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Guaíra

Fechamento do Parque Maracá provoca controvérsia em Guaíra

Uma luta surda na cidade se dá entre quem quer muros e grades e quem deseja preservá-lo

Por: Jornal Brasil Atual

Publicado em 23/06/2011, 12:55

Última atualização em 27/06/2011, 09:08

Fechamento do Parque Maracá provoca controvérsia em Guaíra

Aterramento do Teatro de Arena: obra já foi licitada (Foto: Aquino José)

A maioria dos guairenses e a unanimidade dos turistas considera o Parque Ecológico Maracá o principal cartão postal do município. No Brasil, poucas cidades têm um espaço público de lazer como ele, com lagoa e área verde na área urbana, acessível à população e, mais raro ainda, com a assinatura de um célebre paisagista: em nosso Estado, apenas São Paulo, Campinas, São José dos Campos e Guaíra têm parques públicos projetados por Roberto Burle Marx.

Concebido como área de lazer e de preservação ambiental no fim dos anos 1960, o espaço ganhou status de Parque Ecológico em 1984, quando Burle Marx visitou a cidade para desenvolver o projeto. De lá para cá, sua implantação foi se dando aos poucos, seguindo ou não o projeto original, ao gosto e ritmo de cada administração.

Em 2006, a partir do plano de Burle Marx, uma equipe de especialistas desenvolveu o Projeto de Revitalização e Requalificação do Parque Ecológico Maracá, afinal aprovado em duas audiências públicas realizadas na Casa de Cultura. “Mas – segundo o ex-prefeito Sérgio de Mello – a vontade de tornar lei o Anteprojeto de Plano Diretor para o Parque Maracá não foi possível, em virtude de desinteresse e falta de apoio da Câmara de Vereadores.”

Agora, a cidade vive um dilema. Defensores do projeto original – e vários vereadores – não concordam com a decisão da Prefeitura de fechar para obras uma parte do Parque, mas elas já foram licitadas e o Teatro de Arena, aterrado. Tradicionalmente utilizada na Festa do Peão, a área do Parque Maracá que receberá muros e grades é denominada Parque Permanente de Feiras e Exposições Dr. Ademir Jovanini Augusto. Integrante do projeto original de Burle Marx, a ação não é aprovada por moradores e donos de hotéis das imediações, que preferem a transferência da Festa do Peão para outro local, em virtude dos transtornos que causa.

A Favor. Contra


Os vereadores estão divididos a favor e contra as mudanças no Parque Maracá. João Francisco Barbosa, do DEM, entende ser uma necessidade cercar o local para a realização de eventos. “Fica mais fácil administrar o Parque” – diz ele. Maria Aparecida Silva Armani, do PT, sustenta que “o fechamento restringe o acesso a um local público” e defende “a reforma, a manutenção e a ampliação da segurança para a utilização do espaço pela população”.

 

E sem posição


Sobre o fechamento parcial do espaço público, o presidente da Associação do Parque Maracá, dentista Miguel Zanini, afirmou que aguarda reunião da entidade, em data não definida, para manifestar parecer oficial sobre a mudança. O empresário Etevaldo de Morais, o Teo, que com o filho Vinícius atua no setor de hotelaria, defende o Parque aberto em virtude da bela paisagem. “Além de uma iluminação melhor, ele devia ter uma ciclovia, para segurança de pedestres e ciclistas” – diz.

 
Roberto Burle Marx
Foto: Divulgação de Burle Marx                                                                                                               
Roberto Burle Marx nasceu em São Paulo em 4 de agosto de 1909, e morreu no Rio de Janeiro em 4 de junho de 1994. Arquiteto e paisagista de renome internacional, ele foi um notável artista plástico brasileiro. Embora tenha trabalhos em todo o mundo, a maioria deles está no Rio de Janeiro, onde morou a maior parte de sua vida. 
Burle Marx atuou em diversos projetos célebres da Moderna Arquitetura Brasileira. O terraço-jardim do Edifício Gustavo Capanema, por exemplo, é considerado um marco de ruptura no paisagismo brasileiro. Definido por vegetação nativa e formas sinuosas, o jardim – com espaços contemplativos e de estar – possuía uma configuração inédita no país e no mundo. A partir daí, ele trabalhou com uma linguagem que se identificava com as vanguardas artísticas da arte abstrata, do concretismo e do construtivismo. As plantas baixas de seus projetos lembram muitas vezes telas abstratas, nas quais os espaços criados privilegiam a formação de recantos e caminhos de vegetação nativa.

