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Cinema

Novo filme de Ken Loach é um grito aflito por mais humanidade

Inspirado em fatos reais, 'Eu, Daniel Blake' retrata as aberrações do sistema de ajuda social da Inglaterra e escancara desigualdade, burocracia e a falta de empatia dos agentes do Estado
por Xandra Stefanel, especial para RBA publicado 07/01/2017 11h46, última modificação 08/01/2017 11h35
Inspirado em fatos reais, 'Eu, Daniel Blake' retrata as aberrações do sistema de ajuda social da Inglaterra e escancara desigualdade, burocracia e a falta de empatia dos agentes do Estado
Divulgação
Daniel

Apesar das humilhações que Daniel sofre, ele não se deixa abater e luta para manter a dignidade

Daniel Blake (Dave Johns) é um carpinteiro de 59 anos que, depois de ter um problema no coração, é aconselhado pelos médicos a não voltar ao trabalho. Para sobreviver, procura ajuda social, mas o governo britânico o julga apto para retomar suas atividades. Ele depara então com uma burocracia sem fim do sistema previdenciário. Em uma de suas tentativas de solucionar o problema, Daniel acaba conhecendo Katie (Hayley Squires), mãe monoparental de duas crianças que não tem condições de se manter. Esta é a história do novo filme do cineasta britânico Ken Loach, Eu, Daniel Blake, que estreou esta semana no Brasil.

Ao defender a desconhecida Katie em uma das idas ao Departamento de Trabalho e Pensões, da Inglaterra, Daniel acaba se tornando como um pai para ela e um avô para as crianças. Eles se unem para ajudar um ao outro e esta relação acaba sendo um respiro de ternura dentro de uma engrenagem fria e burocrática que ambos têm de enfrentar.

Repleto de crítica ao sistema e ao desmonte da previdência, o longa-metragem vencedor de Palma de Ouro no último festival de Cannes é um grito que denuncia as desigualdades sociais de seu país e as injustiças engendradas pelo sistema capitalista. A trama mostra uma burocracia kafkiana cega, que dificulta ainda mais a vida dos que mais precisam de auxílio para sobreviver. Apesar das humilhações sofridas, Daniel não se deixa abater e luta para manter a dignidade.

O roteiro de Paul Laverty surgiu a partir de histórias coletadas em bancos de alimentos e de empregos, além de alojamentos onde frequentemente encontravam as geladeiras vazias. Estão nas telas os esquecidos pelo sistema e as primeiras vítimas de todas as crises econômicas. Com precisão documental, diretor descreve os métodos de sabotagem do aparelho governamental: a voz apática ao telefone, atendentes que mais parecem robôs, mal humor e descaso com os problemas dos cidadãos.

Em entrevista ao jornal El País, Loach analisa a situação social apresentada pelo filme como uma consequência do “desenvolvimento” do capitalismo. “É um processo inevitável, é a forma como o capitalismo se desenvolveu. As grandes corporações dominam a economia e isso cria uma grande leva de pessoas pobres. O Estado deve apoiá-las, mas não quer ou não tem recursos. Por isso cria a ilusão de que, se você é pobre, a culpa é sua. Porque você não preencheu seu currículo direito ou chegou tarde a uma entrevista. Montam um sistema burocrático que te pune por ser pobre. A humilhação é um elemento-chave na pobreza. Rouba a sua dignidade e a sua autoestima”, afirma.

Loach sabe que um filme apenas não muda a realidade, mas com Eu, Daniel Blake acaba suscitando reflexões capazes de promover mudanças significativas.

CartazEu, Daniel Blake
Título original: I, Daniel Blake
Direção: Ken Loach
Roteiro: Paul Laverty
Produção: Rebecca O'Brien
Elenco: Dave Johns, Hayley Squires
Fotografia: Robbie Ryan
Edição: Jonathan Morris
Música: George Fenton
Figurino: Joanne Slater
Gênero: Drama
País: Inglaterra
Ano: 2016
Duração: 97 minutos