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Cinema

Em 'Mulher do Pai', temática e equipe reforçam protagonismo feminino

Primeiro longa-metragem da cineasta gaúcha Cristiane Oliveira conta a história da adolescente Nalu que, depois da morte da avó, tem de cuidar do pai cego no interior do Rio Grande do Sul
por Xandra Stefanel, especial para RBA publicado 19/06/2017 08h44
Primeiro longa-metragem da cineasta gaúcha Cristiane Oliveira conta a história da adolescente Nalu que, depois da morte da avó, tem de cuidar do pai cego no interior do Rio Grande do Sul
Divulgação
Nalu

'A discriminação em relação à identidade de gênero pode estar tão ligada a uma cultura que acaba se manifestando como algo natural na própria mulher'

Estreia nesta quinta-feira (22), o longa-metragem Mulher do Pai, da cineasta gaúcha Cristiane Oliveira. Além da temática que aborda o universo de uma adolescente no interior do Rio Grande do Sul, boa parte da equipe foi composta por mulheres. Protagonizado por Maria Galant e Marat Descartes, o filme conta a trajetória de Nalu, uma jovem cheia de vida que, depois da morte da avó, precisa cuidar de Ruben, o pai cego. Ao mesmo tempo, ela se vê frente ao dilema de ser tecelã como a avó ou de buscar uma nova vida longe da pequena comunidade onde vive, na fronteira com o Uruguai.

Dentro da casa de Nalu, tudo gira em torno do pai: antes de morrer, a avó era responsável por todos os afazeres domésticos, o que deixava Nalu mais livre para viver as pequenas aventuras e descobertas da adolescência. Quando a avó morre, ela se vê obrigada pelo pai e pela comunidade ao seu redor a assumir os cuidados da casa e de Ruben, um homem fechado e sisudo. Quando ele se dá conta que aos 16 anos a filha já é uma mulher, surge entre os dois uma ambígua proximidade e tudo fica ainda mais confuso quando Rosário, professora de Nalu, entra na vida deles.

Há tensão, há ciúme mas, acima de tudo, há o peso de uma sociedade extremamente conservadora que determina e cobra o cumprimento dos tradicionais papéis de gênero. Como o "homem da casa" não tem condições de trabalhar e vive com uma pequena ajuda do governo, recai sobre as costas de Nalu a pesada responsabilidade de cuidar do lar e logo ela deve começar a prover o sustento da família. Mas a jovem quer estudar, quer viver suas descobertas sexuais, quer viajar…

"Se por um lado o personagem masculino está fragilizado no filme, por outro lado temos mulheres que vivem em função dele, numa repetição de modelos que favorecem a figura masculina. A transformação que Nalu viverá, com o apoio de outras mulheres, não é redentora. Vem acompanhada das perdas naturais do amadurecer", afirma a diretora e roteirista.

RBA pai
Dentro da casa de Nalu, tudo gira em torno do pai cego

Mulher do Pai foi todo filmado em municípios do interior do Rio Grande do Sul, onde a cultura do gado é muito forte e a atuação das mulheres no mercado de trabalho, bem menor. Por isso, "o filme deu a oportunidade para muitas delas terem seu primeiro emprego remunerado", aponta o material de divulgação do longa. "A discriminação em relação à identidade de gênero pode estar tão ligada a uma cultura que acaba se manifestando como algo natural na própria mulher. Nalu é uma adolescente que vem desse contexto e é difícil para ela realizar a própria autonomia independente de um homem", declara Cristiane.

Além de a temática abordar o feminino e condição da mulher, o filme foi realizado com uma equipe encabeçada por mulheres: a produção ficou sob o comando de Aletéia Selonk, a produção executiva é de Graziella Ferst e Gina O’Donnel, a excelente direção de fotografia é de Heloisa Passos, a direção de arte de Adriana Nascimento Borba, a supervisão de som de Miriam Biderman e o roteiro e a direção foram assumidos por Cristiane.

"Não foi intencional escolher mulheres para a equipe, foi uma reunião de pessoas com quem eu queria trabalhar, pelo talento delas. Mas o talento precisa de espaço para se expressar e fico feliz que, em um mercado ainda majoritariamente masculino, tantas mulheres tenham encontrado no filme uma oportunidade e estejam sendo reconhecidas pelo seu trabalho", comemora a diretora.

Mulher do Pai ganhou oito prêmios em festivais, entre eles o de melhor Direção no Festival do Rio e o Prêmio ABRACCINE na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, foi também selecionado para importantes festivais internacionais, como os de Berlim, Guadalajara e o do Uruguai.

CartazMulher do Pai
Roteiro e direção: Cristiane Oliveira
Produção: Aletéia Selonk, Cristiane Oliveira, Diego Fernández
Produção executiva: Graziella Ferst, Gina O´Donnell, Gabriel Richieri
Produção associada: Gustavo Galvão
Direção de fotografia: Heloisa Passos, ABC
Direção de arte: Adriana Nascimento Borba
Consultoria de arte: Gonzalo Delgado Galiana
Som direto: Raúl Locatelli
Montagem: Tula Anagnostopoulos
Corroteiro e continuidade: Michele Frantz
Supervisão de edição de som: Miriam Biderman, ABC
Desenho de som: Ricardo Reis
Mixagem: Paulo Gama
Elenco: Maria Galant, Marat Descartes, Verónica Perrotta, Amélia Bittencourt, Áurea Baptista, Fabiana Amorim, Jorge Esmoris, Liane Venturella, Diego Trindad
Distribuição no Brasil: Vitrine Filmes