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Após selar as pazes com setor rural, Cristina Kirchner conta as horas para a vitória

por João Peres, da RBA publicado , última modificação 20/10/2011 11h29

São Paulo e Buenos Aires – A presidenta argentina, Cristina Kirchner, realizou na quarta-feira (20) o ato de encerramento de uma campanha que tem todas as condições para inscrever marcos históricos na redemocratização do país. Em um teatro de Buenos Aires, ela não tropeçou e agora precisa apenas esperar a abertura das urnas. “Não guardo rancor de ninguem. As coisas que me ocorreram me obrigam a me abrir cada vez mais, a estender as mãos, a superar as diferenças”, afirmou.

O Teatro Coliseu, fechado, foi uma aposta segura para reduzir ao mínimo a possibilidade de erros que coloquem em risco o triunfo do próximo domingo (23), quando mais de vinte milhões de argentinos vão às urnas para, muito provavelmente, escolher pela continuidade. As pesquisas divulgadas antes do início da restrição imposta pela lei eleitoral, na semana anterior, dão à presidenta um percentual de votos entre 50% e 55%, entre 35 e 40 pontos à frente do segundo colocado, Hermes Binner, governador da província de Santa Fé.

A última semana de campanha cumpriu uma agenda simbólica. O aniversário de 60 anos do sistema público de comunicação foi a deixa para lembrar aos eleitores as mudanças provocadas pela Lei de Meios Audiovisuais e pelo programa Futebol para Todos. O primeiro visa a democratizar a radiodifusão argentina, desconcentrando o número de concessões de rádio e TV controladas pelo grupo Clarín, o grande conglomerado do setor.

O segundo abordou diretamente esta questão ao definir o futebol como uma atividade cultural de interesse público e que, portanto, não poderia ficar restrito a transmissões televisivas de operadoras por assinatura no módulo pague-para-ver – no caso, do grupo Clarín. Segundo o Centro de Estudos e Opinião Pública, 8,4% indicam a Lei de Meios como a grande conquista do primeiro mandato de Cristina, e outros 12,2% citam o Futebol para Todos como um avanço.

Cristina esteve ainda reunida com integrantes do agronegócio, responsável por uma fatia fundamental do Produto Interno Bruto (PIB) e setor que levou ao maior desgaste de sua gestão. “Foi um gesto muito importante por parte da presidenta”, resumiu Carlos Garetto, presidente da Confederação Intercooperativa Agropecuária (ConInAgro), em conversa por telefone com a reportagem na qual lembrou que foram três anos e meio de tensas relações. “Abriu-se uma porta que tomara a partir daqui possamos ter uma relação normal, como qualquer governo do mundo teria com um de seus setores econômicos mais importantes”.

O conflito com o agronegócio levou a um enorme desgaste do governo entre 2008 e 2009. A intenção do gabinete de Cristina era cobrar um imposto sobre as exportações de produtos, o que provocou uma chiadeira generalizada. O acirramento dos ânimos em uma nação marcadamente agrária teve o ápice no Congresso, quando em junho de 2009 o vice-presidente Julio Cobos, constitucionalmente o presidente do Senado, impôs um voto de minerva que significou a derrota do governo nesta intenção.

A partir de então, Cobos se transformou em um vice-dissidente, atacando o governo em diversas frentes e ajudando a exaltar os ânimos em busca da abreviação do mandato da presidenta. Àquela altura, poucos poderiam imaginar que se chegaria aos dias de hoje com um cenário favorável à continuidade.

Para sair das cordas, o governo impôs uma agenda positiva. Há vários fatores que confluem e criam um bom humor social e um bom clima de época. O principal fator é a economia, que vai bem”, diz o analista político Roberto Bacman. “As políticas sociais caminharam bem, casadas com uma economia que passou a crescer a “taxas chinesas”, como se gosta de dizer.

O aumento dos vencimentos dos aposentados e a bolsa paga a pais desempregados ou no mercado informal são vistos como as maiores realizações do governo, aprovados, respectivamente, por 32,6% e 38,2%, além de 19,3% que veem na recuperação do papel social do Estado o grande avanço do período.

Além disso, a continuidade à punição de agentes da última ditadura militar (1976-83), uma agenda iniciada no governo de Néstor Kichner, e a aprovação no Congresso do matrimônio entre pessoas do mesmo sexo aproximaram a presidenta dos mais jovens e dos setores urbanos.

Junte-se a isso uma chapa formada com o ministro da Economia, Amado Boudou, querido entre a juventude e admirado pela sociedade por uma condução considerada exitosa do setor econômico, e fica difícil de perder. Se as pesquisas estiverem certas, e as prévias realizadas em agosto indicam que estão, Cristina tem condições para superar a marca obtida por Raúl Alfonsín nas eleições de 1983, com 51,7%, o maior apoio desde a redemocratização.