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Política monetária

Juros no mercado norte-americano são maior fator na alta do dólar

Professor da Unicamp vê exagero em noticiário que induz opinião pública a responsabilizar o governo pela desvalorização do real. Para ele, economia dos EUA mobiliza dólares espalhados pelo mundo
por Helder Lima, da RBA publicado 09/09/2015 17h26
Professor da Unicamp vê exagero em noticiário que induz opinião pública a responsabilizar o governo pela desvalorização do real. Para ele, economia dos EUA mobiliza dólares espalhados pelo mundo
Reprodução TVT
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Mello: “O fato de o governo ter um déficit fiscal não quer dizer necessariamente que o real vai desvalorizar”

São Paulo – O noticiário econômico contra o governo tem uma muleta intelectual recorrente: atribuir a alta do dólar à “crise de governabilidade no país”. E que não deixa de ser conveniente à pressões neoliberais a favor de cortes nos gastos sociais. Os colunistas ditos econômicos da imprensa corporativa evitam observar que a desvalorização do real tem a ver, de forma direta, com o movimento internacional de capitais e com a retomada do crescimento na economia dos Estados Unidos.

Preferem politizar o comportamento do câmbio para exagerar nas cores do clima de instabilidade ou de desconfiança que impacta as moedas. “O fato de o governo ter um déficit fiscal não quer dizer necessariamente que o real vai desvalorizar”, afirma o professor de Economia da Unicamp Guilherme Mello. “A única forma de haver esse impacto é se o economista acreditar que em decorrência das dificuldades fiscais o Brasil irá perder o grau de investimento, e a partir daí, você começa a precificar a desvalorização cambial do real”, afirma Mello.

Nesta entrevista à RBA, o professor da Unicamp analisa a alta do dólar sobre o real neste ano. Mello considera que, no médio e longo prazo, encontrar o ponto certo da relação dólar-real pode ser decisivo para reestruturar o parque industrial brasileiro – é importante ter um setor exportador forte, que venda produtos manufaturados para o exterior e crie empregos internamente.

E defende medidas alternativas ao Brasil, de enfrentamento de problemas estruturais de sua economia, o que em sua visão não é possível com uma taxas de juros tão elevada praticada internamente. “Nas contas públicas, você tem déficit primário, digamos, de 0,5%, e todo mundo fica batendo nesse ponto, mas você tem 8% do PIB de gastos com juros, e ninguém olha para esses 8%.”

“O nosso déficit primário é muito parecido com países próximos de nós. Agora, o que é muito diferente é o nosso gasto com juros. E é isso que o Brasil precisa mudar, gastar 8% do PIB com juros, transferência de dinheiro dos contribuintes para pessoas que vivem de renda, os famosos rentistas, isso sim, é um desajuste que tem sufocado as possibilidades de desenvolvimento do país”, afirma.

A imprensa repete muito que a alta do dólar reflete a falta confiança nas contas públicas, que a cotação em alta resulta da dificuldade do governo de gerir suas contas, e tudo o mais. Esse discurso é ideológico?

É. O fato de o governo ter um déficit fiscal não quer dizer necessariamente que o real vai desvalorizar. É uma relação tão indireta, mas tão indireta, que é difícil você afirmar isso com toda certeza. O que determina o preço do dólar? É o mercado cambial, em suas mais diferentes esferas. Você tem o mercado cambial doméstico, o mercado off shore, que é o mercado de reais negociados fora do país, você tem o mercado doméstico, o mercado à vista, o mercado interbancário e o mercado futuro. São vários mercados nos quais a moeda é negociada. O dólar em troca do real, ou em troca de outra moeda. Esses mercados atuam muitas vezes com lógicas distintas.

E como a questão fiscal do Brasil pode afetar a cotação do dólar?

A única forma de haver esse impacto é se o economista acreditar que em decorrência das dificuldades fiscais o Brasil irá perder o grau de investimento, e a partir daí, você começa a precificar a desvalorização cambial do real. Por quê? Você acredita que ao perder o grau de investimento, uma série de investidores internacionais, principalmente fundos de previdência, não poderão mais investir seus dólares no Brasil. Será reduzida a oferta de dólar em território nacional, e com isso você teria uma desvalorização do real.

Mas isso é interpretação...

