Você está aqui: Página Inicial / Economia / 2016 / 04 / Sem moral, governo Temer reduziria despesa na área social, diz Amir Khair

governo tampão

Sem moral, governo Temer reduziria despesa na área social, diz Amir Khair

"Eu acho que vai ser um desastre completo", diz o economista. Ele critica ações do governo Dilma, mas chama o programa do PMDB de "Ponte para o Passado"
por Helder Lima, da RBA publicado 20/04/2016 09h46
"Eu acho que vai ser um desastre completo", diz o economista. Ele critica ações do governo Dilma, mas chama o programa do PMDB de "Ponte para o Passado"
Valter Campanato/arquivo abr
dem.jpg

Amir Khair: 'É um governo que é manchado moralmente, porque tem o Cunha comandando o processo, é um governo que tem perna curta do ponto de vista moral

São Paulo – O eventual governo do vice-presidente Michel Temer, que pode ser instituído com a aceitação do processo de impeachment de Dilma Rousseff pelo Senado, não terá fôlego para recuperar a economia, defende o economista Amir Khair, que já foi secretário municipal de Finanças de São Paulo. "Eu acho que vai ser um desastre completo. É até bom a Dilma sair para deixar a bomba estourar na mão dele, porque ele vem com essa onda de reduzir despesa na área social. Vão pegar uma população já bastante sacrificada, e provavelmente vai ter um período de trégua, vamos chamar assim, os empresários e os bancos vão puxar o saco do novo governo, mas como é um governo que é manchado moralmente, porque tem o Eduardo Cunha (PMDB-RJ) comandando o processo (de impeachment), é um governo que tem perna curta do ponto de vista moral", sustenta.

"Em segundo lugar, há que se destacar o seguinte: todo mundo fala em despesa pública do governo federal, mas o governo federal é responsável por apenas 36% da despesa pública, não financeira, tirando os juros, e 34% pertencem a estados e municípios", acrescenta Khair, destacando a participação de estados e municípios na crise fiscal.

Uma outra frente de mudança, defendida por Dilma e que deve ser levada adiante por Temer, também será fonte de descontentamento, só que da classe média, ampliando a insatisfação com o governo. "Vão ficar discutindo a Previdência Social, que é um abacaxi político para o governo, porque vai mexer com a classe média", diz o economista. Ele lembra ainda outra fonte de descontentamento e não vê como a população apoiar Temer. "Vão continuar querendo desvincular (da Constituição) os recursos para educação e saúde, e tudo isso vai dar um problema grave para todo mundo", diz.

"Não vejo boa chance para a renda e o emprego no governo Temer, como também não estou vendo no governo Dilma. Sou um crítico do governo Dilma, acho que ela ganhou a eleição com um projeto e foi querer puxar o saco da elite. Em vez de ela fazer um programa mais firme em relação ao dinheiro para a área social, mas só que com responsabilidade fiscal, ela pegou o Joaquim Levy para comandar a área econômica, que é um diretor de banco." Khair afirma que "não se faz isso, você não chama a raposa para tomar conta do galinheiro". Para ele, "botar no Ministério da Fazenda alguém ligado ao mercado financeiro é sancionar que os juros vão se manter altos. Não precisa ser expert para saber disso".

Atacar o problema dos juros

Os resultados das contas primárias do país, que estão no centro das atenções do mercado financeiro ao pressionar o governo pelo ajuste fiscal, representam uma discussão ideológica que esconde a conta de juros da população e, mais do que isso, escondem os resultados nominais que efetivamente contam o desempenho do governo. Por definição, as contas primárias são todo o balanço de receitas e despesas, sem o pagamento de juros.

"O problema do governo – e não quero dizer com isso que você esteja sujeito a perder o mandato, o que é a questão política – mas o que eu falo do ponto de vista técnico é que este governo Dilma errou gravemente na questão fiscal. E não é o único no Brasil a errar. O Fernando Henrique errou gravemente na questão fiscal, no primeiro mandato dele, mas a questão fiscal não é entendida aqui como um problema de responsabilidade, porque não se discute a questão fiscal no Brasil", defende o economista.

"O que se discute é como se a questão fiscal fosse apenas os valores que não envolvem juros. O Brasil teve déficit fiscal no ano passado, de mais de R$ 600 bilhões, atingiu 10,3% do PIB, isso do ponto de vista nominal, e os juros foram 8,5% do PIB", afirma Khair. "Os juros representaram 82% do déficit. Só que ninguém fala que isso é déficit. E é déficit em qualquer lugar do mundo. Só aqui no Brasil que o pessoal fala desse déficit ou superávit primário."

Ele diz que o governo Dilma, em 2011, 2012, e 2013, "teve um desempenho fiscal muito bom no resultado nominal, porque a conta de juros não foi alta". Nesse período, a taxa Selic esteve abaixo de 8%, reduzindo a remuneração de títulos do Tesouro. "Mas quando chegou em 2014 ela já pulou para cima na conta de juros, já foi para 6,3% (do PIB) e começou a subir muito. Em 2015, foi para 8,4% e este ano creio que deve bater em 9%", acredita.

O economista lembra que o déficit nas contas do governo federal existe há muito anos. "O orçamento é deficitário historicamente. Só que aqui no Brasil há uma hipocrisia na discussão sobre a questão fiscal. Não consideram os juros como sendo uma despesa fiscal. E o juro na contabilidade pública integra uma categoria de despesa chamada despesas correntes, que é a mesma que integra a despesa de pessoal, é a mesma categoria de despesa da contabilidade pública."

Para Khair, a chance de o país sair do buraco sem atacar o problema de juros é pequena. "Para isso tem de vender reservas – e as reservas custam os olhos da cara – não tem a mínima justificativa para manter esse excesso de reservas, mas esse governo pode dar na veneta de querer fazer coisas boas para agradar a população, pode dar a loucura de vender reservas, mas nada leva a crer que vá se fazer isso, porque todo o suporte desse plano deles não toca na questão central das finanças públicas, nem na questão do próprio crescimento econômico", diz. Ele chega a brincar que o programa econômico de Temer, chamado Uma Ponte para o Futuro, deveria se chamar Uma Ponte para o Passado.