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Crianças imigrantes enfrentam barreira da língua e despreparo da rede de ensino

Nos últimos dez anos, cresceu o número de imigrantes no país. Embora o acesso à escola seja facilitado, faltam planejamento e formação específica para os professores
por Cida de Oliveira, da RBA publicado 24/02/2016 11:19, última modificação 24/02/2016 11:56
Nos últimos dez anos, cresceu o número de imigrantes no país. Embora o acesso à escola seja facilitado, faltam planejamento e formação específica para os professores
cc / wikimedia / spet
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Crianças imigrantes têm dificuldade para acompanhar ensino; rede não contempla suas necessidades

São Paulo – Do início de sua colonização, em 1530, até a década de 1930, quando deixou de incentivar a vinda de imigrantes estrangeiros, o Brasil fez a fama de país da imigração, sinônimo de acolhimento de vários povos em busca de novas oportunidades. A partir dos anos 2000, com a crise econômica internacional e o início do período de estabilidade da economia brasileira, especialmente a partir de 2003, o país voltou a viver um novo ciclo. Daí que até 2010, conforme dados do IBGE, a população estrangeira cresceu 86,7%.  Segundo dados da Polícia Federal, referentes a janeiro passado, vivem no Brasil atualmente 1.033.257 estrangeiros.

A política brasileira para o acesso de imigrantes à escola pública é considerada avançada. Uma criança estrangeira pode ser matriculada sem a exigência de documentação. Em compensação, ainda não existe nos sistemas de ensino estaduais e municipais um planejamento pedagógico para esse acolhimento e muito menos disciplinas específicas para esse fim nos cursos de licenciatura ou outros voltados à formação de professores.

"Muita gente nem sabe que existem imigrantes na sala de aula. E em geral, a formação acaba sendo feita por organizações e centros que recebem imigrantes", afirma a professora da Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo Leda Rodrigues. Docente no Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação, ela pesquisa principalmente os efeitos da desigualdade social no acesso ao ensino superior brasileiro.

Segundo Leda, sem formação adequada, os professores não têm como desenvolver um trabalho pedagógico que, entre outras coisas, proporcione aprendizado às crianças brasileiras e estrangeiras a partir do estudo das diferenças culturais e de linguagem existentes entre os dois grupos. "Essa troca de informações traz muitos benefícios, permite que as crianças brasileiras aprendam com as estrangeiras e vice versa. Mas é preciso preparo para este trabalho. A academia ainda sabe muito pouco sobre isso, que começa a ser discutido nos cursos de especialização, em pesquisas, nos trabalhos de conclusão de curso. Mas a universidade vai ter de contemplar isso na formação."

Muitas crianças imigrantes, conforme a professora, acabam aprendendo mais pelo próprio esforço e envolvimento da família do que pelo que recebe dos professores. "Há crianças bolivianas que frequentam as aulas e, por repetição, aprendem a língua e os conteúdos e até vão bem. Os pais que acompanham as lições de casa reclamam na escola", diz Leda.

A situação afeta sobretudo crianças vindas da Bolívia, Peru, Paraguai e outros países latino-americanos, além de africanas, que vieram com os pais em busca de melhores condições de vida do que as que tinham em sua terra natal. Estrangeiros em melhores situação econômica, como chineses, japoneses, árabes, além de europeus e americanos, em sua maioria procuram escolas particulares, com preparo para essa inclusão, para matricular seus filhos.

O tema, no entanto, ganha cada vez mais importância em todo o mundo quando a questão dos refugiados ocupa grande parte da agenda de muitos países. Em muitos deles, sobretudo europeus, têm sido organizados congressos e outros encontros para troca de informações e discussão de saídas. E as universidades, em seus programas de pós-graduação, começam a estudar as imigrações, a integração desses estrangeiros em seus novos espaços e a inserção social dadas às grandes diferenças culturais.

"Os temas colocados são os que de fato estão na escola, bem como os conceitos que estão por trás disso. Antes se falava em aculturação, com o imigrante tendo de aceitar a cultura imposta pela nação que recebe. Para contornar a imposição da língua, alemães e italianos que vieram para o sul do país acabaram criando núcleos para manter viva sua língua e cultura, que tornaram-se cidades. Hoje se discute como essa cultura deve ser aceita pelo povo que recebe o imigrante".

Para discutir alfabetização e escolarização do imigrante, imigração atual e práticas escolares e a educação e imigração atual no Brasil, o grupo de pesquisa sobre movimentos migratórios e educação do programa de pós-graduação da PUC-SP está organizando um seminário internacional. O encontro, com a presença confirmada de especialistas estrangeiros, ocorre entre 1º e 3 de março.

O curso é aberto a professores e alunos de graduação em educação e professores da rede pública de ensino. "Não vamos trazer a solução, mas discutir alternativas para esses desafios", diz Leda.