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Educação gratuita 'vence' plebiscito no Chile

Ao mesmo tempo, estudantes confirmam saída da mesa de negociações com o governo, e Piñera insiste que está aberto ao diálogo
por João Peres, da RBA publicado , última modificação 11/10/2011 19h58
Ao mesmo tempo, estudantes confirmam saída da mesa de negociações com o governo, e Piñera insiste que está aberto ao diálogo

Segundo os primeiros resultados, que levam em conta a apuração de 723 mil votos, 95% responderam serem a favor da educação gratuita (Foto: Divulgação/ Site: colegiodeprofesores.cl)

São Paulo – Como esperado, a grande maioria dos que compareceram para votar em um plebiscito extraoficial no Chile apoiaram uma educação gratuita e que dê fim ao lucro abusivo de empresários do setor, reforçando o movimento que há cinco meses luta por reformas.

Segundo os primeiros resultados, que levam em conta a apuração de 723 mil votos, 95% responderam “Sim” à pergunta sobre a implantação de uma educação pública e gratuita, o que pressupõe uma mudança completa do atual sistema, que está ancorado em uma oposição entre público e privado, sem o gratuito.

O plebiscito foi convocado pelos movimentos que representam alunos e professores e, por isso, não tem caráter oficial, embora sirva como mais um instrumento de pressão contra o presidente Sebastián Piñera, que vem se desgastando com o episódio. Dos que compareceram às milhares de zonas de votação em todo o país, 95% deles se mostraram a favor da realização de um plebiscito que imprima ao setor educacional o que for definido pela população.

O percentual dos que se declararam a favor de desmunicipalizar a educação foi de 92%, o que significa realizar outra mudança significativa no sistema criado pelo ditador Augusto Pinochet, e até hoje vigente. Seguindo o modelo neoliberal, o governo de Pinochet decidiu adotar um sistema de incentivos às escolas públicas, sob controle dos municípios, e às privadas, sob controle de empresários. A crença era de que o Estado deveria unicamente apoiar a competição entre os colégios, o que os tornaria melhores.

Mas, para os estudantes chilenos, esta proposta vem resultando em um sistema calcado na desigualdade e na má qualidade, que serve principalmente ao enriquecimento dos empresários que recebem os subsídios estatais. Os manifestantes querem que as escolas do ciclo básico voltem a ser de controle federal.

Outra questão é devolver a gratuidade ao ensino superior. Atualmente, tanto as universidades públicas quanto as privadas são pagas, o que acaba por endividar os jovens, comprometendo parte de sua vida adulta.

Sem negociação

Em assembleia que durou sete horas, os estudantes decidiram no domingo (9) retirar-se da mesa de negociação aberta recentemente pelo governo. A decisão foi tomada após a segunda reunião, na qual, segundo os representantes do movimento, em nada se avançou, e o governo demonstrou que não cederá quanto à gratuidade da educação. Felipe Bulnes, ministro de Piñera para o setor, apontou que aceitava dar bolsas aos 40% mais pobres, uma proposta que já havia sido apresentada há meses – e rejeitada. Em paralelo, foi aprovada uma nova paralisação nacional, de 48 horas, entre os dias 18 e 19 deste mês.

“Nós não apenas exigimos a gratuidade como também a responsabilidade do Estado na educação”, assinalou a presidenta da Federação dos Estudantes da Universidade do Chile, Camila Vallejo. “Não estamos dizendo que os pobres financiem os ricos, mas que os ricos, que representam cinco por cento da população, devem financiar a educação mediante uma reforma tributária”.

Em sua casa de descanso, no lago Ranco, a 900 quilômetros de Santiago, Piñera evitou comentar as críticas por tirar férias em meio à crise. “O governo tem um compromisso claro e firme: assegurar a todos educação de qualidade. E, aos que necessitam, educação gratuita”.