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Família Ferreira vive há um século de fazer instrumento de corda

Por: Marina Amaral, do Jornal Brasil Atual

Publicado em 26/02/2011, 14:34

Última atualização às 14:34

São Paulo - O português Ulisses Ferreira veio criança para o Brasil, e com 11 anos de idade já trabalhava em São Paulo. Seguindo a tradição dos imigrantes do início do século 20, quando terminou o grupo escolar, o menino foi ser aprendiz da fábrica Rei dos Violões, próxima à sua casa, na Lapa, que produzia instrumentos musicais feitos à mão.

O garoto se encantou em transformar um pedaço de madeira num instrumento vibrante, que dava vida às marchinhas de carnaval, às modinhas sertanejas – sua maior paixão – e aos primeiros sambas. Ulisses aprendeu a fazer violas, violões, cavaquinhos. Mas não imaginava que a profissão que iniciava seria um patrimônio familiar – o bisneto Murilo, 21 anos, trabalha com o pai, de mesmo nome, e é a quarta geração de luthiers com o sobrenome Ferreira.

Uma herança mais significativa do que o lucro obtido por Ulisses – quando a fábrica em que trabalhava faliu, ele foi para a Giannini e, depois, obteve do antigo patrão a permissão para reabrir a Rei dos Violões. Na década de 1950, ele vendeu a fábrica e fundou a Atlas, no Bom Retiro, então uma das maiores fabricantes de instrumentos de corda artesanais, com 60 funcionários.

“Meu avô não tinha temperamento para ser dono de negócio. Ele era um solitário, amava o trabalho manual e acabou só com a oficina, instalada aqui em Perdizes, há mais de cinquenta anos”, conta Murilo, 44 anos, pai de Murilinho. Foi nessa oficina, a alguns metros de onde fica hoje o ateliê Murilo Luthier, que Ulisses fabricou e consertou os instrumentos das estrelas da época – Inezita Barroso, Tonico e Tinoco, Orlando Silva, Francisco Alves. E realizou um feito histórico: fabricou a primeira guitarra maciça do país, a pedido do grupo The Rebels, no final dos anos 50.

Do sertanejo de raiz ao rock

Murilo, o pai, ainda não nascera – ele é de 1967 –, mas as guitarras acabariam se tornando o seu forte como luthier. Entre os instrumentos que conserta e fabrica hoje, mais da metade são guitarras e contrabaixos. Os outros 40% são violões acústicos, o que inclui cavaquinhos, bandolins e os violinos e violas de arco.

“Nós partimos da madeira crua e entregamos o instrumento de corda pronto, pintado e encordoado. Mas eu aprecio é a guitarra, porque eu gosto de rock’n roll, como meu filho; já meu pai mexia com viola caipira, ele gostava de sertanejo raiz, e meu avô, bem, esse gostava de experimentar” – conta Murilo, que tem entre seus clientes bandas e artistas veteranos do rock como Andréas Kisser, do Sepultura; Roger, do Ultraje a Rigor; Samuel Rosa, do Skank; e bandas da geração de seu filho, como NX Zero e Fresno.

Os vídeos do site www.muriloluthier.com.br em que registra cada passo da fabricação de um instrumento, valeram-lhe um reconhecimento importante. No ano passado, Murilo foi para a Califórnia a convite da Seymour Duncan – uma das melhores fabricantes de captadores de guitarra do mundo (as placas microfonadas ficam sob as cordas) – para fechar uma produção conjunta: ele fará as guitarras artesanais que terão captadores artesanais da Seymour. “Uma honra, um sonho realizado, um prazer” – resume.

Detalhe: Murilo não toca nada, assim como o pai, Guaracy, e o avô Ulisses. Sabe apenas o necessário para aferir a qualidade do som e afinar os instrumentos. “Meu pai me deu o mesmo conselho que recebeu do meu avô: ‘Se quiser ser um bom profissional, não aprenda a tocar’”. “Tem sentido, viu?”, completa Murilinho, o único da família que, além de fabricar, toca guitarra e baixo. “Às vezes fico tão entretido com o instrumento que esqueço de trabalhar”, admite, rindo.

