Quer sumir da web? Tem ajuda: "suicide machine"
Quer “se matar”? Tem ajuda. Calma: trata-se apenas do “pseudo-você” na web.
A situação pode ser descrita como a de um suicídio tranqüilo. Ou de uma eutanásia sem dor nem culpa.
Seus organizadores a descrevem como um processo de liberação e de libertação. Através do suicídio eutanásico ou da eutanásia suicida, o paciente libera falsos amigos e se liberta deles; libera energias represadas ou mal empregadas e se liberta para usufrui-las.
Só que, no que toca à eutanásia/suicídio, o processo é inteiramente virtual. É um serviço disponível na rede.
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Não sei se vou usar a terminologia adequada, cresci com caneta tinteiro e mata-borrão; a primeira virou uma bonequinha de luxo e o segundo uma espécie de sapo em extinção. O host desse serviço é um site chamado de moddr_ que tem sede em Rotterdamm, na Holanda. Já o server é uma entidade por eles criada, que se chama Web 2.0 suicide machine. Se puserem esses nomes num researcher da internet vão acha-los facilmente.
O moddr_ é uma criação de alunos do curso superior de Media Design and Communication (em nível de mestrado), do Piet Zwart Institute, da Willelm de Kooning Academy da Rotterdam University. É especializado em estudos críticos da mídia. Os organizadores do moddr_ o apresentam como parte do WORM, um programa de ação crítico voltado para vários aspectos do meio ambiente midiático, inclusive a web (media environment). Explicam que o nome – moddr – lembra o holandês “modder”, que quer dizer “lama” (em inglês “mud”). A intenção do nome é definir uma ou mais propostas de “remodelagem” de tudo, do meio ambiente, da vida, dos usos e dos usuários. Mais ou menos como Jeová fez com Adão, ou melhor, com Eva, moldando-a a partir de uma remodelagem da costela do primeiro.
Isso no mito bíblico. Passando à vida de hoje em dia, o Web 2.0 suicide machine se presta para exterminar o “alterego” do usuário/vítima na rede. Garantem seus organizadores que ele é capaz de fazer isso em 52 minutos, o que levaria 9 horas e meia se esse usuário/vítima/paciente decidisse dar conta do recado por si mesmo.
Qual é conceito por trás e na frente dessa proposta? Não é tanto uma visão daqueles computadores monstruosos que decidem tomar o freio nos dentes, ou nos chips, e saírem agindo por conta própria, cujo modelo mais famoso é o HAL do filme “2001, uma odisséia no espaço”, de Stanley Kubrick. Ao invés, é algo mais sutil, como o romance também famoso, “O médico e o monstro” (“Dr. Jekyll and Mr Hyde”), de Robert Louis Stevenson. Neste último um médico reconhecido e austero, Dr. Jekyll, usa meios químicos para criar em seu próprio corpo uma segunda personalidade, cruel e amoral, Mr. Hyde, que termina sufocando a primeira.
O processo apontado/denunciado pela proposta da Web 2.0 suicide machine é análogo. Levados por necessidades as mais variadas, usuários da internet filiam-se a espaço virtuais que promovem o “social networking”. Para isso criam personalidades virtuais que se relacionam cada vez mais intensamente com outras personalidades virtuais. Essa rede gera dependência e pode virar uma prisão, pois ao querer sair dela, eventualmente, o usuário que quer se libertar pode provocar uma reação em cadeia de seus co-dependentes, que partem numa busca desesperada desse “renegado”, literalmente um “escravo fugitivo” que deve ser recapturado e “recuperado” para aquele “corpo social”.
In extremis (perdoem o latim) essa dependência pode gerar efeitos patológicos e trágicos, como o da adolescente Megan Meier, de Missouri, nos Estados Unidos, que aos 13 anos se suicidou, em 2006, ao se sentir abandonada por “Lori Drew”, uma personalidade virtual, criada “de mentirinha” por um rapaz adolescente.
Dizem os organizadores da machine que uma fuga individualizada, sem assistência técnica adequada, no mais das vezes é fadada ao fracasso, pois o fugitivo tem de apagar não só os traços alheios no seu acesso à rede, mas também deve apagar todos os traços da sua personalidade virtual, para que ela não volte a “assombra-lo” ou propiciar pistas para seus perseguidores.
É isso, então, que a Web 2.0 suicide machine faz com prontidão profissional: não só destrói seus “falsos” amigos, como destrói esse “alterego” que também pode virar um “superego”, cobrando exigências cada vez mais pesadas do seu suporte físico, isto é, o você de carne e osso – e espírito – que passa a ser simplesmente o cavalo (como no candomblé), ou o mordomo obediente e passivo do Mr. Hyde que despertou no seu mundo virtual. Diz que a machine faz isso sem deixar traço nem pistas. E você, dizem os organizadores, “se vê livre de novo como um passarinho”.
Os organizadores dizem que já atenderam 1.166 “suicidas”, desfizeram mais de 80 mil conexões. Seus alvos principais têm sido serviços como o Twitter e redes como a Myspace, a LinkedIn e a Facebook, que, até agora, foi a única a bloquear o acesso da machine a seus endereços e a ameaçar a moddr_ com “outras medidas” que ainda não ficaram muito claras, caso a machine continue a “invadir os seus espaços”.
Há uma discussão generalizada no mundo inteiro sobre se existe ou não uma “Internet Addiction” – em português, “Vício em Internet”. É claro que instituições médicas de prestígio internacional reconhecem que existe, em alguns casos, uma dependência que se manifesta pela adesão à internet, seja através das “redes sociais” ou da busca de pornografia, trabalho obsessivo ou compras compulsivas. Mas o que se discute é se essa manifestação pode ser vista como algo específico (como o alcoolismo, o tabagismo, a compulsão sexual obsessiva, etc.) ou se deve ser encarada sempre e apenas como o sintoma de alguma outra coisa.
De todo modo, o assunto desperta o interesse e a pesquisa em vários níveis e em vários países, sobretudo em relação aos jovens e crianças: entre outros, os Estados Unidos, a China, a Coréia do Sul e também o Brasil. Em nosso país já existem áreas especializadas em psicologia e informática pelo menos no Hospital das Clínicas e na PUC de São Paulo.
É cedo ainda para tirar conclusões definitivas sobre o problema, seu alcance, e a adequação das propostas da Web 2.0 suicide machine. Mas o auê que já provocou, com reações simpáticas e outras céticas, tanto na rede como na mídia convencional (p. ex., Los Angeles Times, The Guardian, cautelosamente simpáticas), demonstra a relevância do tema e também do bom humor dos que a organizaram.







