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Para analista, Brasil deve manter vigilância moderada sobre Equador

Cristina Pecequilo entende que Unasul pode ter papel importante na reafirmação de que não há espaço para golpes na região
por João Peres, da RBA publicado , última modificação 01/10/2010 16h00
Cristina Pecequilo entende que Unasul pode ter papel importante na reafirmação de que não há espaço para golpes na região

Para pesquisadora, "toda movimentação que envolve violência, desrespeito às leis vigentes e ao governo que está no poder é um fato que nos traz de volta o passado da América Latina de maneira bem pesada" (Foto: Guillermo Granja/Reuters)

São Paulo – A tentativa de golpe no Equador remete imediatamente ao episódio ocorrido ano passado em Honduras, com a derrubada do governo legítimo de Manuel Zelaya. Cristina Pecequilo, professora de Relações Internacionais da Unesp, lembra que há episódios de instabilidade na própria história recente do Equador, o que é suficiente para manter a comunidade democrática em alerta.

Na quinta-feira (30), integrantes da Polícia Nacional se rebelaram contra o que consideram a perda de benefícios, fechando o aeroporto de Quito, bloqueando estradas e cercando o hospital em que fora internado o presidente Rafael Correa.

De imediato, presidentes sul-americanos, a Unasul e o Mercosul rechaçaram os atos golpistas, logo rejeitados também pela Organização dos Estados Americanos (OEA). Pecequilo avalia que é fundamental a condenação do movimento e a demonstração de que um novo golpe não será tolerado. A professora avalia que o Brasil deve desempenhar o papel de uma vigilância moderada, ou seja, ficar atento aos movimentos no Equador, mas sem ingerências sobre sua política interna.

Rede Brasil Atual - Qual o tamanho da preocupação gerada por essa tentativa de golpe? A gente pode considerar como uma tentativa de golpe?

Foi, foi uma tentativa de golpe. É muito preocupante porque é uma quebra da ordem institucional. Toda movimentação que envolve violência, desrespeito às leis vigentes e ao governo que está no poder é um fato que nos traz de volta o passado da América Latina de maneira bem pesada.

Quando se fala no passado, pode-se pensar nos golpes dos anos 1960 e 1970, mas podemos também lembrar do passado recente. Em 2009 teve golpe em Honduras. Não rechaçar aquele golpe foi um erro?

O erro, se foi, veio tanto da Organização dos Estados Americanos (OEA) quanto dos Estados Unidos, que acabaram apoiando o governo golpista. Então, foi uma sinalização perigosa.
Mas a gente não pode esquecer que no Equador tivemos, no passado recente, diversas crises institucionais pré-governo Correa. São episódios que ainda fazem parte da vida do país.

No Paraguai, o vice-presidente e parte da oposição tentam a todo instante encontrar uma maneira para tirar Fernando Lugo do poder. O caso mais recente foi o da doença.

Acho que no caso do Paraguai, embora tenha essas oscilações políticas bastante fortes, à medida em que está inserido de maneira forte no Mercosul, tem relação bastante estreita com o Brasil, isso exige uma certa contenção de forças no país. Caso contrário, estariam desrespeitando a cláusula democrática do Mercosul.

Mas há sempre instabilidade mesmo no Paraguai. O caso do câncer de Lugo é só o mais recente. Antes, teve o caso dos filhos. De todo modo, é uma situação diferente da equatoriana.

Que vigilância é preciso manter neste momento sobre a situação do Equador?

Ainda é cedo para afirmar se todo o problema foi debelado, embora o comando das Forças Armadas tenha afirmado que está respeitando o governo Correa. Mas há diversos pedidos, inclusive do presidente que antecedeu Correa, que foi o Lucio Gutiérrez, pedindo a dissolução do Congresso e a antecipação das eleições. Espero que a gente não tenha uma piora nos próximos dias. É algo preocupante. Aí entra o papel da OEA em condenar esse tipo de ação. E principalmente a Unasul.

As eleições na Venezuela contribuem de que maneira para o acirramento de posições na região?

É um debate dentro da Venezuela que vem ocorrendo com cada vez mais intensidade entre o governo Chávez e as forças de oposição. E nestas eleições, ainda que o Chávez tenha conseguido a maioria, foi um momento em que teve uma maioria menos significativa, demonstrando que há um espaço para a oposição crescer.

Se essa oposição continuar crescendo institucionalmente e o Chávez continuar respeitando esse crescimento, não existe risco real de quebra. Mas, como também é uma situação polarizada, é outro caso a que precisamos ficar atentos.

Qual o papel do Brasil, não no momento de apagar o fogo, mas na prevenção do incêndio nesses países?

A questão da prevenção passa pela reafirmação dos princípios democráticos via Unasul e aquela vigilância moderada. Ou seja, a sinalização de que hoje na América do Sul não se toleraria novo golpe, de que a ordem democrática deve ser mantida.

A grande questão é o que a gente faria se realmente acontecesse isso. O limite é aquele que foi encontrado em Honduras. Dá apoio ao governo que foi deposto, pede a restauração da ordem democrática. Mas não há possibilidade de agir para obrigar o país a respeitar sua própria democracia. Precisa ter uma vigilância moderada. Mais do que isso não pode ser feito.

 

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