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Em São Paulo

'Ignorar desvio da merenda é exemplo da seletividade da mídia', diz Boulos

Coordenador do MTST participa de Conferência Popular da Educação, onde professores, alunos, pais e movimentos sociais e sindicatos debatem condições de trabalho e aprendizagem nas escolas públicas
por Sarah Fernandes, da RBA publicado 15/03/2016 20:34, última modificação 16/03/2016 00:42
Coordenador do MTST participa de Conferência Popular da Educação, onde professores, alunos, pais e movimentos sociais e sindicatos debatem condições de trabalho e aprendizagem nas escolas públicas
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Movimentos reforçaram o convite para o ato em defesa da democracia na próxima sexta-feira (18)

São Paulo – A educação de São Paulo é uma síntese da indignação seletiva propagada pela mídia, na avaliação do coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, durante a abertura da Conferência Popular de Educação, na tarde de hoje (15), em São Paulo. Isso porque, como ele ressaltou, escândalos como o desvio de verbas para a merenda escolar pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB) não são tratados com a mesma cobrança como acusações sem provas envolvendo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Operação Lava Jato.

“A educação de São Paulo é um exemplo claro do que está acontecendo no Brasil hoje, dessa seletividade e dessa hipocrisia que tomou conta do discurso midiático. É muito curioso que no caso do desvio da merenda, que é um dos escândalos mais vergonhosos que se viu nos últimos tempos, a mídia praticamente não fale mais nada, nem uma nota de rodapé. O (deputado estadual Fernando) Capez (PSDB) continua presidindo a Assembleia Legislativa e ninguém fala em indiciá-lo ou prendê-lo”, disse Boulos. “É tão escandaloso que até quem foi ao ato de domingo (13) vaiou Alckmin e Aécio (Neves, do PSDB) na Paulista.”

“Não vou defender as políticas do governo de Dilma Rousseff, por ter muito problemas. Ela fez um ajuste fiscal antipopular e atacou direitos dos trabalhadores, mas não podemos permitir que isso seja utilizado como uma saída à direita para a crise política do país”, continuou. “Os movimentos populares brasileiros e a esquerda tem a responsabilidade de não permitir que prevaleça esse tipo de hipocrisia.”

A presidenta da União Paulista dos Estudantes Secundaristas (Upes), Ângela Meyer, concordou. “Na volta às aulas deu para ver que a Secretaria Estadual da Educação não entende o que é escola pública de qualidade. O governo estadual fechou 1.200 salas de aula, cortou milhões da educação e desviou dinheiro da merenda. É muita hipocrisia que quem faz isso tenha ido a um ato contra a corrupção no domingo”, disse. “Roubaram a nossa merenda e o Ministério Público, que pede a prisão de Lula, não fala nada sobre isso.”

A conferência, organizada pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (Apeoesp), segue até quinta-feira (17) e reunirá professores, alunos, pais e representantes de movimentos sociais e sindicatos para debater temas como condições de trabalho e aprendizagem nas escolas públicas, financiamento da educação e valorização dos profissionais da educação. Os encontros ocorrerão a partir das 9h na Praça da República, no centro da capital paulista.

Durante a abertura, os participantes lembraram que a unidade dos movimentos sociais foi um dos fatores determinantes para a suspensão da reorganização escolar do governo Alckmin no ano passado, que fecharia pelo menos 93 escolas e transferiria compulsoriamente 311 mil alunos da rede estadual. Todos concordaram que esse também é o caminho para conquistar uma educação pública de qualidade, mais alinhada com as demandas dos jovens do século 21.

“A unidade dos movimentos sociais vai fazer com que a gente tenha uma nova escola, por isso é importante que estudantes, trabalhadores, pais e mães estejam envolvidos nesse debate. É assim que vamos transformar a escola pública”, defendeu Ângela. “Não dá mais para ter uma aula onde o professor tem apenas uma parede e um giz na mão para passar o conteúdo. Estamos aqui para pleitear uma nova escola. A escola pública não nos representa.”

A presidenta da Upes defendeu ainda que a comunidade escolar e os movimentos sociais devem também se engajar para pleitear e elaborar um novo currículo para as unidades de ensino. “A escola de hoje reproduz ainda todos os preconceitos que a sociedade tem. Queremos uma escola libertadora que livre desses preconceitos”, defendeu Ângela.

“É possível, por meio de uma gestão democrática, envolvendo a comunidade e dando voz e vez para os estudantes, construir outra escola, mais agradável, onde o aluno seja protagonista, e não mais essa escola desinteressante que não dialoga com o potencial dos nossos jovens”, defendeu o presidente a CUT de São Paulo, Douglas Izzo. “A construção coletiva dessa alternativa deve ser objeto de um estudo aprofundado com todos os envolvidos com a escola pública.”

“O movimento de ocupações de escolas o ano passado deixou um legado e mostrou que não dá para continuar tendo aula como as escolas oferecem. Não dá para sentar enfileirado um na frente do outro, não dá para conviver com professores mal pagos, não dá para ter escolas sem infraestrutura. O governo estadual pode tentar tudo, mas não vai mais conseguir amordaçar ninguém”, disse a presidenta da Apeoesp, Maria Izabel Azevedo Noronha, a Bebel. “O conceito de qualidade no meu tempo é diferente do de hoje. Os jovens estão na era da informática e da robótica e precisam de outro projeto que não uma lousa, um giz e um apagador.”

Os movimentos participantes reforçaram o convite para o ato em defesa da democracia na sexta-feira (18), que terá concentração a partir das 15h, no vão livre do Masp, na Avenida Paulista, e seguirá pela Consolação até a Praça da República. Lula participará do ato. “Vamos dar recado para gente que fica disseminando ódio contra a esquerda e vamos fazer ato com muita juventude e muitos trabalhadores, mostrando que todos querem fazer valer a democracia no país”, disse Izzo.

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