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Todo instrumento é imperfeito, até ser tocado por alguém como Paulo Moura

Tributo do documentarista Eduardo Escorel a um dos mais importantes instrumentistas brasileiros proporciona um comovente encontro entre dois regentes, de música e de cinema
por Paulo Donizetti de Souza, Revista do Brasil publicado 05/04/2013 15h57, última modificação 05/04/2013 16h30
Tributo do documentarista Eduardo Escorel a um dos mais importantes instrumentistas brasileiros proporciona um comovente encontro entre dois regentes, de música e de cinema

Paulo Moura e Eduardo Escorel: maestros (Fotos: Divulgação)

São Paulo – O documentário Paulo Moura – Alma Brasileira foi planejado por Eduardo Escorel em 2009. O instrumentista Paulo Moura morreu em julho de 2010, três dias antes de completar 78 anos, quando o cineasta estava iniciando as filmagens. Sem o protagonismo de seu personagem, Escorel decidiu transformar o projeto de documentário em tributo a este que foi um dos mais importantes músicos brasileiros.

O filme teve estreia mundial nesta quinta (4), na abertura da 18ª edição do festival internacional de documentários É Tudo Verdade, organizado por Amir Labaki. Escorel garimpou imagens de apresentações emblemáticas do instrumentista, da primeira audição da Bossa Nova brasileira no Carnegie Hall, em Nova York (1962), a festivais de Montreux, na Suíça, de Tel Aviv, em Israel, ou de Lagos, na Nigéria.

A produção faz um retrato equilibrado da desenvoltura do artista em distintos ambientes, da música clássica, do jazz, do choro, do samba, da bossa. E leva o espectador a bisbilhotar com sua mulher, a psicanalista e escritora Halina Grynberg, velhas e desorganizadas fotografias de família ,recém-sacadas de um envelope. E ainda traz depoimentos inéditos, divertidos, reveladores.

Paulo Moura conta, por exemplo, como foi sua aproximação com escolas que fizeram diferença em sua vida, do aprendizado no conservatório à convivência com Martinho da Vila e com o subúrbio carioca – onde escolheu viver para desvendar melhor os mistérios da música brasileira. Ou por que acabou comprando seu conhecido clarinete de acrílico transparente. “Eu estava procurando um de metal, daí vi esse aqui. É mais bonito. A afinação a gente consegue ajeitar, porque todos os instrumentos são imperfeitos.”

O filme de Escorel pode ser “visto” de olhos fechados – estar no cinema é como estar num concerto de múltiplos ritmos. Como se isso não bastasse, a diversidade cenográfica e fotográfica completam um documento rico dos valores do artista.

Festival É Tudo Verdade
  • Até 14 de abril, em São Paulo e no Rio de Janeiro
  • De 16 a 21 de abril, em Brasília
  • De 23 a 28 de abril, em Campinas
  • Confira aqui a programação completa do festival.

Numa das cenas, ao conduzir uma orquestra de jazz, o regente Paulo exibe junto sua irreverente coreografia. Noutras, o choro Falando de Amor, de Tom Jobim, ou o Concerto em Lá Maior para Clarinete e Orquestra, de Mozart, parecem ter sido feitos para seu instrumento. Só Louco, de Dorival Caymmi, soa como se tivesse nascido e vivido desde sempre em seu saxofone. Numa mostra de cultura negra em Lagos, Nigéria, é suor o que lhe escorre pela face ou são lágrimas que brotam de seus poros negros quando aperta os olhos e comprime seu sax agudo?

E Escorel nem pôde usar todas as imagens que garimpou, já que não conseguiu liberação de várias delas, e outras só obteve depois de o filme estar pronto. Quem adora samba, choro, jazz ou clássica sairá saciado. Mas se o filme for visto por quem não aprecia nem Paulo Moura, nem a música de Paulo Moura, este se perguntará: por que eu não gostava?

Assista ao trailer: