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Carta ao leitor

A RBA não abre mão de um jornalismo crítico e transformador

Cobertura mostra importância das eleições para a população, sem alimentar visão de que todos são iguais. O país se depara nas urnas com conceitos distintos, entre mais democracia e a concessão à ditadura dos mercados
por RBA publicado 20/08/2014 09:01, última modificação 20/08/2014 13:56
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Cobertura mostra importância das eleições para a população, sem alimentar visão de que todos são iguais. O país se depara nas urnas com conceitos distintos, entre mais democracia e a concessão à ditadura dos mercados
Avener Prado/Folhapress
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Sinais de insatisfação com a política explodiram em junho, mas desgaste foi maior para uns que para outros

A Rede Brasil Atual traz a partir desta semana um conjunto de reportagens, artigos e entrevistas com o objetivo de aprofundar os debates que tomarão conta do país até 5 de outubro. Temos cerca de dez semanas antes de decidir quais deputados estaduais e federais, senadores, governadores e presidente da República serão eleitos – cinco votos decisivos em um momento de grande questionamento às estruturas políticas.

Ressaltamos que, se depender de um único meio de comunicação ou de um grupo de produtos jornalísticos de mesmo perfil, o leitor-eleitor tenderia a desacreditar cada vez mais dos processos políticos: ainda que TVs, rádios, jornais e revistas normalmente evitem tornar públicas suas preferências partidárias ou ideológicas, essa opção sempre existe e molda a própria notícia. Recentemente, pesquisadores da Universidade Estadual do Rio de Janeiro criaram uma ferramenta que mediu esse fenômeno em números: o manchetômetro.

Dessa forma, a RBA entra na disputa de espaço de debate na internet com objetivo de ampliar o universo de informação e opinião à disposição do eleitor que deseja fazer suas opções de forma consciente e responsável. Não há mudança nem melhoria no país que não passe pela política, e, embora a via eleitoral não seja a única, reconhecemos nela um caminho essencial de acesso da sociedade às decisões sobre seu futuro, e que garantiu, nos últimos anos, as conquistas políticas, econômicas e sociais alcançadas.

Qualquer discurso que criminalize a política, que a arremesse à vala “do todos são corruptos”, carece de direção. Na verdade, é vulnerável a manobras autoritárias. Vale lembrar de tantas caças às bruxas. Generalizantes, são impulsionadas por argumentos que funcionam apenas como ferramentas de marketing, instrumento mobilizador dos setores mais conservadores da sociedade que, geralmente, promovem o massacre de direitos civis e sociais.

Reportagens especiais publicadas nas próximas semanas serão inspiradas pelos mesmos princípios que movem a linha editorial cotidiana do portal. Ofereceremos durante os próximos meses o que já normalmente garantimos ao leitor: o cuidado com a seleção do material de forma especialmente criteriosa. Nossos repórteres não vão às ruas a cada quatro anos, e não seguem apenas candidatos: conversam cotidianamente com trabalhadores, empresários, políticos, representantes de movimentos sociais, tomam contato com os problemas do país, trazem novas visões sobre questões já conhecidas. Qual a credibilidade resultante da cultura das redes sociais, onde, individualmente, é possível publicar o que se quer e, logo depois, apagar? Não compartilhamos da ideia de que é melhor aquele que faz mais rápido. Preferimos informar com zelo e com elementos que garantam ao leitor seu direito de formar opinião.

Os temas que o leitor encontrará aqui não necessariamente estão na boca dos candidatos. Acreditamos que o papel do jornalismo é justamente jogar luz sobre aquilo que não é tratado publicamente, sobre o que não é prioridade, mas deveria ser. Numa disputa eleitoral em que o peso das doadoras de campanha se impõe, não se imagina ver debates aprofundados sobre imigrantes, que nem direito a voto têm, indígenas, que pouca voz têm, e reforma tributária, que provoca coceira justamente entre os que mantêm candidaturas país afora. Pautas tradicionais de campanha, como saúde, educação e segurança, também estarão por aqui, mas certamente em uma ótica diferente daquela alimentada pela mídia tradicional e pelas equipes de comunicação e marketing dos principais candidatos. O que fizemos, então, foi pensar na agenda que consideramos prioritária para o país, e a partir dela apresentar uma análise do quadro atual e uma perspectiva do que se pode almejar para os anos vindouros.

Neste sentido, entendemos como central, nestas eleições, o debate dos temas abaixo:

- Reforma política com financiamento público de campanha;

- Regulamentação dos meios de comunicação, de acordo com o previsto na Constituição de 1988 e nunca efetivado pelo Congresso;

- Valorização do papel do trabalhador na sociedade, por meio da manutenção da política atual de reajuste do salário mínimo e do atendimento de reivindicações antigas, como o fim do fator previdenciário e a redução da jornada para 40 horas semanais, entre outras pautas trabalhistas;

- Fortalecimento do papel do Estado, com a criação de mecanismos e instituições que promovam o bem-estar social e garantam os direitos de minorias.

As diretrizes de nosso trabalho são os valores da ética, da democracia, da solidariedade, da participação social e da cidadania. Do enfrentamento dos preconceitos e da promoção da liberdade, da inclusão e da igualdade de oportunidades. Da produção de informação como parte de um processo de transformação do país. Uma sociedade em que o ser humano seja o centro das atenções dos poderes públicos. Para tanto, o papel do Estado é fundamental.

