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CUT São Paulo publicará livro com 97 trabalhos inscritos em seu concurso de poesia

Cordel sobre trabalho infantil em cultura de sisal ganha 1º prêmio
por Redação da RBA publicado 26/04/2013 15h07, última modificação 27/04/2013 11h58
Cordel sobre trabalho infantil em cultura de sisal ganha 1º prêmio

Edvaldo recebe troféu idealizado por Elifas Andreatto (Foto: Roberto Parizotti/CUT)

São Paulo – O cordel Tem Criança no Sisal, do bancário Edvaldo Fernando da Costa, 42, foi o vencedor do 1º Concurso Literário de Poesia da CUT São Paulo, anunciado em sarau promovido na noite de terça-feira (23). O 2º lugar foi para Dez Minutos de Descanso, de Nilcea Fleury Victorino, e o 3º para Ousar Lutar, Ousar Vencer!, de Maria da Piedade Peixoto dos Santos. O concurso foi um dos eventos programados pela central para as comemorações do 1º de Maio.

Edvaldo recebeu como prêmio, das mãos do presidente nacional da CUT, Vagner Freitas, um iPhone e uma estatueta criada pelo artista Elifas Andreato para a competição. Edvaldo contou que começou a escrever depois que um dos filhos pediu ajuda para fazer um trabalho de escola.

Em seu discurso, criticou a imprensa comercial e ressaltou o surgimento dos veículos de comunicação apoiados pelo movimento sindical, como a Rádio Brasil Atual e a Revista do Brasil. “Da revista tirei inspiração para o poema Feijão Indigesto”, contou. Seu segundo texto classificado ficou com a 10ª melhor avaliação do concurso e foi inspirado em reportagem sobre o assassinato dos fiscais do Ministério do Trabalho, em 2004, que menciona as condições degradantes de trabalho nas lavouras de feijão da cidade.

Revista do Brasil nº 56

As 15 poesias pré-selecionadas para a etapa final do concurso foram dramatizadas pelos atores e militantes cutistas Carolina Maluf, Sergio dos Santos e Roselaine Cruz. Todas as 97 poesias inscritas no concurso serão publicadas em livro.

Formado em história e funcionário do Bradesco há 22 anos, Edvaldo diz que a poesia foi o caminho que escolheu para se expressar sobre as condições do país. O cordel vencedor relata a dura vida das crianças que perdem a infância trabalhando na colheita do sisal no Nordeste. A fibra vegetal é usada na confecção de tapetes que seguem para o mercado europeu. A inspiração foi uma reportagem da jornalista Neide Duarte para o programa Caminhos e Parcerias, da TV Cultura.

Feijão Indigesto denuncia a precariedade na lavoura de feijão em Unaí, no noroeste mineiro, com trabalhadores rurais em condições análogas degradantes e expostos aos riscos do uso excessivo de agrotóxicos.

O presidente da CUT/SP, Adi dos Santos Lima, e o coordenador do Coletivo de Cultura da seção estadual da central, Benedito Augusto de Oliveira, consideraram que o concurso superou as expectativas e deve se repetir nos próximos anos. “Sendo a cultura uma ferramenta de diálogo com a sociedade, por que não produzir cultura a partir do conhecimento dos trabalhadores?”, disse Adi.

“Imaginávamos que o assunto ‘trabalho decente’ seria espinhoso, mas foi visceral. Os poemas têm não só a perspectiva da denúncia, mas também a melancolia que o próprio tema traz”, avalia Benão.

Com informações da CUT/SP

 

Tem criança no sisal

De Edvaldo Fernando da Costa


Tem criança no sisal
Admire o teu piso
Brilhante como cristal
Adornado com tapete
Fabricado do sisal
Comprado quase de graça
Na feirinha ali da praça
Vindo do labor braçal
A colheita quem a faz
De idade não tem dez
O chinelo mais simplório
Não foi feito pro seus pés
Pra lá e pra cá descalça
Piso de barro ela amassa
Sua angústia se vê na tez  
Ao preço de um real  
Vale seu suor por dia
A escola não freqüenta  
Não conhece geografia  
Do direito de brincar  
Sua infância desfrutar  
Não tem essa mordomia  
Mas o que essa ingênua  
Está fazendo aí perdida?


Ajudando o pai pobre  
Levado à sobrevida
Suando cada centavo
No trabalho semi-escravo
Da sevícia sem medida
E pra isso chega cedo
Um café mal mastigado
Faça chuva ou sol quente
Seu almoço está gelado
Vai ficar até a tarde
Tarefando pro covarde
Com estômago apertado
E o manejo do sisal
É um tanto perigoso
Os seus olhos descobertos
Seu dedo está caloso
Mesmo assim essa criança
Deixada na confiança
Não tem traje cauteloso  
Não parece importante
A criança pelitrapa
Se é lindo o tapete  
Que seu trabalho contrata  
Seu suplício não é problema  


A quem atender o tema  
O enganoso burocrata
O Brasil é exportador
Do luxuoso adereço  
Pro europeu gastar dinheiro  
É pequeno o seu preço
Mas não toque na ferida
Que a infância invalida  
Pra não trazer aborreço  
O trabalho infantil
Se encontra Brasil adentro
Desde a periferia  
É vista também no centro
Para alertar a miséria  
O cordel canta a matéria
Não se pode ficar neutro
Tem criança no sisal
Na cana e no carvão  
Labor duro o dia todo  
Ao troco de um tostão
Obra do capitalismo  
Regime do egoísmo  
Regime da escravidão