Você está aqui: Página Inicial / Educação / 2015 / 12 / 'Reorganizar a qualquer custo' divide, abala e exige recuo do governo Alckmin

limite

'Reorganizar a qualquer custo' divide, abala e exige recuo do governo Alckmin

Vice-governador defende debate do tema em 2016. Justiça suspende processo em Guarulhos. Na região da Paulista e Consolação, polícia vai para cima de estudantes. Alckmin diz que reorganização será "adiada" para "diálogo escola por escola" no ano que vem
por Redação RBA publicado 04/12/2015 12h44, última modificação 04/12/2015 18h44
Vice-governador defende debate do tema em 2016. Justiça suspende processo em Guarulhos. Na região da Paulista e Consolação, polícia vai para cima de estudantes. Alckmin diz que reorganização será "adiada" para "diálogo escola por escola" no ano que vem
Sem título.jpg

Agressão de adolescentes pela PM revela face autoritária de gestão Alckmin

São Paulo – O vice-governador de São Paulo, Márcio França (PSB), disse na manhã de hoje (4) a uma emissora de rádio ser favorável a um debate sobre o projeto de “reorganização” que prevê fechamento de escolas, turnos e afetará mais de 300 mil alunos com transferências, deslocamentos e até separações de familiares. A decisão do governador de mudar a equipe que tem negociado com integrantes dos movimentos que hoje ocupam escolas em todo o estado, agora a cargo de seu secretário da Casa Civil, Edson Aparecido, seria outro indicador de que a intransigência de Geraldo Alckmin já divide o governo tucano.

Antes, o próprio secretário de Educação, Herman Voorwald, conduzia o processo – e sua retirada na linha de frente aumentou as suspeitas no meio político e da educação de que o próprio Voorwald teria posição semelhante à do vice-governador, ou seja, pelo debate.

Há pouco, os portais de notícias começaram a informar que o governo suspenderá a reestruturação. Em pronunciamento, o governador confirmou um recuo. Disse que a reorganização será "adiada" para debate "escola por escola" em 2016. Os estudantes mobilizados comemoram, mas seguem entoando as palavras de ordem “não tem arrego”. Durante seu pronunciamento, o governador não respondeu a perguntas, defendeu a reorganização e reafirmou objetivo de manter o projeto.

O dia começou com manifestações contrárias à “reorganização” na USP e na região da Avenida Paulista, no centro. Os estudantes que se encontraram na avenida e se dirigiram à Rua da Consolação, em direção à Praça da República, foram atacados por grande contingente policial, que lançou bombas de efeitos moral tentando dispersar o protesto, que apesar da dispersão provocada pela violência policial ainda procura se reagrupar para se concentrar na Praça da República.

A Apeoesp, o sindicato dos professores do estado, interrompeu a reunião de seu Conselho Estadual de Representantes, que acontecia na escola Caetano de Campos, próxima à Consolação, para juntar-se aos estudantes na Praça da República, onde os policiais já chegaram, com viaturas, helicópteros e bombas de gás lacrimogêneo. O comércio teve que fechar as portas na Rua da Consolação, devido à violência da ação policial.

Derrotas

A sexta-feira também trouxe ao governo Alckmin duas derrotas contundentes. Uma delas, a divulgação da uma pesquisa Datafolha identificando que a maioria dos entrevistados reprova o projeto do governo (68%) e que pela primeira vez em seus mandatos Alckmin atinge uma taxa de ruim/péssimo (30%) maior que a de aprovação (28%). Detalhe: o jornal Folha de S.Paulo costuma publicar as pesquisas para as quais quer atrair mais audiência nas edições de domingo, dia de maior tiragem.

Outra derrota, segundo publicou a colunista do próprio jornal Mônica Bérgamo, foi a decisão da Justiça de suspender a reestruturação escolar na cidade de Guarulhos, na Grande São Paulo. A sentença do juiz Iberê de Castro Dias, da Vara da Infância Protetiva e Cível de Guarulhos, concedeu liminar a pedido do Ministério Público do estado. “O magistrado considerou que está caracterizada uma infração à Constituição Federal, que prevê a gestão democrática do ensino público. Outras infrações constitucionais e legais foram apontadas, como o fato de Alckmin não ter observado a prioridade absoluta da infância e da juventude na distribuição de recursos públicos. Ou seja, a área da educação que atinge essa faixa etária não pode sofrer cortes antes de todas as outras”, escreveu a colunista.

Para Claudia Fernandes, mãe de duas alunas da escola Prof. Alice Chuery, na cidade, o momento é de vitória, mas pede cautela. “Agora vemos possibilidade de diálogo. Definimos um coletivo de luta contra a reorganização e queremos uma audiência pública na cidade”, disse. Até segunda ordem, as ocupações prosseguem.

Representantes das escolas estaduais de Guarulhos devem se reunir amanhã (5) para debater o anúncio do governador sobre a suspensão. “Vamos analisar com integrantes das escolas, ver se é o caso de confiar no diálogo”, disse a mãe, que também é diretora de uma escola em São Paulo. Sobre matrículas de alunos que já haviam sido transferidas, por conta da reorganização, Cláudia também espera que sejam suspensas.

O Ministério Público e a Defensoria Pública de São Paulo entraram com uma ação civil pública para barrar a reorganização em todo o estado e ainda aguardam decisão da Justiça. A ação pede que a reorganização seja interrompida e que, em 2016, a secretaria da Educação promova uma agenda de discussões com a sociedade sobre as mudanças. Promotores e defensores públicos disseram que o governo "não dialogou" com a sociedade.

Na Lapa

Na página do movimento Não Fechem Minha Escola, no Facebook, estudantes da escola Pereira Barreto, na Lapa, zona oeste, denunciam que policiais e direção “prenderam” estudantes no interior da unidade. A reportagem da RBA foi ao local e verificou que a escola, que não está ocupada, estava em dia letivo normal. Um grupo de alunos decidiu fazer uma manifestação de solidariedade aos que participam de ocupações e a diretoria acionou a polícia, que chegou com violência. Advogados da Defensoria Pública foram impedidos de entrar na unidade, mas a polícia não. Alguns alunos ficaram retidos até a chegada dos pais. Muitos apresentam os olhos avermelhados atingidos por spray de pimenta. Uma unidade do Samu está no local, onde a reportagem permanece.