Como eu disse, isso é uma interpretação indireta, porque na realidade, a nota de risco do Brasil depende de diversos fatores, e apenas um deles é a questão fiscal. O atual movimento de desvalorização cambial pode ter algum fator especulativo, quanto à possível perda do grau de investimento etc. Mas reflete também um movimento um internacional em decorrência de dois fatores. Em primeiro lugar, a possibilidade de aumento da taxa de juros nos Estados Unidos. Isso é uma possibilidade real, está colocada, e muitos economistas acham que acontecerá ainda este ano. Eu tenho lá minhas dúvidas. E caso os Estados Unidos aumentem sua taxa de juros, atrairão dólares para sua economia. O que isso quer dizer? Esses dólares, essa moeda que está espalhada pelo mundo, inclusive no Brasil, vai sair daqui e de outros mercados, e voltar para os Estados Unidos para aproveitar a rentabilidade mais elevada. Ao sair do Brasil, você teria uma desvalorização cambial.

Então, muito além da questão do grau de investimento, há questões internacionais. E tem também, em segundo lugar, um reposicionamento da moeda brasileira frente às outras moedas. Durante muito tempo, o real esteve com um valor muito alto em comparação a outras moedas do mundo. Isso levou à desindustrialização, ao enfraquecimento da indústria nacional. O Brasil acumulou déficits comerciais e déficits em transações correntes. Todo mundo viajava, fazia compras fora do Brasil, até isso contribui para o déficit no setor externo brasileiro.

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Evolução do dólar e do euro de jan/14 a set/15 mostra que enquanto a moeda dos EUA sobe 59,41%, euro acumula 31,28%: recuperação da economia norte-americana

Mas por que o real se manteve tanto tempo valorizado?

Bom, aí tem vários fatores. O primeiro e mais importante deles é que as taxas de juros brasileiras são muito superiores àquelas do resto do mundo. Isso quer dizer que o Brasil atrai muito capital externo porque oferece rentabilidade. Como a taxa de juros do Brasil está fora do lugar no cenário internacional, esse é o verdadeiro desajuste da nossa economia. Você assim atrai capitais e valoriza sua taxa de câmbio.

E os outros fatores?

Outros fatores também contribuíram pra isso, por exemplo, o crescimento do saldo comercial em decorrência da valorização do preço das commodities. Como o Brasil é um grande exportador de commodities, quando elas estão com preços muito altos, temos saldos comerciais muito robustos. Isso significa que está entrando mais dólar na economia do que saindo. Essa entrada maior de dólares também valoriza o real.

Então, você tinha vários fatores aí. O mundo com taxas de juros baixas, o Brasil com juros altos, o país em uma situação econômica de crescimento, que parecia bastante sólida até 2012, 2013, e com saldos comerciais positivos. Tudo isso contribuiu para que a taxa de câmbio brasileira ficasse excessivamente valorizada, e agora precisa passar por uma correção. A correção é para diminuir os déficits em transações correntes e voltar a ter superávits na balança comercial.

O que desencadeou o movimento de desvalorização do real a partir de setembro do ano passado?

Olha, isso é um movimento mundial. No mundo todo, o dólar tem se valorizado perante as outras moedas. A China agora promoveu uma desvalorização de sua moeda, o yuan, porque até então a política cambial da China era atrelar a variação do câmbio à variação do dólar. Como o dólar vinha se valorizando em relação às outras moedas, e a China vinha presa ao dólar, o yuan então passou a se valorizar. E ela decidiu falar “chega, agora vou desvalorizar minha moeda”. É uma decisão para reverter o processo de valorização.

E por que o dólar está se valorizando ao redor do mundo?

Em primeiro lugar, por causa da recuperação norte-americana que, apesar de ser frágil do ponto de vista dos empregos, pois tem muito emprego precário, é um crescimento mais robusto do que, por exemplo, dos países de parte da Europa e do Japão. O segundo fator é que eles estão ameaçando desde meados do ano passado, diante dessa ligeira retomada, subir novamente os juros. Só com essa especulação, vários capitais ao redor do mundo já saíram de onde estavam e se voltam para os Estados Unidos.

Claro que o Brasil sofreu mais com isso, porque a desvalorização do real foi maior, mas foi maior ainda porque a sobrevalorização do real também era maior. Então, o real estava muito atrás, agora ele já está mais próximo de um valor equilibrado.

