bancos, apenas fizeram aprofundar o problema.

“Todas as saídas em discussão envolvem aprofundar ainda mais o já excruciante ajuste fiscal nos referidos países, com implicações políticas muito negativas. (...) Nenhuma das causas originais do problema (modelo econômico infeliz, integração financeira desregulada, dificuldades de coordenação entre as políticas macro etc.) está sendo atacada”, diz o estudo.

Em adição a isso está a dificuldade que cada líder das nações mais ricas da União Europeia tem em ajudar os outros Estados do bloco, o que desagrada a alguns setores do eleitorado interno. Nesse sentido, o Ipea destaca especialmente o papel da Alemanha, que teria a capacidade de ajudar a sanar as contas públicas das nações mais debilitadas.

A divulgação ocorre no momento em que os líderes das maiores economias estão reunidos em Cannes, na França, para debater uma saída conjunta para a crise, que afeta também os Estados Unidos e, por extensão, leva a problemas de distintos matizes em todas as partes do mundo. A reunião do G-20 ocorre no momento em que a Grécia sofre críticas dos governos mais fortes da União Europeia por querer consultar a população em um referendo a respeito da adoção das medidas impostas na última semana. O ajuste fiscal exigido dos gregos prevê uma forte redução dos investimentos públicos nos próximos anos em uma nação cuja taxa de desemprego atinge 14,5% da população economicamente ativa.

O Ipea acredita que o caminho atual pode conduzir a uma moratória da dívida pública, ou seja, à declaração de alguns países da zona do euro de que não têm como honrar os débitos. Isso “levaria a novas e significativas perdas de capital para os bancos e, portanto, teria o potencial de causar uma crise financeira de proporções parecidas à de 2008”. O estudo aponta que o caminho passa por uma atitude conjunta da União Europeia em assumir essas dívidas, que têm adquirido cada vez mais um contorno político e social, do qual o euro sai cada vez mais enfraquecido, “até sua dissolução final”.

O instituto aponta que ainda que o aprofundamento da crise seja evitado, “o fato é que se avizinha um período onde crises permanecerão cronicamente possíveis (de modo que a economia tenderá a crescer pouco) por um bom tempo”.

Estados Unidos e China

O relatório vê com preocupação a situação dos Estados Unidos, embora de maneira menos grave que a da Europa. A leitura é de que as medidas adotadas no primeiro momento da crise, em 2008 e 2009, foram importantes, mas não tiveram a capacidade de recuperar a confiança dos empresários, que seguem reticentes em investir, nem dos cidadãos, que não voltaram a comprar. 

Como o dinheiro injetado pelo governo na economia ficou parado, isso provocou um excesso de oferta de dólares no exterior. No Brasil, a moeda norte-americana chegou à casa de R$ 1,50, e hoje está em R$ 1,75. A valorização do real prejudica os exportadores nacionais e aumenta as possibilidades de importação de produtos, o que tem como consequência a redução do superávit na balança comercial. 

O quadro é agravado pela aproximação das eleições presidenciais de 2012, que levarão a pressões para que o presidente Barack Obama consiga reverter rapidamente o quadro de baixo crescimento. Nesse sentido, o Ipea demonstra especial preocupação com uma nova rodada de medidas de "afrouxamento" da política monetária. “Os Estados Unidos podem tentar desvalorizar sua moeda, buscando uma estratégia de crescimento pela via das exportações, assim como fizeram na década de 1990. Isso significará para os países em desenvolvimento uma maior pressão sobre a taxa de câmbio, notadamente do Brasil, que tem sido um dos principais destinos desses capitais”. 

As apostas recaem novamente sobre a China, que no ano passado respondeu por 17,1% do crescimento econômico global – a Ásia como um todo foi responsável por 31,2%. Neste ano, em que os Estados Unidos terão uma fatia de apenas 7,6% na expansão, segundo estimativa do Banco Mundial, os asiáticos ficam com 22,2%, e a América Latina, 11,2%.

A grande preocupação no caso chinês é de que a queda no movimento mundial de comércio e a alta da inflação levem o governo a promover o chamado “pouso forçado” do crescimento. Nesse caso, “a economia mundial sofrerá forte impacto negativo e a economia brasileira será influenciada pelo lado das exportações e, provavelmente, pela mudança dos seus termos de troca”. 

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