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Crise no vizinho

Argentina volta ao FMI, mas governo diz que não há 'fantasmas'

Com desvalorização da moeda, problemas no ajuste fiscal e inflação alta, país quer recorrer ao organismo internacional para não comprometer reservas
por Redação RBA publicado 09/05/2018 20h08
Com desvalorização da moeda, problemas no ajuste fiscal e inflação alta, país quer recorrer ao organismo internacional para não comprometer reservas
Reprodução/"Clarín"
fmi

Em 2006, Kirchner antecipou quitação de dívida e criticou FMI, por querer impor medidas que prejudicam o crescimento econômico

São Paulo – Em debate durante a campanha presidencial, o então candidato Mauricio Macri garantiu que o problema da Argentina não era o dólar e que o país precisava de um governo "que defenda o valor da nossa moeda". Pois depois de 15 anos os argentinos, às voltas com uma aparentemente incontrolável crise cambial que desvaloriza o peso, voltam a bater à porta do Fundo Monetário Internacional (FMI), à procura de um crédito "preventivo" – termo usado pelo ministro da Fazenda, Nicolás Dujovne, especulado em aproximadamente US$ 30 bilhões, valor não confirmado. Com isso, esperam dar sinais "tranquilizadores" ao chamado mercado. Mas reduz a chance de crescimento e os gastos públicos.

Com o ministro já em Washington, o chefe de gabinete do governo, Marcos Peña, disse nesta quarta-feira (9) em entrevista coletiva que as negociações devem durar semanas, mas afirmou que "não há razão para agitar os fantasmas", referindo-se a crises anteriores. Segundo ele, o recurso ao FMI é uma medida preventiva para evitar impactos maiores nos salários, reafirmando que "o gradualismo é o único caminho".

Filho do ex-presidente Raúl Alfonsin, o ex-deputado manifestou preocupação. "Mais que um acordo com o FMI, é preciso um acordo entre os argentinos: partidos mais representativos, produção e trabalho. Me preocupa as condições do FMI. Podem ser, com o tempo, um remédio muito pior que a doença", afirmou em rede social.

O economista Marcio Pochmann observa que, de alguma maneira, submeter-se a um acordo com o Fundo Monetário "tira a autonomia de decisão do governante", que deve se sujeitar a uma série de regras. "E a possibilidade de crescer fica comprometida", acrescenta. 

A Argentina tem uma economia "mais aberta e com diversidade de exportação bem menor", diz Pochmann. Para não comprometer suas reservas, o país negocia esse empréstimo, uma situação diferente da brasileira. "O Brasil tem um saldo de reservas deixado pelo governo Dilma que dá uma tranquilidade nesse sentido", observa. Mas a crise no vizinho pode trazer consequências: "Parte importante da nossa indústria está vinculada às possibilidades de venda para a Argentina". 

Apesar de algumas dificuldades anteriores, ele credita o retorno da Argentina ao Fundo à política adotada pelo governo Macri, desde a sua posse, em dezembro de 2015. "Uma visão mecanicista, de encanador, menos Estado, mais setor privado. É um ciclo negativo de opções que foram feitas no plano do receituário neoliberal", diz o professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e presidente da Fundação Perseu Abramo. 

"Agora, alguns comentaristas fazem malabarismo, dizendo que é um problema herdado. Um malabarismo de torcedores", ironiza.

Com a desvalorização da moeda local, um dólar hoje corresponde a aproximadamente 23 pesos. Países emergentes costumam sofrer mais com o dólar, e a Argentina recentemente retomou uma estratégia de vender parte de suas reservas. Depois foi elevando sucessivamente os juros, que agora chegam a 40%. A esse cenário se somam queixas generalizadas contra aumento de tarifas e com a alta da inflação, que fechou 2017 em 25%. Na Câmara, se discute uma medida da oposição de cancelar o reajuste de tarifas de serviços públicos, subordinando os aumentos à evolução dos salários.

A relação com o FMI sempre foi conflituosa, resultando em diversas crises. Na década de 1990, por exemplo, o governo de Carlos Menem fixou o chamado câmbio "1 por 1", de paridade entre peso e dólar – a economia naufragou e a dívida disparou. No início de 2006, o presidente Néstor Kirchner anunciou a quitação antecipada da última parcela do saldo devedor da Argentina em relação ao Fundo. Naquela ocasião, declarou que o FMI pressionou o país para aplicar "políticas que prejudicavam o crescimento da economia".

Seguiu-se um longo período de distanciamento, até que Macri ganhou as eleições e passou a se reaproximar do Fundo Monetário. Há dois meses, a diretora-gerente da instituição, Christine Lagarde, visitou a Argentina e elogiou a política econômica.