O valor de R$ 3,80 é equilibrado?

Olha, existem discussões. Esse equilíbrio é chamado equilíbrio dinâmico. Não existe um só equilíbrio. Você pode ter valores que equilibram setores externos com várias taxas de câmbio diferentes. O que é importante para o Brasil? É ter uma taxa de câmbio competitiva para os setores industriais. Porque o que o Brasil perdeu muito nestas décadas, porque essa é a realidade, temos câmbio valorizado há décadas, desde o plano real. Então, o que nós perdemos com essas décadas de real valorizado foi exatamente a densidade das cadeias produtivas. A densidade industrial. Vários setores da indústria passaram a sair daqui, não produzir mais aqui – importar era mais barato do que produzir aqui.

Então, o Brasil precisa agora estabilizar uma taxa de câmbio, e é importante que chegue logo a um acordo sobre qual o valor certo, para não criar incerteza. Mas estabilizar uma taxa de câmbio que permita o país competir, ser competitivo na maior parcela dos setores industriais que ele possui e ainda quer recuperar. Eu acho que a taxa de câmbio entre R$ 3,50 e R$ 3,80 hoje é competitiva, está dentro do que podemos esperar para uma futura recomposição da indústria nacional, redução das importações e aumento das exportações.

Agora, o patamar atual, que já chegou a R$ 3,90 também reflete muita especulação. Tem um certo movimento de manada, um medo. Ninguém sabe o que vai acontecer. Os Estados Unidos vão aumentar os juros? O Brasil vai ser rebaixado pelas agências de classificação de risco? Tem até incertezas do ponto de vista político sobre a continuidade do governo.

Então, esse conjunto de incertezas afasta investidores internacionais. Aí você vai começar a ver movimentos especulativos pressionando a desvalorização do real. Essa é a verdade. Assim que esses movimentos ficarem mais claros, que a gente souber de uma vez por todas quando e se vai aumentar a taxa nos Estados Unidos, quando e se o Brasil vai perder o rating internacional, quando a situação for mais clara, acredito que esse dólar não fique a R$ 3,80 ou R$ 3,90 e abaixe para a casa dos R$ 3,50.

De qualquer forma, se os Estados Unidos aumentarem efetivamente a taxa de juros, a desvalorização não seria tão maior aqui, porque ela já está acontecendo, certo?

Existe essa discussão. Eu acredito piamente que esse controle recente de forte desvalorização do real embute expectativas tanto de perda do grau de investimento quando do aumento da taxa de juros norte-americana. Ou seja, não faria sentido para o Brasil ter uma taxa de câmbio muito mais desvalorizada do que essa que estamos vendo aí. Até porque essa taxa já está permitindo a recuperação do setor externo. Você está vendo a volta dos superávits comerciais, a diminuição do déficit em transações correntes com a queda, principalmente, na conta do turismo, as pessoas viajam menos, gastam menos fora, o câmbio desvalorizado também atrai mais turistas estrangeiros.

Na realidade, acredito que caso algum desses eventos venha a se confirmar, seja aumento dos juros ou seja perda do grau de investimentos, o impacto sobre a taxa de câmbio não vai ser muito grande, porque tudo isso já está mais ou menos colocado no preço atual.

Por exemplo, a balança comercial de turismo tem um impacto que não é desprezível nas contas do país. A classe média alta que faz compras em Miami, que vai para o exterior é impactada?

O fato político da desvalorização cambial é interessante de analisar: quem ganha e quem perde com a desvalorização? No curto prazo, eu diria que o trabalhador sai perdendo, porque o salário dele medido em dólar, ou seja a capacidade dele em comprar produtos que tem seu preço estabelecido em dólar, cai. Então, o trabalhador tem seu salário real em dólar reduzido. A classe média, que também seu salário em real reduzido, tem ainda mais essa limitação. Boa parte da cesta de consumo dela é de produtos importados e ela costuma viajar muito e gastar muito. O turista brasileiro é um dos turistas que mais gasta no mundo.

Então, isso tem um impacto político, porque aqueles que fizeram planos de viagem para Miami, para Nova York, Paris, ficam inviabilizados. Isso causa ressentimento, porque a pessoa acostumou a olhar aquilo quase como um direito adquirido. Ela tem direito de viajar uma vez por ano para os Estados Unidos e fazer compras. Obviamente, isso fica mais complicado.

