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Cinema

Diretora retrata juventude que enfrentou a ditadura na Tunísia

Ficção 'Assim que Abro Meus Olhos', da cineasta Leyla Bouzid, retrata energia e criatividade contra o medo da violência sistêmica do governo de Ben Ali
por Xandra Stefanel, especial para RBA publicado 11/01/2017 10h29, última modificação 11/01/2017 14h17
Ficção 'Assim que Abro Meus Olhos', da cineasta Leyla Bouzid, retrata energia e criatividade contra o medo da violência sistêmica do governo de Ben Ali
Divulgação
Juventude

Longa faz um retrato eletrizante da geração inquieta que ajudou a mudar os rumos do país com a Primavera Árabe

Descobertas sexuais, rebeldia, ânsia por liberdade, rock'n'roll… A cineasta tunisiana Leyla Bouzid misturou todos os ingredientes típicos da juventude com a realidade política de seu país pouco antes da Revolução de Jasmim, e o resultado pode ser visto a partir desta quinta-feira (12) nos cinemas brasileiros. A ficção Assim que Abro Meus Olhos se passa em Túnis no verão de 2010, e conta a história da jovem Farah (a atriz estreante Baya Medhaffer) que, aos 18 anos, em vez de seguir a carreira de médica como sonhava sua família, prefere seguir a paixão pela música e aproveitar ao máximo a vida.

Ela é a vocalista de uma banda de rock que toca músicas sobre temas políticos da sociedade tunisiana. Ao lado do grupo, Farah descobre a noite de sua cidade, o álcool, experimenta maconha e frequenta bares onde se vê pouquíssimas mulheres. Sua mãe, Hayet (interpretada pela cantora Ghalia Benali), sabe bem que é perigoso bater de frente com os costumes conservadores do país e, especialmente, escancarar as feridas de uma sociedade governada desde 1987 pelo ditador Zine el-Abidine Ben Ali.

Um dia, um conhecido alerta Hayet que a menina tem saído com pessoas vigiadas pela polícia e que ela corre perigo. Mas Farah tem a gana da juventude, é corajosa e não se deixa desencorajar pelo medo da mãe, que a cria sozinha porque o pai, sem ser filiado ao partido, só conseguiu emprego em uma cidade distante.

FarahUma das curiosidades do filme é que a diretora quis representar a sociedade tunisiana da forma mais realista possível. Em entrevista à jornalista e escritora Maha Ben Abdeladhim, Leyla Bouzid afirmou que isso foi um desafio: "Concretamente, durante a filmagem, é a cena em que Hayet entra no bar, que era a mais delicada. Os figurantes eram verdadeiros clientes de um bar decadente. Cada vez que nós refazíamos a cena, a atriz teve que entrar no bar novamente e em cada vez isso foi uma provação. Os homens, figurantes, olhavam com insistência, quase de forma obscena, sem nossa permissão. Todas as mulheres que participaram da filmagem sentiram a pressão do olhar deles. Eu estava determinada a filmar lugares da Tunísia com suas verdadeiras atmosferas, as pessoas reais que trabalham ou passam por lá, para ser fiel à sua realidade. O trem suburbano, os bares, a estação de ônibus são filmados de forma documental. A ideia era injetar a ficção do filme nesses lugares da cidade terrivelmente vivos."

Medo real

Leyla tinha a intenção de filmar na Tunísia enquanto a lembrança do medo que assolava a sociedade ainda estava presente, mesmo depois das manifestações populares ocorridas entre dezembro de 2010 e janeiro de 2011, que culminaram com a fuga do ditador Ben Ali. "Eu estava ciente de que eu tinha que filmar rapidamente, enquanto ainda havia tempo, e que era importante filmar o medo que os tunisianos sentiram quando Ben Ali estava no poder. Para memorizar as dificuldades daqueles anos que nunca queremos ver de novo, para conjurar o risco de os ver voltando novamente", afirma.

"Durante a filmagem, notei que muitos já tinham esquecido o que era viver sob o regime de Ben Ali. Quando eu disse aos figurantes: 'Aqui há um silêncio pesado', porque sob o regime do Ben Ali não se podia ouvir tais coisas sem ficar com medo, alguns deles tiveram dificuldade em recompor o sentimento. As pessoas perderam os reflexos que tiveram durante esse período, juntamente com a memória do medo e da paranoia. De um certo ponto de vista, esquecer não é necessariamente uma coisa ruim. Como se esse período estivesse realmente atrás de nós. Mas a amnésia e o esquecimento devem ser combatidos. Esse é um dos papéis do cinema", completa a diretora de 33 anos.

Assim que Abro Meus Olhos usa a política como pano de fundo, por meio de uma tensão contínua instigada pelo medo. Mas o primeiro longa-metragem de Leyla é, na verdade, como um grito por liberdade no qual a (ótima) música é uma das protagonistas. É um retrato eletrizante de uma geração inquieta que ajudou a mudar os rumos do país com a Primavera Árabe, mas que também sofreu com a falta de liberdade e com a perseguição. O primeiro longa de Leyla Bouzid tem uma delicadeza e uma força que prendem o espectador do início ao fim.

CartazAssim que Abro Meus Olhos
Título original: À peine j'ouvre les yeux
Direção: Leyla Bouzid
Roteiro: Leyla Bouzid e Marie-Sophie Chambon
Produtores: Sandra da Fonseca e Imed Marzouk
Elenco: Baya Medhaffer, Ghalia Benali, Montassar Ayari, Aymen Omrani, Lassaad Jamoussi, Deena Abdelwahed, Youssef Soltana, Marwen Soltana, Najoua Mathlouthi, Youness Ferhi, Fathi Akkeri e Saloua Mohammed
Música original: Khyam Allami
Direção de fotografia: Sébastien Goepfert
Montagem: Lilian Corbeille
Som: Ludovic Van Pachterbeke
Mixagem de Som: Rémi Gérard
Coprodutor: Anthony Rey
Produtores associados: Nathalie Mesuret e Bertrand Gore
Coprodução: Hélicotronc
Produção: Blue Monday Productions e Propaganda Production
Distribuição nacional: Supo Mungam Films
Países: Tunísia/França/Bélgica
Ano: 2015
Duração: 102 minutos