Você está aqui: Página Inicial / Economia / 2015 / 11 / Lucratividade é o único critério que interessa às empresas globais

desigualdade em marcha

Lucratividade é o único critério que interessa às empresas globais

Economista da PUC-SP afirma que megacorporações desprezam controles técnicos, o que causa danos ambientais e sociais, e governos perdem influência sobre a economia frente à concentração empresarial
por Redação RBA publicado 21/11/2015 10h38
Economista da PUC-SP afirma que megacorporações desprezam controles técnicos, o que causa danos ambientais e sociais, e governos perdem influência sobre a economia frente à concentração empresarial
Reprodução
dowbor.jpg

Dowbor: limites extremos nas políticas de governos face ao poder planetário das megacorporações

São Paulo – Desastres ecológicos como o da ruptura de duas barragens de rejeitos de mineração da Samarco, em Mariana, podem ser considerados subprodutos de um modo de governança das empresas, voltado à concentração financeira, em que o único critério de decisão sobre o dia a dia dos negócios é a rentabilidade. “Quando você tem o tipo de negócio de Mariana, não é o pessoal técnico que manda, quando você tem os desastres ambientais mais diversos, da British Petroleum ou o que seja, você tem de pensar que não é o pessoal técnico que manda”, afirmou o professor de Economia da PUC-SP Ladislau Dowbor, no seminário em Brasília “Desenvolvimento em Disputa: Por uma economia a serviço da vida", promovido esta semana por organizações não governamentais.

Dowbor falou sobre as mudanças na arquitetura global do capitalismo, a partir de um estudo, um dos poucos do gênero, realizado pelo Instituto Federal Suíço de Pesquisa Tecnológica, uma instituição insuspeita segundo ele, ganhadora de 31 prêmios Nobel em áreas científicas. “Pegaram os 43 mil principais grupos econômicos do mundo e foram analisando quem controla quem, porque ali existem os mais diversos tipos de controle, e chegaram basicamente ao seguinte: 737 grupos controlam 80% do mundo corporativo”, afirmou.

O economista também explicou que dentro desse conjunto, há um núcleo de 147 holdings que controlam 40% das corporações. Detalhe: dessas 147 empresas, 75% estão no ramo financeiro. “Estamos falando de grupos que frequentemente controlam, por exemplo, dez, doze mil grupos em 50, 60 países diferentes, em uma dezena de setores diferenciados. Esse é o tamanho. A gente vê a Nestlé, que faz papinha, é algo simpático no supermercado, mas na realidade é uma holding financeira que por sua vez controla outras holdings, que controlam outras holdings, então, na realidade os caras que produzem a papinha estão na base dessa estrutura”, disse, destacando que as metas de rentabilidade são as informações de referência nessas cadeias de gestão administrativa.

O resultado de tamanha concentração é que o topo da organização corporativa não tem o menor controle sobre o que se passa nas linhas de produção ou em outras áreas das empresas, mesmo quando envolvem aspectos sociais ou ambientais. A palestra de Dowbor tem uma versão em texto em seu blog, com o título “O caótico poder dos gigantes financeiros”. No texto, ele afirma que essas empresas “são galáxias com capacidade extremamente limitada de controle, o que por sua vez leva a que o resultado financeiro seja o único critério acompanhado, por exemplo a partir da empresa 'mãe' situada nos Estados Unidos ou na Suíça.”

Outro trecho do texto ressalta que o conhecimento do setor que recebe investimentos nem sempre vem ao caso: "O que aqui se estuda é o universo extremamente complexo que cada corporação constitui em si, na medida em que uma empresa do setor alimentar pode por exemplo comprar uma mineradora e dezenas de outras empresas dos mais variados setores simplesmente porque são fonte de lucro, sem ter nenhuma expertise particular nas atividades em que investem."

Ainda dentro do conjunto de empresas que traça os destinos do mundo, há 28 megacorporações que juntas, em 2012, faturaram US$ 50 trilhões para um PIB mundial de US$ 73 trilhões – uma concentração de 68,5% de toda a riqueza existente no planeta. “Desde a crise de 2008, passou-se a estudar esses 28 grupos, tem até a nome para eles, são os chamados Grupos Financeiros Sistemicamente Significativos, são esses grupos que manejam todo o processo. Sua totalidade é europeia e norte-americana, e tem o Bank Of China. O resto, nada”, afirmou.

Outro desdobramento dessa concentração é que os governos no mundo estão ficando sem poder de interferir nos rumos da economia como, aliás, temos visto nos países do Ocidente, capitaneados pela agenda neoliberal, ou mesmo no Brasil, em que o resultado das eleições de 2014 não impediu que a economia ingressasse por um rumo conservador. “Na realidade, com tal poder financeiro mundial, que age em sistemas planetários, a perda de capacidade de gestão dos governos se tornou absolutamente avassaladora”, afirmou. “Você pode eleger quem você quiser na Grécia, ou como no Brasil em que o problema do déficit se impõe; na realidade, há limites extremos nas políticas nacionais pelo fato de ter se estruturado esse poder planetário”.

Dowbor afirma que em um grupo desses, em geral, “você vai ter cinco, seis ou sete níveis de profundidade: você tem uma holding financeira, que por sua vez controla 32 holdings em diversos países, que controlam outras, que controlam outras e assim por diante. Até que chega lá embaixo e você vai ter, no caso dos 28, entre 300 e 12 mil empresas ou grupos corporativos controlados a partir de cima”, diz. Ainda segundo Dowbor, a média de faturamento desses grupos está na faixa de US$ 1,4 trilhão por ano, e isso é o mesmo que o PIB do Brasil, atualmente a sétima economia do mundo: R$ 5,52 trilhões em 2014 – em dólar, US$ 1,57 trilhão, se considerado o dólar a R$ 3,50.