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Opressão

'Substituíram ditadura militar por ditadura midiática', diz Kucinsky na Flip

Para escritor, que teve irmã e cunhado de Kucinsky presos e mortos pela ditadura, novas gerações têm poucos pontos de contato com as outras. 'Nível de desconhecimento é impressionante'
por Flávia Villela, da Agência Brasil publicado 02/08/2014 18h28, última modificação 03/08/2014 14h30
Para escritor, que teve irmã e cunhado de Kucinsky presos e mortos pela ditadura, novas gerações têm poucos pontos de contato com as outras. 'Nível de desconhecimento é impressionante'
Paulo Pepe/RBA
Kucinski

Depois de décadas de jornalismo, Kucinski aborda na literatura de ficção as dores da histórias e suas próprias

Parati – "Substituíram a ditadura militar pela ditadura midiática, a dominação pelo consenso", disse hoje o jornalista e escritor Bernardo Kucinsky, sob aplausos da plateia que participou da segunda mesa da Feira Literária Internacional de Paraty (Flip) neste sábado (2).

A irmã e o cunhado de Kucinsky foram presos e mortos pela ditadura e seus corpos continuam desaparecidos. Segundo ele, a Comissão Nacional da Verdade não terá resultados concretos, pois os poderosos que apoiaram o golpe de 64 continuam no poder.

"E as Forças Armadas não se reciclaram, não condenaram as atrocidades cometidas no passado. A tentativa de desinformar e a guerra psicológica continua em alguns setores militares, continua, ainda que diminuto," declarou.

Filho de Rubens Paiva, que foi preso, torturado e morto pelos militares em 1971, o escritor Marcelo Rubens Paiva chorou ao ler um texto sobre o sofrimento da mãe e da família pela incerteza do paradeiro do deputado, cujo corpo continua desaparecido. O pai morreu na noite em que a esposa foi presa. Apenas em 1996, foi feito o registro de óbito de Ruben Paiva.

Marcelo foi aplaudido de pé ao lembrar da coragem e determinação da mãe, Eunice Paiva, na luta contra a ditadura. "Mamãe era uma dondoca. De repente, foi presa e saiu de lá muito magra e sozinha. E então começou a peitar a ditadura", disse. "Passou a fazer parte de vários movimentos, a ser uma voz quase solitária contra a ditadura". Posteriormente, Eunice estudou direito e passou a se dedicar às causas indígenas.

A mediadora da mesa e historiadora Lilia M. Schwarcz argumentou que os relatos dos participantes falavam de uma memória de um tempo que não passou e de uma história que ainda incomoda os brasileiros.

Revisitar os fatos e desnudar as verdades são fundamentais nos dias de hoje para os debatedores.  "A história é complexa e por isso mesmo requer reflexão, uma boa pesquisa, leitura", disse o economista Pérsio Arida, preso pelo regime militar quando tinha 18 anos. "Se até pessoas que participaram do período têm essa confusão, imagina os garotos que moram na periferia de grandes cidades, que não têm acesso a essa história nas escolas", disse Paiva.

"As novas gerações têm muitos poucos pontos de contato com as outras gerações, não tem continuidade. Para eles a ditadura é uma capítulo remoto da história do Brasil. O nível de desconhecimento é impressionante", disse Kucinsky.