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Debate

Para coordenadora do Ethos, futebol não pode ser mundo à parte no campo da ética

"O futebol deveria ser o catalisador de mudanças devido ao exemplo que pode transmitir", afirma Paula Oda. "Tem que se trabalhar para aumentar a percepção do torcedor", diz o presidente do Flamengo
por Redação RBA publicado 27/09/2017 13h49, última modificação 27/09/2017 14h21
"O futebol deveria ser o catalisador de mudanças devido ao exemplo que pode transmitir", afirma Paula Oda. "Tem que se trabalhar para aumentar a percepção do torcedor", diz o presidente do Flamengo
LUCAS UEBEL/GREMIO FBPA
Ética no futebol

"A gente coloca de lado nossos dilemas éticos e morais em prol do resultado", diz Paula Oda

São Paulo  O futebol, em um país como o Brasil, não pode ser tratado como uma mera modalidade esportiva, dissociada da realidade social do país. Essa foi uma das questões tratadas em uma das mesas da Conferência Ethos 360o, realizada ontem (26) no Transamérica Expo Center, em São Paulo.

"Quando comecei a ler, lia o Jornal do Brasil e a última página, a de Esportes. Com 6, 7 anos de idade, via o noticiário do Flamengo e dos clubes concorrentes, e a coluna do Armando Nogueira. O resto do jornal não entendia. À medida que foi passando o tempo mantive o hábito de ler o jornal de trás pra frente, e ainda hoje boa parte das crianças brasileiras começa a ler o jornal de trás pra frente", contou o presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Mello, ressaltando a importância que o esporte tem como ponto de referência para a infância e adolescência no Brasil.

Para a coordenadora do Instituto Ethos, Paula Oda, o futebol não pode ser tratado como uma zona à parte em que os princípios éticos não precisariam ser respeitados. "A gente coloca de lado nossos dilemas éticos e morais em prol do resultado. E a gestão esportiva, quando bem realizada, pode de fato ajudar a desenvolver os clubes de futebol", apontou, referindo-se ao fato de muitos torcedores separarem o conceito de gestão financeira responsável o que inclui manter salários em dia e cumprir contratos, por exemplo dos resultados em campo, privilegiando o segundo sobre o primeiro. "O futebol deveria ser o catalisador de mudanças devido ao exemplo que pode transmitir."

Falta mobilização

O jornalista Juca Kfouri destacou o comportamento dos torcedores em geral, que são capazes, por exemplo, de invadir um centro de treinamento se o time estiver em má fase em uma competição, mas não se mobilizam em relação a questões maiores que atravancam o desenvolvimento do futebol brasileiro e abrem portas para a corrupção, como as restrições existentes para que um candidato de fora do establishment chegue à presidência da CBF.

"É muito emotiva a questão do futebol e parece ser esse o grande problema. É fácil discutir corrupção quando se olha a classe política e empresarial no cenário nacional, parece algo mais distante. Mas quando se mexe naquilo que toca aos torcedores de fato, essa mobilização aparece", ponderou Paula Oda. "O papel que a CBF exerce até hoje precisa ser questionado, mas essa é uma luta que talvez não se queira comprar, ainda mais no contexto atual onde se tem que comprar tantas lutas", completou.

Para exemplificar essa mistura entre emoção e razão, embaralhando as questões éticas, Kfouri contou que publicou em seu blog uma piada sobre o Corinthians ter "comprado" jogos no Brasileiro e ele, entre outras ofensas, foi "acusado" de não ser corintiano, time pelo qual torce. "O moderador de comentários pediu para eu não fazer mais isso. Sequer se pode brincar com o fato que a torcida não aceita."

"Tem que se trabalhar para aumentar a percepção do torcedor. Como a torcida do Flamengo, que está comprando essa briga da ética, dos valores, porque não aguentava mais ser incomodada porque o time dele estava sempre devendo salários", disse Bandeira de Mello.

Fim do Profut e papel da mídia

A decisão em caráter liminar do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes que desobriga os clubes de futebol a cumprirem as exigências do programa de refinanciamento de dívidas fiscais e tributárias do governo federal (Profut) foi criticada pelos participantes do evento.

"Acabamos de ver o ministro do STF arguindo a inconstitucionalidade do Profut e de alguma maneira anistiando os clubes que não cumpriram suas obrigações. Tem um nome isso: doping financeiro. O clube passa a poder contratar os melhores jogadores, pois não vai pagar mesmo", pontuou Kfouri.

O presidente do Flamengo destacou que o programa estabelece "restrições severas, porém, necessárias", acreditando ter esperança de que o pleno do STF consiga reverter a decisão. Ele também lembrou que o o Conselho Deliberativo do clube aprovou a Lei de Responsabilidade Fiscal Rubro-Negra, uma emenda ao estatuto que consolida a manutenção da governança corporativa. "Acredito que daqui para a frente dirigentes do Flamengo vão pensar duas vezes antes de sair da linha."

Outro alvo de críticas foi a mídia, que muitas vezes colabora com uma visão que coloca a ética em segundo plano no campo do futebol. "Há poucos setores tão reacionários e conservadores como a imprensa esportiva no Brasil e poucos conseguem separar o coração da razão", destaca Kfouri. "Mesmo que o torcedor faça elogio da gestão de um clube, ele quer títulos, e a imprensa brasileira não está mais avançada que o país. Boa parte dos problemas do Brasil tem a ver com a maneira como se dá a cobertura da imprensa", assinalou.

"A mídia acaba reforçando muito o dilema ético que se vive no futebol. Os clubes têm uma relação parasitária com a grande mídia, o que prejudica bastante uma percepção mais clara para se traduzir o problema da gestão. A questão da CBF, por exemplo, é pouco comentada", lembrou Paula Oda.