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Educadora defende legado de Paulo Freire e lembra que adultos aprendem ao refletir

Vera Masagão, da Ação Educativa, fala sobre educação de jovens e adultos, e a polêmica em torno do livro "Por uma vida melhor", que já dura um mês
por Cida de Oliveira, RBA publicado 13/06/2011 19:45, última modificação 21/06/2011 00:17
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Vera Masagão, da Ação Educativa, fala sobre educação de jovens e adultos, e a polêmica em torno do livro "Por uma vida melhor", que já dura um mês

Vera Masagão lamenta visão leviana sobre livro que discute padrão coloquial da língua (Foto: Divulgação Secretaria de Desenvolvimento Social de SP)

São Paulo – Se estivesse vivo, o educador pernambucano Paulo Freire completaria 90 anos em setembro. Seu método de alfabetização de adultos, considerado um dos mais progressistas, tem como pilar principal a tomada de consciência da própria situação e do mundo como um todo pelo educando, para que ele possa então modificá-los.

A proposta, trabalhada no livro Por uma vida melhor, da coleção "Viver, Aprender", destinado à educação de jovens e adultos (EJA), está no centro de uma polêmica que já dura um mês. Em maio, velha mídia pinçou trechos de parte da obra que ensina variantes linguísticas a partir de frases coloquiais – que os alunos devem passar para a norma culta – para colocar nas manchetes que o Ministério da Educação (MEC) adota livro que ensina a falar errado.

A repercussão foi tamanha que o MEC mantém ainda um dossiê intitulado "Comunidade científica reage ao obscurantismo que prega a censura ao livro didático", que reúne depoimentos de especialistas que apoiam a obra integrante do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). Doutora em Educação e coordenadora geral da Ação Educativa, entidade responsável pelo conteúdo pedagógico da coleção "Viver, Aprender", Vera Masagão comenta aspectos da educação de adultos, fala sobre o programa brasileiro de livros escolares e, claro, sobre a polêmica.

Rede Brasil Atual – Como o adulto aprende a falar conforme a norma culta?
Vera Masagão – O adulto aprende pela reflexão. Para aprender a utilizar a norma culta em diversas situações, como na hora de prestar um concurso público ou conversar com uma autoridade, ele tem que tomar consciência do jeito que fala. A partir disso é que poderá perceber todos os “esses” que faltarão quando ele estiver falando na norma culta que está aprendendo. Então vai perceber que diz “nóis vai” quando, pela norma culta, é “nós vamos”. Isso justifica a abordagem pedagógica do livro Por uma vida melhor. O adulto tem que aprender também que existem variantes na língua falada. Como a língua culta é bem diferente da que ele fala, esse processo pode ser comparado ao do aprendizado de uma língua estrangeira.

Daí os exercícios com frases coloquiais para serem "traduzidas" para a norma culta?
Sim. Os autores do livro não deixam de ensinar a norma culta. Pelo contrário, a linguagem formal é ensinada em todo o livro, inclusive no trecho que foi distorcido e destacado pela mídia. Nesse capítulo, os autores apresentam trechos inadequados à norma culta para que o estudante os reescreva e os adeque ao padrão formal. Por isso é leviano afirmar que o livro “despreza” a norma culta. Ainda mais incorreta é a afirmação de que o livro “contém erros gramaticais”.

Há outros motivos para tal polêmica?
Sem contar as suspeitas de manobra de diversos setores para desestabilizar o ministro da educação, Fernando Haddad, há muitas outras, como de interesses de descontentes com o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD), o maior programa do mundo. Há muitas editoras de livros de olho num mercado de milhões de livros comprados para a educação infantil, fundamental e médio, e os sistemas de ensino apostilados, que competem com o PNLD. E tem ainda o aspecto envolvendo o termo “preconceito lingüístico”. Ao dialogar com o aluno através do livro, a autora diz: “você até pode falar assim, mas vai sofrer preconceito lingüístico”. A palavra preconceito pode ter influído porque, no fundo, a pessoa nunca admite que é preconceituosa. Preconceito é sempre o outro que tem.

O que é preconceito linguístico?
Certas formas de falar não são bem vistas, como gírias, por exemplo. Mas o fato é que praticamente ninguém fala segundo a norma culta. Nem a elite usa formas mais eruditas, como “dê-me um cigarro”.  Só que os erros dessa classe social são tolerados. Agora se o erro for identificado com a forma de falar das classes populares, o falante será mal visto. Isso é preconceito lingüístico.

O que dizem as normas curriculares oficiais quanto ao ensino de linguagem para adultos?
Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais, estabelecidos pelo Conselho Nacional de Educação para orientar o planejamento curricular das escolas e dos sistemas de ensino, a língua é um fato social, é viva. Certos falares vão ser aceitos, outros não. Mas sabemos que existe uma norma culta, que todos têm que aprender e que a escola tem que ensiná-la. Isso não está questionado no livro. Pelo contrário.

O que a escola deve ensinar?
Uma escola democrática deve ensinar as regras gramaticais a todos os alunos sem menosprezar a cultura em que estão inseridos e sem destituir a língua que falam de sua gramática, ainda que esta não esteja codificada por escrito nem seja socialmente prestigiada. Defendemos a abordagem da obra por considerar que cabe à escola ensinar regras, mas sua função mais nobre é disseminar conhecimentos científicos e senso crítico, para que as pessoas possam saber por que e quando usá-las.

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