Outra pessoa que na realidade parece que sairia ganhando mas pode sair perdendo no curto prazo é o industrial que importa a maioria dos insumos. Então, para o produtor que importa muita matéria-prima, que importa muitas máquinas e insumos em geral, a desvalorização cambial encarece o produto dele.

Agora, no médio e longo prazos, a desvalorização cambial pode aparecer como um ganho generalizado para a sociedade. Porque ao promover a melhoria da competitividade da indústria, de setores produtivos, esses setores que antes importavam muito vão deixar de importar e procurar fornecedores locais, vão começar a comprar de produtores nacionais. Isso vai gerar emprego, vai gerar renda, vai gerar mais exportação e, no limite, recuperar boa parte das perdas iniciais que você teve.

Então, quando você tem a desvalorização cambial, em um primeiro momento, você tem um choque que parece muito negativo. Parece que o país está perdendo, mas se mantida a desvalorização e apoiada por políticas de sustentação e ampliação no investimento, com melhorias em infraestrutura, e principalmente com distribuição de renda, você vai ver daqui a alguns anos os resultados positivos, em particular para o emprego na indústria.

Por conta da elevação do dólar na última semana, que chegou a R$ 3,86, o Banco Central retomou a venda de dólares, uma prática que estava parada desde dezembro de 2014. Nesta semana, o banco oferta US$ 3 bilhões das reservas com compromisso de recompra em novembro e dezembro. O que significa essa retomada?

O Banco Central é a autoridade responsável por conter a oscilação do câmbio. O Brasil vive um regime de câmbio flutuante, mas isso não quer dizer que as autoridades monetárias tenham de ficar passivas diante das especulações do mercado. Essas especulações fazem com que o câmbio fique muito volátil, o que prejudica a tomada de decisão e os investimentos aqui no Brasil. Então, a autoridade monetária de vez em quando tem de intervir, tem de atuar no mercado para reduzir a volatilidade, e manter um patamar da taxa de câmbio que seja adequado à realidade brasileira. Ao promover leilões, ao vender swaps, o Banco Central busca garantir uma certa estabilidade para a taxa de câmbio, ou pelo menos reduzir a instabilidade. Muitas dessas medidas são adotadas como medida de proteção. Em um momento de grande turbulência no mercado cambial, investidor que está exposto à variação da taxa de câmbio precisa se proteger, porque pode haver perdas enormes sem que isso corresponda a alguma mudança na atividade, mas simplesmente em decorrência dessas mudanças da taxa de câmbio. O Banco Central atua no mercado para promover o que a gente chama de hedge, e reduzir a volatilidade do câmbio.

Mas não é muita oferta de dólares para pouco resultado na cotação?

Existe um questionamento se as medidas do BC estão sendo eficazes nesse sentido, porque elas têm um custo muito alto – só de swap cambial o Brasil já gastou R$ 80 bilhões neste ano, é um valor muito grande que se soma ao pagamento das taxas de juros. Nas contas públicas, você tem déficit primário, digamos, de 0,5%, e todo mundo fica batendo nesse ponto, mas você tem 8% do PIB de gastos com juros, e ninguém olha para esses 8%.

O déficit primário é outra polêmica, não?

O número primário indica a questão da atuação direta do governo por meio dos serviços públicos, e para um economista liberal, é essa atuação que o governo não pode ter, porque um economista liberal acredita que tem de haver menos Estado, os serviços públicos têm de ser privatizados, a Constituição não pode valer porque ela é muito social-democrata, defende muito o estado de bem-estar, então, tem de tirar a saúde pública, enfim, e tudo isso está na conta do resultado primário. Agora, se você olhar os nossos números com frieza, vai ver que o nosso problema não é o primário. O nosso déficit primário é muito parecido com países próximos de nós. O que é muito diferente é o nosso gasto com juros. E é isso que o Brasil precisa mudar, gastar 8% do PIB com juros, transferência de dinheiro dos contribuintes, ou do Estado, para pessoas que vivem de renda, os chamados rentistas, isso sim é um desajuste que tem sufocado as possibilidades de desenvolvimento do país.