Uma escola de 20 anos

Um dos obstáculos para formar novos luthiers é o tempo de aprendizado. “São precisos 20 anos para se construir um instrumento perfeito, com qualidade de som, leveza, beleza; por isso, o aprendizado começa na adolescência”, explica Murilo, que conta a sua história: “Desde criança, eu vivia no porãozinho do meu pai. Minha mãe armava uma rede para eu deitar e ficar olhando ele trabalhar. Eu adorava o entra e sai de artistas, o (sambista) Noite Ilustrada, o Zé do Rancho, sogro do Xororó. Aí, com 12 anos, depois de tomar mais uma bomba na escola, meu pai perguntou o que eu ia fazer da vida. Não tive dúvida: Quero trabalhar com o senhor.”

Hoje Murilo também fabrica as ferramentas que usa, como o avô fazia e o pai lhe ensinou. E escolhe as pranchas de madeira – de jacarandá e pinho sueco para os violões; mogno e cedro para guitarras (a imbuia é usada nos detalhes). “Como nem sempre acho madeira certificada para comprar, visito as demolições e aproveito vigas e tábuas dessas madeiras para os instrumentos, o que agrega valor” – explica. “O pessoal da Seymour Duncan, por exemplo, acha interessante eu usar madeira reciclada.”

Trabalho com requinte artesanal

Cerca de cem instrumentos por mês passam pela oficina para reparos, vinte deles para uma reforma completa. “Alguns são instrumentos de estimação, que chegam quase destruídos e exigem a mesma arte do que fazer um novo” – conta. Quanto às guitarras e violões confeccionados por ele, raramente ultrapassam cinco por ano, e são vendidos por preços que vão de R$ 4.000,00 a R$ 7.000,00. “Eu demoro três, quatro meses fazendo o instrumento, se você for ver pelo lado do dinheiro, nem compensa”, diz.

Esse é um dos motivos porque os artistas que frequentam o ateliê o respeitam tanto. “Quando o músico vê que aqui não é um comércio, mas uma oficina em que se trabalha por amor à arte, ele se identifica e confia.” Os vídeos que estão no site com depoimentos dos artistas sobre o seu trabalho, em especial o de Tom Zé (veja boxe), confirmam. “Às vezes penso que essa é uma profissão em extinção, trabalhosa e não muito lucrativa. Mas quando vejo o entusiasmo do meu filho e dos amigos dele, volto a acreditar na força do artesanal”, conclui Murilo Luthier.

Parceiros. De ideia e criação

Tom Zé é exigente em matéria de som. Daí o orgulho de Murilo em tê-lo como cliente há mais de 25 anos. “Na entrevista que deu ao Jô Soares, ele falou dois minutos sobre o meu trabalho”, gaba-se o luthier, citado pelo músico como “membro de família de luthiers, que trabalha há três gerações fazendo instrumentos de respeito”.

À época do programa, dezembro de 2008, Tom Zé estava em turnê com o show “Estudando a bossa”. O violão fabricado por Murilo era uma das principais estrelas. Planejado para ser todo montado e desmontado pelo músico em cena, seus componentes se transformavam em outros instrumentos, ferramentas de trabalho e até em uma mulher com quem dançava no palco (o vídeo está em www.muriloluthier.com.br/site/2008/12/violao-tom-ze e mostra a conversa entre o músico e o parceiro no planejamento da construção do instrumento).

“Eu aceitei pelo desafio porque entendi que, além de explorar as sonoridades da bossa nova, ele queria remontar aquele violão como quem constrói a mulher ideal, a musa da bossa nova”, explica. “Até brincos de marfim a danada tinha, feitos das cravelhas do violão", diverte-se o “parceiro de criação” de Tom Zé.

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