Sob essa visão de ter o Estado presente como indutor do desenvolvimento humano, o Brasil conquistou respeito mundial e papel de destaque na busca dos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio, da Organização das Nações Unidas, em especial pelas políticas de combate à pobreza. Os resultados alcançados só foram possíveis a partir da transição do país para um novo modelo de desenvolvimento, iniciado com o primeiro mandato de Lula, em 2003.

O ciclo de crescimento econômico, qualificação do emprego e ampliação do poder de consumo, porém, mesmo que acompanhado de avanços importantes como as leis de Transparência e de Acesso à Informação, além da instalação da Comissão da Verdade, falhou em fazer reformas profundas na estrutura do Estado. Em nenhum momento o governo encontrou, ou criou, condições objetivas para redesenhar a incidência de impostos, que ainda pesam mais sobre o que têm menos; os monopólios da mídia seguem livres de regulação para manipular o humor da opinião pública; e a reforma política, que tem como principal objetivo afastar os grandes interesses econômicos do processo eleitoral, tropeça no Congresso. A mobilização de forças conservadoras impediu ainda a conquista de mais direitos individuais, principalmente nos últimos quatro anos.

Necessário falar sobre o impacto da morte de Eduardo Campos, que traz holofotes e força a entrada em cena de Marina Silva. Se já era difícil ao eleitor associar seu desejo de mudança captado nas pesquisas de opinião com distinção de projetos para o país, as forças progressistas que passaram a disputar o poder com as elites a partir da vitória de Lula, há 12 anos, agora se verão diante desse novo desafio.

Como falar em formação de protagonismo político sem clareza de quem é a base social? Daí entram em cena argumentos simplistas sobre sustentabilidade. Seria ela a linha condutora, a causa comum entre classes distintas? O palavrório de grupos com propostas salvadoras aponta para um conceito capaz de envolver diversos grupos em torno da defesa do desenvolvimento sustentável. Porém, o que é sustentabilidade para o pobre? E para o rico? Como encara a ideia um megaempresário do agronegócio? E um indígena?

Nesse raciocínio, se apresenta a parte mais preocupante por trás de jogar na vala comum as definições de esquerda e direita, como se a responsabilidade sobre alianças que buscam a governabilidade fossem apenas opções partidárias. Isso enfraquece o debate necessário quanto à validade do nosso sistema de democracia representativa, construído pela e para a elite, criador de grandes desequilíbrios na representatividade proporcional da sociedade.

É um argumento que esvazia o debate, desideologiza, e deveria causar arrepios em quem se diz progressista. Nos anos 1990, a estratégia de radicalização da receita neoliberal passava justamente por colocar a ideologia a escanteio e reduzir as disputas políticas a critérios de avaliação dos “melhores gerentes”. Foi um momento de pobreza intelectual que paralisou movimentos sociais e diminuiu espaços para conquistas populares.

Os sinais de insatisfação com a falta de respostas da política brasileira às demandas explodiram em junho do ano passado. Aécio, Eduardo Campos e, principalmente, Marina foram blindados. Beneficiado pelo escudo midiático, até o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, cujo partido comanda o estado mais rico do país há 20 anos, saiu ileso. Isso num estado onde a educação pública mantém baixos índices de avaliação. Onde a segurança pública conserva uma concepção de Polícia Militar criada para proteger os ricos e agravada pelos métodos das ditaduras, longe do conceito de defesa social e de polícia cidadã empregado nas democracias avançadas.

Críticos costumam argumentar que os governos Lula/Dilma foram “bons” para os bancos, o empresariado e o agronegócio. Mas os donos do sistema financeiro, das grandes empresas e grandes fazendas, suas vozes na imprensa e os gurus econômicos da era FHC estão nas campanhas de Aécio e de Marina. À esquerda, argumenta-se ainda que os governos petistas distanciaram-se de suas bandeiras, burocratizaram-se e afastaram-se das ruas. E, de fato, o diagnóstico tem aspectos irrefutáveis.

O PT tem um déficit em relação a parte de seus compromissos de campanha: democratização da mídia não andou. O governo fez menos do que dele se esperava para a reforma agrária e a agricultura familiar. Reduziu o diálogo com as centrais sindicais e os movimentos da sociedade. Comprou a briga dos juros e do crédito com os bancos, mas puxou o freio de mão sem expor os motivos.

A comparação dos projetos que estão em jogo passa pela preocupação com a manutenção das conquistas alcançadas e com ampliar os canais democráticos de decisão e de participação social nos espaços de poder. Isso implica também em os movimentos sindicais e sociais tradicionais compreenderem as novas demandas trazidas pelas ruas e as novas classes trabalhadoras, que experimentaram um processo de inclusão e ascensão e já não se contentam em comparar a realidade de hoje com a do século passado, mas com o que esperam do futuro.

Nesse sentido, reforçamos a importância de outro debate que passa à margem, ou que é feito com base em premissas frágeis: a eleição para o Legislativo é tão importante quanto a que se realiza para cargos do Poder Executivo. Deputados e senadores podem ser intérpretes da vontade da sociedade, ou de grupos de interesse e de financiamento, a depender de quais preceitos guiam cada mandato. Assim, entende-se como saudável um Congresso Nacional que realmente reflita a complexidade da população brasileira.

Por tudo isso, a RBA não abre mão da crítica, da defesa intransigente das minorias, da ocupação social da terra e do espaço urbano, da presença dos movimentos sociais nas ruas e nos fóruns de decisão, de uma economia sustentável que respeite os trabalhadores e o meio ambiente. Enfim, da função transformadora do jornalismo.

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