Uma história que vem dos anos 1960


O Parque Maracá começou nos dois mandatos alternados dos prefeitos Waldemar Chubaci (1964-1969, 1973-1977) e Aloísio Lélis Santana (1969-1973, 1977-1983), com aquisição da área para implantação do parque, formação da lagoa e construção da praça do terminal rodoviário, da Praça Maracá, dos prédios da Prefeitura, Câmara Municipal, Casa de Cultura, Ginásio de Esportes e do Parque Permanente de Feiras e Exposições. No período seguinte, do prefeito Fábio Talarico (1983-1987), Guaíra recebeu a visita do paisagista Roberto Burle Marx que concebeu o projeto de implantação do Parque Ecológico Maracá no entorno do lago.


A represa Maracá, em 1970 (Foto: Acervo Museu Maria Carolina Alves Lelis)Nos governos seguintes, umas mais, outras menos, todas as administrações realizaram investimentos no parque, muitas vezes sem atentar ao projeto do paisagista. Em 2004, no mandato-tampão do prefeito José Carlos Augusto, foi demolido o Pavilhão de Exposições no Parque Permanente – uma descaracterização semelhante ao aterramento do Teatro de Arena realizado por ele agora, em função da Festa do Peão.

No governo Sérgio de Mello (2005-2008), dada a importância do parque como  bem urbano e para a sua proteção, foram desenvolvidas ações importantes, dentre elas: 

  • Estudo geológico para caracterização do estado atual de assoreamento do reservatório do Parque Maracá (lagoa);

  • Plano de Requalificação e Revitalização do Parque Ecológico Maracá – Diagnóstico funcional e ambiental, resgatando, após 22 anos, o projeto original de Burle Max e estabelecendo um Plano Diretor de Uso e Implantação;

  • Realização do Concurso Nacional de Arte Pública Tridimensional e início da implantação do Museu Aberto de Esculturas (MAE), com instalação de obra da artista plástica Tomie Ohtake; 

  • Iniciado o Plano de Revitalização do Parque com a construção da Praça Profª Izabel Lelis, dotando-a de iluminação, jardinagem, caminhos pavimentados e anexação da antiga Praça do Cinquentenário à orla do Parque Maracá, conforme concebido por Burle Marx;

  • Foram deixados cerca de R$ 800 mil em caixa para a atual administração executar as obras da segunda etapa do Plano de Revitalização do Parque, com convênio formalizado com o Ministério do Turismo (governo Lula) e projetos prontos para serem licitados.
 

Uma escultura abandonada


Em 2008, foi inaugurado o Museu Aberto de Esculturas (MAE) na área do parque que Burle Marx projetou como o Jardim das Esculturas. A primeira obra, da renomada artista plástica Tomie Ohtake, é uma homenagem ao Centenário da Imigração Japonesa – colônia numerosa e de grande importância no desenvolvimento agrícola do município. Depois, foi realizado um concurso público para escolha de outras sete obras, de artistas famosos. 
A Obra de Tomie Ohtake (Foto: Aquino José)

Contrário ao projeto, o governo atual abandonou a ideia e não preservou sequer a escultura de Tomie: há mais de dois anos seus refletores estão desativados, impedindo a bela visão noturna da escultura às margens da lagoa. Em outubro de 2010, vândalos quebraram um dos treze arcos da escultura, que cedeu – era preciso soldá-lo para que voltasse à posição original. Nada foi feito e a situação piorou. O tubo de aço foi partido em dois e jogado no chão, ao lado da escultura. Depois da Festa do Peão, o tubo quebrado sumiu do local.

 

Recuperação da obra é negociada


O coordenador municipal de cultura, Marcelo Borba Freitas, informa que uma parte do material quebrado foi roubada e a outra parte está guardada. “O Instituto Tomie Ohtake foi contatado e a recuperação da escultura está em processo de negociação”. Segundo ele, a responsabilidade pelos cuidados do local também é da Secretaria Municipal do Meio Ambiente.

Vinicius se lambuza no jambeiro (Foto: Aquino José)
 

Jambo, a fruta no pé

 

Subir na árvore, apanhar e comer jambo vermelho no Parque Maracá é programa do pedreiro Vinícius Conrado Lourenço, 18 anos, morador no bairro Miguel Fabiano. O sabor da “maçãzinha do mato é bom” – garante. “A fruta bem madurinha parece vinho” – diz o rapaz. Quando o pé está carregado, ele é freguês do local. Originário da Malásia, o jambo vermelho é presente nos Estados da Região Norte, Nordeste e nos locais quentes do sudeste brasileiro. Além do Parque Maracá, a árvore é encontrada também em alguns bairros da cidade.

 
 
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