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Dívida global

Para professor da Unicamp, FMI tem concepção 'cristã medieval' sobre economia

Economista Fernando Nogueira da Costa diz que alertas do Fundo a partir de relatório que mostra crescimento da dívida dos países é equivocado e se baseia na premissa de que credores têm sempre razão
por Eduardo Maretti, da RBA publicado 24/04/2018 07h22, última modificação 24/04/2018 09h01
Economista Fernando Nogueira da Costa diz que alertas do Fundo a partir de relatório que mostra crescimento da dívida dos países é equivocado e se baseia na premissa de que credores têm sempre razão
Reprodução
Fernando Nogueira da Costa

“O que é verdade para o sujeito (ou país) não é verdade para o coletivo", diz economista da Unicamp

São Paulo – O alerta do Fundo Monetário Internacional na semana passada, segundo o qual a dívida dos países bateu novo recorde, atingindo 225% do PIB global, com U$ 164 trilhões, é baseado em uma visão equivocada da economia e na concepção de que os credores têm sempre razão. Aproveitando o alerta, divulgado junto com relatório e a avaliação da expansão da dívida, o FMI avisa que as nações devem ajustar suas economias e se preparar para "duros tempos que virão".

Para o professor titular do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Fernando Nogueira da Costa, não há novidade no discurso da instituição, que "é o mesmo de sempre". "Esse cálculo é muito impressionista". O discurso do FMI repete o "erro de pensamento contumaz quando se passa do plano das partes para o todo". 

Para o professor, esse raciocínio não se sustenta. Seria um "sofisma da composição": muitas coisas que podem ser válidas do ponto de vista individual não valem para o todo. "O que é verdade para o sujeito (ou país) não é verdade para o coletivo. No plano global, eles simplesmente agregam as coisas. Mas não existe uma política econômica única, uniformizada, para o problema da dívida."

Após constatar o valor crescente do endividamento global, em seguida vem o receituário tradicional do FMI, fundamentado nos cortes orçamentários. "Como tem a dívida, é preciso então cortar gastos para sobrar receita e pagá-la. Ou seja, ir para o sacrifício. É uma visão cristã medieval. Porque ao cortar gastos, como no ajuste no Brasil, vem uma grande depressão, não se gera renda para pagar e aumenta a fragilidade financeira. Agrava a depressão. E não tem renda para pagar a dívida", diz Nogueira da Costa.

O discurso de sempre dos economistas ortodoxos que dão as diretrizes a serem seguidas pelos países passa ao largo das necessidades das nações individualmente, como o Brasil, que vem sofrendo com políticas de ajuste em prejuízo dos investimentos sociais.

"Para eles, é indiferente cortar gastos sociais, Bolsa Família etc. O pavor deles é não receber a dívida. Só que essas políticas derrubam o PIB e a capacidade de pagamento piora. E é muito pior ter um devedor quebrado do que um devedor com a renda em expansão."

Sob arrocho fiscal e sem condições de crescer e, portanto, de honrar a dívida, o país entra em recessão ou, pior, depressão, trilhando o caminho inverso ao que seria conveniente para gerar receita. "Em termos dinâmicos, a verdade é que a economia tem que crescer sempre. Quando a capacidade produtiva se expande, vai gerar mais renda e conseguir pagar a dívida", diz o professor da Unicamp.

Segundo o FMI, China, Japão e Estados Unidos são responsáveis por mais da metade da dívida global. O professor lembra que o endividamento de países como Estados Unidos e Japão, por exemplo, ultrapassam largamente o PIB. Mas ele questiona: "Os credores vão duvidar da capacidade do Estado japonês ou do norte-americano de pagar? Evidentemente que não. Esse tipo de posição do FMI é assumir um ponto de vista equivocado, só em favor dos credores."