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Cinema nacional

Longa critica indústria farmacêutica: o lucro vale mais que a vida

'Antes do Fim', de Cristiano Burlan, traz Helena Ignez e Jean-Claude Bernadet em uma discussão filosófica sobre o suicídio como resistência à longevidade imposta: 'Viver não é um dever; é um direito'
por Xandra Stefanel, especial para RBA publicado 15/02/2018 18h49, última modificação 15/02/2018 19h00
'Antes do Fim', de Cristiano Burlan, traz Helena Ignez e Jean-Claude Bernadet em uma discussão filosófica sobre o suicídio como resistência à longevidade imposta: 'Viver não é um dever; é um direito'
Marina de Almeida Prado/Divulgação
Morte

'Antes do Fim” não é uma ode ao suicídio, mas um grito pelo direito a uma vida com qualidade

“A imensa máquina da medicina (hospitais, laboratórios, farmácias, médicos, inseguro saúde, máquinas de diagnósticos por imagem etc., e mais cosméticos, alimentação…) produz a nossa longevidade. Somos um produto dessa indústria. Produto e fonte de riqueza. A máquina precisa manter nossa longevidade para se expandir e lucrar. A preocupação da máquina capitalista não é nos manter em vida com qualidade de vida, mas manter em nós a bio. À máquina não interessa o ser vivo, mas a bio de que ele é portador. Um primeiro passo para resistir à máquina que nos alienou de nossos corpos é se recusar a técnicas de prorrogação da bio em nós. Passo mais radical para eliminar a fonte de riqueza da máquina: o suicídio consciente e lúcido como forma de resistência extrema e de reapropriação de nossos corpos.”

O cineasta, ex-crítico de cinema, escritor e ator francês radicado no Brasil publicou o texto acima em seu blog em abril de 2015 e foi esta reflexão que inspirou o cineasta gaúcho Cristiano Burlan a fazer o filme Antes do Fim, que estreia nesta quinta-feira (15) em São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e João Pessoa. O longa, que traz Helena Ignez e Jean-Claude no elenco, é uma ficção que filosofa sobre o direito à morte quando a vida já não pode mais ser vivida com qualidade.

O longa-metragem mergulha na vida do casal de idosos que na ficção leva o mesmo nome dos atores. Ao se sentir preso à lógica de longevidade imposta pela indústria farmacêutica, Jean decide planejar um suicídio consciente e convida Helena para que isso seja feito a dois. Cheia de vitalidade e com a certeza de que ainda tem muito a viver – mesmo que seja só –, ela hesita, mas decide ajudá-lo com todos os preparativos e detalhes para o funeral. “Ele dança a morte enquanto ela segue ensaiando a vida. Nesse processo, os dois se darão conta de que antes do fim, ainda há uma vida inteira.”

O filme não é sobre a morte, mas sobre a vida. Viver não pode ser um dever, mas um direito, um desejo”, afirma Cristiano Burlan. Também não se trata de uma ode ao suicídio, mas um grito pelo direito a ter uma vida com qualidade e, quando isso não for mais possível, de poder decidir se se quer continuar ou se a melhor saída é encarar a morte com dignidade.

A temática da morte, aliás, é recorrente na obra de Cristiano. Ele encerra este ano sua Trilogia do Luto, com três documentários sobre a morte de seu pai, irmão e sobre o assassinato de sua mãe, Elegia de um Crime, este último com previsão de estreia em 2018.

Também não é a primeira vez que o diretor trabalha com Jean-Claude Bernardet, que integra o elenco dos filmes Fome, Hamlet, No Vazio da Noite e Amador. No entanto, é o primeiro trabalho de Burlan com a soteropolitana Helena Ignez, atriz de vanguarda com intensa participação no Cinema Marginal. Ela atuou em O Assalto ao Trem Pagador, O Bandido da Luz Vermelha, Copacabana Mon Amour e outros clássicos dos anos 1960 e 1970.

Além da crítica à indústria farmacêutica e da ode ao livre arbítrio, outro ponto forte do longa é a atuação visivelmente livre de Jean e Helena, seus silêncios, suas danças, introspecções e provocações. “É sempre um desafio trabalhar com Helena e Jean-Claude, eles são intensos, rebeldes e embarcam comigo nesse abismo que é produzir filmes nas circunstâncias em que faço”, declara Burlan, em referência à sua (já) habitual produção independente.

Antes do Fim traz na trama muitas referências cinematográficas (do cinema mudo à Helena Ignez, ainda muito jovem, gritando seu horror à velhice, em Copacabana Mon Amour), literárias (com Albert Camus e o intenso Carta à D., de André Gorz) e de dança (com o hipnotizante butô de Kazuo Ohno). Tudo isso, mais as discussões filosóficas, os silêncios e a contrastada fotografia de Helder Martins, faz do longa uma obra ousada e bastante densa, que vale cada um de seus 86 minutos.

CartazAntes do Fim
Direção: Cristiano Burlan
Roteiro: Ana Carolina Marinho e Cristiano Burlan
Produtora executiva: Priscila Portella
Coprodução: Canal Brasil
Som direto: Gustavo Canovas (técnico) e Valney Damacena
Direção de fotografia: Helder Martins
Assistência de direção: Emily Hozokawa
Assistente de produção executiva: Etrus Pedrosa
Still: Marina de Almeida Prado
Fotografia adicional: Renato Maia
Produção de set: Amanda Bortolo
Direção de arte: Tiago Marchesano
Figurino: Lucas Navarro e Paula Navarro
Montagem: Renato Maia e Cristiano Burlan
Desenho e mixagem de som: Edson Secco
Trilha sonora original: Edson Secco
Elenco: Helena Ignez, Jean-Claude Bernardet, Ana Carolina Marinho, Henrique Zanoni, Rodrigo Sanches, André Gatti e Edson Ferreira
Gênero: ficção
Cor: preto e branco
Duração: 86 minutos
País: Brasil