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Impeachment ou golpe?

É para sair arrasado do filme, diz diretora de 'O Processo'

Cineasta, que participou de exibição e debate na Assembleia paulista, lembrou que "não existe filme isento", mas todos os lados da história foram mostrados
por Vitor Nuzzi, da RBA publicado 13/06/2018 19h01, última modificação 13/06/2018 19h22
Cineasta, que participou de exibição e debate na Assembleia paulista, lembrou que "não existe filme isento", mas todos os lados da história foram mostrados
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Maria Augusta Ramos (à dir.) com a deputada Beth Sahão: "Cada escolha é estética e ética"

São Paulo – O documentário O Processo começa com uma tomada aérea na platitude da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, contrastando com a cena seguinte, uma tumultuada sessão no plenário da Câmara. Imagens e sensações de menos de dois anos atrás foram revividas, e sentidas, durante exibição na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), com a presença da diretora, Maria Augusta Ramos. Não é cinema de entretenimento, mas incômodo, alerta a autora. "A gente tem de sair arrasada desse filme."

Com duração de 137 minutos, O Processo já foi visto por 58 mil pessoas em quatro semanas de exibição em circuito comercial – continua em cartaz. Em agosto, deve ser exibido em plataformas na internet. A narrativa da destituição de Dilma Rousseff tem cenas de comissões no Congresso, reuniões reservadas dos defensores da presidenta e manifestações de rua, sem entrevistas, comentários ou legendas, como é característica da diretora, responsável por filmes como Brasília (2004), Juízo (2007) e Futuro Junho (2015). "Os (meus) filmes são construídos a partir de observações do cotidiano."

Maria Augusta editou 450 horas de material para chegar às pouco mais de duas horas de filme, ainda assim um tempo extenso para um documentário. "Cada escolha é uma escolha estética e ética."

"Não existe filme isento", lembra a diretora, quando uma senhora da plateia pergunta sobre seu posicionamento político. Ela conta que não é, nunca foi, ativista ou militante do PT. "Votei no Lula, na Dilma, voto na esquerda. O filme é a minha visão daquela realidade. Sou um ser político, que tem valores."

A cineasta lembra que não conhecia nenhum dos políticos ou envolvidos no processo que aparecem na tela, de direita ou de esquerda – os senadores Gleisi Hoffmann (PT-PR) e Lindbergh Farias (PT-RJ), além da professora Janaína Paschoal e do então advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo, aparecem com algum destaque, mas há várias personagens ali, como o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (MDB-RJ), chave na história, afastado por corrupção pouco depois de autorizar a abertura do processo. 

O filme deixa claro um lado, sem esquecer de mostrar as diferentes posições em jogo e a divisão do país. "Acho que os argumentos a favor do impeachment estão contemplados", analisa Maria Augusta.

Momento histórico

Líder da bancada do PT na Assembleia Legislativa, Beth Sahão considerou o filme um "importante retrato deste momento histórico", que resultou na "delicada" situação atual. Uma história que também faz "reviver a dor", diz a deputada, que sentiu falta, no documentário, de uma reflexão sobre a mídia. Maria Augusta afirma que procurou ter foto nos aspectos jurídicos e políticos do processo de impeachment. Alguém pergunta por que ela resolveu fazer esse trabalho. Ela responde: "Como não fazer?".

Convidado para o debate, o professor Gilberto Sobrinho, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), considera O Processo "um olhar muito particular sobre o Brasil", "um trabalho de resistência, estética e política", uma reflexão sobre as instituições brasileiras, até para ajudar as pessoas a repensar, escapando da influência da mídia. "É em torno da teatralização da política que o filme vai se organizar também."

Entre a plateia que foi à sessão no auditório Franco Montoro da Assembleia, na manhã desta quarta-feira (13), uma senhora que viu o filme na praça, em Curitiba, um militante petista de Grajaú, na zona sul paulistana, que agradece pela "ajuda na disputa da narrativa" em torno da natureza do processo – impeachment ou golpe –, uma jovem que participou de várias manifestações e se confessa emocionada por rever aquele momentos. Alguns perguntam por que a diretora opta por não usar legendas.

É justamente para exigir mais do espectador, para que ele se informe, diz Maria Augusta, que fala em certa "preguiça", estimulada pela mídia. "Tudo é dito no filme. Fica muito claro no início quem é favor do quê. Minha proposta não é fazer cinema de entretenimento, é incomodar."

Comunicação

Alguém fala sobre a importância da formação política. Cita uma cena simbólica a esta altura, quando o então ministro Gilberto Carvalho, já na evidência da derrota, faz uma avaliação crítica, afirmando que Getúlio Vargas, 70 anos atrás, "teve a clareza que não tivemos", citando a criação do jornal Última Hora.

"Fica muito difícil falar em comunicação com o povo se a gente não fala com o povo", diz Carvalho, para quem os governos petistas optaram por não mexer na questão e continuaram alimentando os meios tradicionais de comunicação. "Enchemos os bolsos dos caras de dinheiro", constata. "Nós, de alguma forma, facilitamos a estrada deles (os defensores do impeachment)."

Logo no início, o filme exibe trechos da famosa sessão da Câmara, em 17 de abril de 2016, que aprovou a admissibilidade do processo contra Dilma. Mostra alguns dos principais momentos daquele período, que culminou na aprovação do impeachment em 31 de agosto, ao final de uma "saga política caótica", como definiu uma jornalista estrangeira.

"O mar da história é agitado", afirma Dilma, citando o poeta russo Vladimir Maiakóvski, pouco antes de deixar o cargo, alertando para o início de um período de retrocesso social, como se pôde constatar tempos depois. Curiosamente, o filme para por alguns instantes no momento em que a presidenta está frente a frente com o senador tucano Aécio Neves, seu adversário em 2014, e que parece ganhar a preferência da plateia na hora dos apupos.

A exibição termina pouco antes das 13h, com gritos de "Lula livre". Uma ausência insistente chama a atenção no documentário: em nenhum momento Michel Temer aparece. Talvez seja um não-personagem.

A diretora já recebeu muitos pedidos de exibição do filme, algo que também depende de questões contratuais. Ela conta que em Mossoró (RN) a população fez abaixo-assinado para que O Processo passasse no cinema.