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O adeus a Victor Jara, 36 anos depois

Espancado e assassinado pela ditadura em 1973 no estádio que hoje leva seu nome, cantor e dramaturgo chileno teve enfim seu funeral. Agora sem medo, e com povo
por Vitor Bari Neto, especial para Rede Brasil Atual publicado 09/12/2009 18h36, última modificação 21/10/2013 00h05
Espancado e assassinado pela ditadura em 1973 no estádio que hoje leva seu nome, cantor e dramaturgo chileno teve enfim seu funeral. Agora sem medo, e com povo

Em 18 de setembro de 1973, dias depois do sangrento golpe que derrubou o presidente do Chile, Salvador Allende, uma cerimônia praticamente clandestina ocorria em Santiago. O cantor Victor Jara – preso logo após o golpe – era enterrado às escondidas, acompanhado apenas pela companheira, a bailarina inglesa Joan Turner, e mais duas pessoas. Passados 36 anos, a história ganhou novo capítulo, e as canções de Jara voltaram às ruas.

Em 4 de junho de 2009, os restos mortais foram exumados, diante de Joan e de suas filhas Amanda e Manuela (esta com o coréografo Patricio Bunster) e levados ao Serviço Médico Legal do Chile, para perícia. Constatou-se o que todos sabiam: que o cantor passara por torturas antes de ser definitivamente silenciado. Jara sofreu um “choque hemorrágico agudo, produzido por múltiplos impactos de projéteis no crânio, tórax, abdome, pernas e braços”, informou o SML, já no final de novembro. Assim, a morte aconteceu em consequência direta “das feridas por armas de fogo distribuídas em todo o corpo”.

Mais de 30 ferimentos causados por bala. Os peritos encontraram diversas lesões provocadas por “objetos contundentes”. Um assassinato bárbaro, sem responsáveis até hoje. Assim morreu Jara, poucos antes de completar 41 anos: espancado e fuzilado. “O assassinato de Victor Jara continua impune. A nossa exigência de verdade e justiça se reafirma com a dor que significou remover sua tumba”, protesta a fundação que leva o seu nome.

Militante comunista, o compositor, cantor e diretor teatral apoiava o governo Allende, eleito em 1970 – pelo qual fora nomeado embaixador cultural. Como muitos, estava na Universidade Técnica do Estado, hoje Universidade de Santiago, tentando resistir ao golpe, quando foi preso e levado ao Estádio Chile. O local, um ginásio, onde tantas vezes se apresentou, onde em 1969 ganhou o primeiro festival da chamada Nova Canção Chilena, foi o cenário de sua morte. Leva hoje o seu nome.

Em junho, na véspera da exumação, Joan recebeu o título de cidadã chilena. “O nosso interesse nessa causa, como em todas as causas de direitos humanos, é que se investigue até as últimas consequências, até o último detalhe, e que os culpados – especialmente os que deram as ordens – enfrentem a Justiça e sejam castigados”, disse na ocasião o ministro da Justiça, Carlos Maldonado. Não se sabe se tal castigo virá, mas Amanda já via algum alento nas homenagens. “Nosso pai recebeu a melhor justiça, a justiça do povo”, disse.

Os pais de Victor chamavam-se Manuel e Amanda, personagens de uma de suas mais conhecidas canções (Te Recuerdo, Amanda). “Uma canção 'que fala do amor, dos operários, dos operários de agora, do que se vê nas ruas e às vezes não se dá conta do que fica dentro de alma, do operário, de qualquer fábrica, em qualquer cidade de nosso continente”, definiu o autor.

Em entrevista ao jornal argentino Clarín, em 2005, o cantor Victor Heredia disse acreditar que muitos artistas conhecidos se salvaram devido ao assassinato de Victor Jara, “devido ao repúdio mundial a esse crime da ditadura de Pinochet”.

No último dia 5 de dezembro, após dois dias de funerais, os restos de Victor Jara foram novamente enterrados, no Cemitério Geral de Santiago. No mesmo lugar do primeiro enterro. Mas sem medo, e com um multidão cantando. “Hoje, seu corpo destroçado pela tortura e pelo metal voltará à terra, envolto pelo amor de suas filhas e sua mulher, e pelo enorme amor de seu povo”, disse Joan, na última despedida.

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