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Copom faz primeira reunião de 2016: centrais pedem queda, mercado espera alta

Sindicalistas protestam diante da sede do BC em São Paulo, enfatizam unidade e cobram mudança de política econômica, para combater crise e viabilizar retomada do crescimento
por Vitor Nuzzi, da RBA publicado 19/01/2016 13:51, última modificação 19/01/2016 17:27
Sindicalistas protestam diante da sede do BC em São Paulo, enfatizam unidade e cobram mudança de política econômica, para combater crise e viabilizar retomada do crescimento
FramePhoto/Folhapress
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Para os sindicalistas, elevar a Selic corresponde a um desastre na economia e com consequências sociais

São Paulo – Enquanto o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central abre hoje (19) sua primeira reunião de 2016 e o mercado financeiro aguarda nova alta ou, no máximo, estabilidade, as centrais sindicais tentam aumentar a pressão para que o Copom inicie um processo de corte dos juros, o que não acontece desde outubro de 2012. Neste momento, a taxa Selic está em 14,25% ao ano, no maior nível desde 2006. Integrantes de sete centrais fizeram protesto na manhã de hoje diante da sede do BC em São Paulo, na Avenida Paulista, atacaram a política econômica e voltaram a cobrar mudança de rumo do governo, alertando para as perspectivas negativas do país, com crescimento do desemprego e queda do Produto Interno Bruto (PIB).

O movimento ocorre no dia em que o presidente do BC, Alexandre Tombini, excepcionalmente, divulgou nota para avaliar a revisão de projeções para o Brasil feitas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI): em relação ao PIB, o prognóstico passou de -1% para -3,5% este ano e de 2,3% para 0% no próximo. Segundo Tombini, "todas as informações econômicas relevantes e disponíveis até a reunião do Copom são consideradas nas decisões do colegiado". Com isso, cresceram as apostas no sentido de uma alta mais moderada (0,25 ponto percentual, para 14,5%) ou mesmo de manutenção dos juros.

Para os sindicalistas, elevar a Selic corresponde a um desastre na economia e com consequências sociais. "Juros altos não levam o país ao desenvolvimento, impedem a criação de empregos. Precisamos de uma política de desenvolvimento, de uma política industrial", protestou o presidente da CUT de São Paulo, Douglas Izzo.

"Que país cresceu com juro alto? A insistência nessa política está levando a economia brasileira à bancarrota. E não é Copom. A responsabilidade pela política econômica é do governo, é da presidenta", criticou o secretário-geral da CTB, Wagner Gomes. "O empresariado nacional precisa reagir junto com os trabalhadores."

Remédio

O presidente da Nova Central em São Paulo, Luiz Gonçalves, o Luizinho, questionou a justificativa mais constante do Copom para aumentar os juros. "Essa taxa não está controlando a inflação", afirmou, com a concordância do presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores Metalúrgicos (CNTM), ligada à Força Sindical, e do sindicato da categoria em São Paulo, Miguel Torres. "Esse remédio não tem mais eficácia, está com data de validade vencida", afirmou, acrescentando com ironia que por causa disso a próxima manifestação será feita diante da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O presidente da CGTB, Ubiraci Dantas de Oliveira, o Bira, também criticou a "atitude antipatriótica" do governo ao sugerir mudança da idade mínima para a aposentadoria. "O governo está no buraco, a primeira coisa que precisa fazer é parar de cavar."

De volta à presidência da Força Sindical, o deputado Paulo Pereira da Silva, o Paulinho (SD-SP), disse que a recuperação da economia não pode passar por retirada de direitos previdenciários e trabalhistas. Ele fez críticas à "roubalheira" e criticou o governo, mas disse que irá trabalhar, na Câmara, pela aprovação da Medida Provisória (MP) 703, sobre acordos de leniência com empresas investigadas por envolvimento em atos de corrupção. "Precisamos salvar as empresas brasileiras."

Sobre Dilma Rousseff, um dos líderes do movimento pelo impeachment afirmou que é preciso "falar sério" com a presidenta: "Não é possível que ela continue ouvindo o sistema financeiro e não os trabalhadores". Paulinho disse ainda esperar que o Copom dê uma sinalização positiva, cortando pelo menos meio ponto percentual da taxa básica. A decisão sai amanhã (20) à noite.

Fragilidade

Todos os discursos fizeram referência à importância da manutenção da unidade entre as centrais sindicais, talvez em sinal de preocupação com a volta de Paulinho, que reassumiu o comando da Força na semana passada, no lugar de Miguel Torres. "Eu topo manter a unidade", afirmou o deputado, "mas tem de ser na luta", acrescentou. "Não vou a Brasília para puxar o saco."

Último a falar no carro de som, o secretário-geral da CUT, Sérgio Nobre, ressaltou que sem essa unidade não haveria a lei que reconheceu formalmente as centrais sindicais, nem a política de valorização do salário mínimo. "Toda vez que um quis ser melhor que o outro, todo mundo perdeu", afirmou, defendendo a liberação de empresas para participar de obras de infra-estrutura, buscando retomar o crescimento. "Quem comete crime são as pessoas. As empresas têm de continuar operando."

Vindo do setor metalúrgico do ABC, ele destacou o momento difícil no setor industrial, que opera, segundo estimou, com metade de sua capacidade de produção. "O tema da indústria é central este ano", disse Sérgio Nobre. O dirigente da CUT lembrou também que as centrais, juntamente com entidades empresariais, aprovaram no final de 2015 o chamado Compromisso para o Desenvolvimento, com uma série de medidas para reativar a economia. O documento foi entregue à presidenta.

Depois de sete elevações seguidas, o Copom manteve os juros em 14,25% nas três últimas reuniões. O movimento de alta começou em 2013, quando a taxa básica estava em 7,25%, no seu menor nível histórico.

Ontem, integrantes do Fórum 21 e da Frente Brasil Popular divulgaram nota em repúdio a uma possível elevação dos juros. "Diante da fragilidade da economia brasileira, essa reunião é particularmente importante e deixará claro a quem o BC serve: à população brasileira ou ao mercado financeiro. (...) Uma nova rodada de aumento de taxa de juros significa que o Banco Central almeja abertamente uma contração maior da demanda, mais desemprego e mais redução do salário médio." Para as entidades, a política de altas não contribui para reduzir a inflação, "mas é um poderoso mecanismo de transferência de renda da parcela mais pobre e mais produtiva para a parcela mais rica e menos produtiva da população".