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Retorno de Cuba à OEA seria autocrítica tardia da organização

Para professor da UFRJ, país voltaria à entidade como uma nação que não se curvou e que retorna nas mesmas condições em que foi excluído
por João Peres, da RBA publicado , última modificação 01/06/2009 09h15
Para professor da UFRJ, país voltaria à entidade como uma nação que não se curvou e que retorna nas mesmas condições em que foi excluído

O presidente de Cuba, Raul Castro, em evento com o presidente Lula no Itamaraty (Foto: Roosewelt Pinheiro. Agência Brasil)

A Organização dos Estados Americanos (OEA) tem esta semana a Assembleia Geral mais tensa nos últimos anos. O encontro de terça e quarta-feira (02 e 03) em San Pedro Sula, Honduras, pode marcar o fim da exclusão de Cuba dos quadros da entidade depois de quase cinco décadas.

Mauro Iasi, professor da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro, aponta em entrevista à Rede Brasil Atual que o término da punição seria uma autocrítica tardia por parte da OEA. Para ele, a ilha retornaria à instituição nas mesmas condições em que foi excluída, como uma nação que não se curvou às imposições e que nunca falou que fixaria um preço para abrir mão de seus princípios.

Ao longo das últimas semanas, embaixadores e presidentes têm trabalhado nas articulações para que a assembleia possa aprovar a resolução. Mas o governo de Raul Castro não parece disposto a aceitar o retorno à organização. Em reiteradas ocasiões o presidente destacou que não queria retornar à OEA. Pelo contrário, esperava que a instituição simplesmente desaparecesse do mapa. Em uma série de artigos concluída na última sexta-feira (29), o jornal Granma afirma que “a OEA impôs sua moral dúbia, a corrupção política e administrativa, fez ingovernáveis as democracias, converteu-as em ditaduras e, quando já não serviam mais, voltou a convertê-las em democracias mais minguadas”. Por fim, a publicação afirma que a organização é um cadáver político pestilento e “testemunha de tantas vergonhas compradas”. Cuba defende a criação de uma entidade dos países latino-americanos e caribenhos, deixando de fora os Estados Unidos.

Para Mauro Iasi, o descrédito obtido pela OEA não é à toa. O professor lembra que a instituição teve, por várias vezes, um papel omisso e, em outras ocasiões, serviu claramente aos interesses imperialistas dos Estados Unidos. O apoio ao bloqueio estadunidense contra Cuba é um desses aspectos. Mauro Iasi pontua que “o embargo sobre Cuba e o isolamento dela da América Latina é algo absolutamente contrário a várias normas do direito internacional e ao bom senso”. O fim das restrições, no entanto, traria novos tensionamentos à economia cubana devido ao crescimento da presença capitalista no país.

Os papéis de Brasil e de Estados Unidos

O professor da UFRJ aponta que a política externa de Barack Obama não é fruto de algo plenamente planejado, mas das condições entregues pelo governo anterior. George W Bush, ao colocar a questão militar em primeiro plano, “acabou escondendo uma miséria reticente, uma disparidade monumental no gasto público, um liberalismo que nunca desenvolveu o estado de bem-estar social”.

Na gestão de Obama, os problemas internos já são suficientemente fortes para gerar mudanças na relação com as outras nações. O atual presidente não pode partir da premissa de que a estabilidade latino-americana está garantida, tampouco a situação para além das fronteiras, como o Iraque e o Afeganistão.

De certo modo, isso abre espaço para que países como o Brasil exercitem uma hegemonia regionalizada. Mauro Iasi acredita, no entanto, que o governo Lula desperdiça uma boa oportunidade ao manter com os outros países da região uma pauta guiada pelos assuntos econômicos e comerciais e defende que os resultados seriam muito mais interessantes se levada em conta a solidariedade com os vizinhos.

Quanto ao governo de Cuba, o professor destaca que não há mudanças muito grandes na transição de Fidel para Raul Castro. Diferentemente do que se pensa, há no país uma correlação política que vai muito além de um poder autocrático que se fez crer existir. “Desde 1979 se estabeleceu uma cultura de poder popular que tem certa institucionalidade em funcionamento. Eu acredito que está longe de ser algo que dependa única e exclusivamente de uma personalidade. Eu tenho absoluta convicção que Fidel, enquanto viver, é uma figura central pelo papel que ele tem para a sociedade cubana. Mas o grupo de poder do qual intermente se expressava Fidel é o mesmo que expressa Raul”, aponta Mauro Iasi.