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Em crise e sem títulos, Mangueira e Portela se preparam para batalha eleitoral

Maiores campeãs da história do carnaval carioca, escolas passam por disputas internas que envolvem até mesmo o governador Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes
por Maurício Thuswohl, da RBA publicado , última modificação 16/02/2013 11h43
Maiores campeãs da história do carnaval carioca, escolas passam por disputas internas que envolvem até mesmo o governador Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes

Sem vitórias há mais de uma década, Mangueira tentará retomar normalidade política (Foto: Adriano Ishibashi/Frame/Folhapress))

Rio de Janeiro – É impossível contar a história do samba e do carnaval sem falar delas duas. Mais antigas em atividade na elite e donas das duas maiores torcidas no Rio de Janeiro, as escolas de samba Portela (fundada em 1923) e Estação Primeira de Mangueira (1928) são também as duas maiores campeãs do carnaval carioca, com 21 títulos da Azul-e-Branco e 17 títulos da Verde-e-Rosa. De alguns anos para cá, no entanto, os títulos escassearam – o último da Mangueira foi em 2002 e o da Portela em 1984 – e a glória das duas gigantes parece se esconder em um passado cada vez mais distante. Para completar, ambas enfrentam conturbados períodos políticos e passarão nos próximos meses por delicadas eleições.

Oitava colocada no desfile deste ano e com dívidas que, segundo a direção da escola, montam a R$ 7 milhões, a Mangueira vive em aguda crise política desde 2010, quando o atual presidente, o músico Ivo Meirelles, foi levado ao cargo por aclamação em uma eleição contestada por seus opositores. Os três anos anteriores à chegada de Ivo à presidência foram muito tumultuados, com acusações de interferência do tráfico de drogas na administração da escola, brigas na Justiça e a renúncia do então presidente Percival Pires, o Perci.

A eleição na Mangueira, marcada pela Justiça, será em abril. Ivo e Perci deverão ser novamente candidatos, reacendendo a briga de facções políticas na escola, mas um terceiro nome já desponta como favorito: o deputado estadual Chiquinho da Mangueira (PMDB).

Ex-presidente da Superintendência de Desportos do Estado do Rio de Janeiro (Suderj) e secretário de Esportes do Rio de Janeiro durante o governo de Rosinha Matheus (2003-2006), Chiquinho já esteve envolvido em diversas denúncias de irregularidades por sua atuação tanto no Executivo quanto no Legislativo e é considerado figura polêmica. O candidato, no entanto, encabeça uma forte aliança que foi costurada por ninguém menos que o governador do Rio – e mangueirense desde criancinha – Sérgio Cabral Filho, seu colega de partido.

Com a discreta ajuda do pai, o jornalista e mangueirense histórico Sérgio Cabral, o governador iniciou o que qualifica como “processo de resgate da Mangueira” ao garantir os apoios de dois importantes ex-presidentes da escola à candidatura de Chiquinho. Elmo José dos Santos (presidente entre 1995 e 2000) e Álvaro Luiz Caetano (2001-2006) estarão ao lado do deputado, em um somatório de forças que já o torna favorito na disputa.

Outro trunfo de Chiquinho é a adesão – ainda a se confirmar – de familiares de importantes baluartes da Mangueira já falecidos, como Cartola, Dona Zica, Dona Neuma, Jamelão e Delegado, entre outros: “Vamos chamar todo mundo para sentar e conversar. Nossa chapa quer reunir todos aqueles que amam a Mangueira. A Nilcemar (neta de Cartola e Dona Zica) e a Chininha (filha de Dona Neuma) conhecem tudo de carnaval. Conto com elas”, disse o candidato, ainda na Marquês de Sapucaí, logo depois do desfile da escola.

Dinastia portelense

Na Portela, sétima colocada no desfile de 2013, quando dedicou o enredo às comemorações pelos seus 90 anos de fundação, as eleições vêm se sucedendo normalmente nos últimos anos, desde que a escola se livrou do jugo do bicheiro Carlinhos Maracanã.

Mas a crise política na agremiação de Madureira também é grande. No cargo desde 2005, o presidente Nilo Figueiredo sofre forte contestação das comunidades do bairro devido aos maus resultados consecutivos obtidos pela Portela, apesar de a escola ter recebido nos últimos anos diversos apoios financeiros de empresas estatais, além de recursos da prefeitura do Rio – comandada pelo portelense Eduardo Paes – para reformar e modernizar sua quadra, que hoje é uma das que mais recebe público durante os ensaios. A Portela não tem sua dívida total oficialmente declarada, mas as prestações de conta da diretoria relativas aos anos de 2008, 2009 e 2010 são objeto de contestação na Justiça por sócios da escola.

Nilo Figueiredo não é candidato nas eleições marcadas para maio, mas indicou o filho, Nilinho Figueiredo, para sua sucessão. O principal adversário do clã será o policial militar Marcos Falcon, apontado como integrante das milícias na região de Madureira, mas inocentado pela Justiça em 2011. Diretor da escola há alguns anos, Falcon conta com o apoio de integrantes da Velha Guarda e estaria negociando até mesmo uma reaproximação com os descendentes do grande patrono da história da escola, Natal, que deixaram a Portela em 1984 para fundar a Tradição, hoje na segunda divisão do carnaval carioca. Desde o racha, curiosamente, a Portela nunca mais foi campeã.

Ao contrário de Sérgio Cabral na Mangueira, Eduardo Paes não assumiu a defesa de nenhuma das candidaturas nem envolveu o PMDB na disputa política da Portela. Nos bastidores, no entanto, consta que o prefeito teria simpatia pela saída do atual grupo que está no comando da escola. Para dar um “empurrãozinho”, Paes, inclusive, já estaria articulando para que Nilo Figueiredo assuma ainda este ano a presidência da Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa), afastando o grupo ligado ao jogo do bicho e hoje no comando da entidade.

Se esta mudança de fato ocorrer, será digna de registro nos livros de história. Além disso, o prefeito do Rio de Janeiro poderá atingir dois coelhos com uma só cajadada, já que, com um dos seus no comando da Liesa, aumentarão consideravelmente as chances de os portelenses voltarem a soltar o grito de “campeã” na avenida.