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País oculto

Documentário apresenta um Brasil distante e desconhecido do Sul

A menos de 100 km de Porto Alegre há um vilarejo perdido no tempo. Muitos de seus 400 habitantes não falam português, apesar de todos terem nascido ali e se considerarem brasileiríssimos
por Xandra Stefanel, da RBA publicado 23/05/2013 13h59
A menos de 100 km de Porto Alegre há um vilarejo perdido no tempo. Muitos de seus 400 habitantes não falam português, apesar de todos terem nascido ali e se considerarem brasileiríssimos
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Significado do nome do povoado, em alemão antigo, não poderia ser mais adequado: distante, perdido no tempo

A paisagem é das mais bucólicas: casinhas de madeira cercadas de verdes pastos e flores e mais flores na beira das estradas. Walachai, assim como os povoados vizinhos de Jamerthal, Batatenthal, Padre Eterno e Frankenthal, são comunidades rurais de origem alemã que mantêm a língua antiga e os muitos costumes de seus colonizadores europeus. Mas nada sabem sobre eles, nem compreendem o alemão de hoje em dia. É um sopro de vida simples e – praticamente – livre das amarras tecnológicas da sociedade motorizada, apressada e conectada.

O diferente habita este lugar. E é ele o tema do documentário Walachai, de Rejane Zilles, que estreia nos cinemas nesta sexta-feira (24). O significado do nome desse povoado, em alemão antigo, não poderia ser mais adequado ao que se vê na tela: lugar distante, perdido no tempo. Lá a diretora nasceu e viveu sua primeira infância e ainda guarda na memória o dialeto local. Graças a isso, o filme de Rejane é íntimo e singelo.

Escutar as histórias daquelas pessoas nos transporta para um Brasil desconhecido e lírico. A senhora de 91 anos que há 56 vai vagarosamente à igreja fazer o sino despertar seu povo, sem ter faltado um dia sequer. O orgulho do ferreiro que ainda forja os instrumentos à moda antiga. A cotidiana e artesanal produção de pão e de cuca. A música caipira em alemão. O barulho contínuo dos pássaros.

Tanto no vilarejo quanto no filme, a pressa não parece existir. O transporte ainda se dá, sobretudo, nas carroças, o arado e os utensílios domésticos continuam manuais e o fumo ainda é de corda. Tudo tem seu próprio tempo, assim como a agricultura local, aparentemente livre dos "modernos" e perigosos agrotóxicos. Mas esta realidade está cada vez mais espremida: "A situação aqui nessa região tá difícil. Os grandes tão terminando com nós. Pequeno agricultor, daqui a 10, 15 anos, não vai mais ter. Não tem como sobreviver", lamenta um dos personagens. Talvez seja por isso mesmo que Rejane tenha voltado à sua comunidade para captar esse inusitado antes que ele se acabe.

É interessante escutar o professor Benno Wendling, autor de um livro manuscrito, ainda não editado, que resgata a história da comunidade. Ele conta a dificuldade pelas quais passaram quando estourou a 2ª Guerra Mundial. O perigo representado pelo nazismo fez com que o governo brasileiro proibisse que o alemão fosse falado na colônia. "Até que Getúlio disse: 'Não pode mais falar em alemão'. A criança chegava na escola e o que a gente ia fazer? Transgredir a lei para se comunicar com o aluno! Coitado do aluno, não tinha culpa. Era severo o negócio. Tinha que parar com o alemão", lembra.

Na época, todos foram obrigados a aprender o "brasileiro", mas, passados tantos anos, muitos idosos já o esqueceram, graças ao seu desuso no dia a dia da comunidade. Outros misturam as duas línguas e, frente à câmera, se sentem visivelmente descontáveis com o português. A maioria guarda um forte sotaque quando não se exprime no idioma local. Assim como aconteceu com a diretora, ainda hoje as crianças só aprendem o português ao entrar na escola, aos 7 anos.

Além da língua e da agricultura, percebe-se outro indício das transformações lentas mas incontornáveis que estão por vir: o depoimento de pais que querem "um futuro melhor" para suas crianças, longe do trabalho pesado e pouco rentável da roça. A preocupação deles é compreensível porque, na região, ou se trabalha na lavoura, ou na fábrica de sapato.

Para quem vive "acorrentado" ao relógio e às máquinas, dá uma certa tristeza egoísta ao entender que toda aquela magia está com os dias contados. Mas dá gosto escutar de uma criança de Walachai dizer que a cidade grande não é legal... "Aqui não tem barulho, na cidade grande tem muito barulho. Aqui dá pra ouvir os cantos dos passarinhos. Lá não tem roça, na cidade grande!", diz Gustavo Pilatte, com um lindo e cantado português. Seu prazer em nada se parece com o das crianças urbanas, em geral enfeitiçadas por TVs e vídeo games.

Walachai, portanto, um filme a assistir atento para as minúcias de um Brasil que não passa na TV mas que, graças à abordagem familiar de Rejane, nos chega à tela grande e faz refletir sobre a riqueza que, apesar das adversidades, sobrevivem nos rincões do país.

Ficha técnica
Walachai (2010)
• Direção, roteiro e produção: Rejane Zilles
• Gênero: Documentário
• Duração: 84 minutos
• Classificação etária: Livre
• Estreia: 24 de maio, em São Paulo, Campinas (SP), Rio de Janeiro, Curitiba, Maringá (PR) e Porto Alegre

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