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Assessor de Marina acusa visão limitada na formação de economistas hoje no governo

Em debate, Eduardo Giannetti diz que Unicamp é 'um produto típico do regime militar', com 'pensamento desconectado do mundo', e afirma que maior intervenção do Estado 'minou' confiança dos empresários
por Vitor Nuzzi, da RBA publicado 18/08/2014 16:26, última modificação 20/08/2014 19:20
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Em debate, Eduardo Giannetti diz que Unicamp é 'um produto típico do regime militar', com 'pensamento desconectado do mundo', e afirma que maior intervenção do Estado 'minou' confiança dos empresários
Fabio Braga/Folhapress
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Giannetti entende que uma das questões centrais estaria na falta de controle de gastos públicos

São Paulo – Um debate que reuniu hoje (18) pela manhã assessores econômicos de Aécio Neves e Marina Silva e um ex-secretário de Política Econômica, organizado por uma consultoria que já entrou em conflito com a campanha de Dilma Rousseff, teve previsivelmente ataques à política econômica e ao que se chamou de falta de transparência nas contas públicas. Mas o economista Eduardo Giannetti, que pilota o tema no estafe de Marina, acrescentou um dado às críticas ao governo. A uma pergunta da plateia, sobre onde os economistas do governo estudaram, ele estendeu a análise ao que considerou visão restrita advinda da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), "base de formação", segundo o professor Giannetti, de profissionais hoje atuantes no governo. E responsabilizou a ditadura (1964-1985) pelo fato.

"O regime militar é culpado disso. A Unicamp é um produto típico do regime militar", afirmou o economista, vendo como consequência do autoritarismo "um grupo que se fecha religiosamente em torno de um pensamento desconectado do mundo". Formado pela Universidade de São Paulo (USP), Giannetti lembrou de um seminário ocorrido na Unicamp em 1978, com a presença do professor Celso Furtado, que na época morava na França. Sem dar nomes, o economista contou que o coordenador do evento agradeceu a presença de Furtado, mas afirmou que temas citados por ele eram de interesse da "burguesia", enquanto a preocupação dos presentes ao encontro era "a luta de classes, o imperialismo". Ao narrar o episódio e criticar a ditadura, ele acrescentou que "o bolchevismo não aparece em países democráticos".

Em sua palestra, o economista apontou questões que considera problemáticas, como elevação da carga tributária, e a necessidade de aumentar os investimentos. "O Brasil viveu um momento extraordinário de alternância de poder", diz, referindo-se à eleição de Luiz Inácio Lula da Silva em 2002. "Lula virou uma situação muito complicada de inflação. Foi sensacional. Perdemos o pé no segundo mandato de Lula e marcadamente com Dilma", acrescentou Giannetti, para quem fatores como "a espiral intervencionista" do Estado "minou a confiança do setor privado". Mas, segundo ele, "boa parte dos problemas que nós temos é perfeitamente administrável".

Nesse sentido, ele contrariou tese de um dos sócios da Empiricus, consultoria organizadora do debate sobre o "fim do Brasil", que viria com a sequência da política econômica. "A situação é ruim, mas não é desesperadora", disse Giannetti, que visualiza um cenário de estagflação (baixo crescimento e inflação alta), mas reversível. Uma das questões centrais estaria na falta de controle de gastos, que teria como consequências aumento da carga tributária, da dívida ou da inflação.

Assessor da equipe tucana, o economista Mansueto Almeida fez ressalvas à política de subsídios a setores da economia. "Ninguém aqui nesta mesa é contra subsídios. Só que é um princípio básico da democracia, em política pública, você tem de mostrar o custo e o benefício", afirmou. "A universidade e a sociedade conhecem muito pouco de orçamento público." Para ele, ainda pior é a "estagnação" da produtividade, com "excesso de intervencionismo" na economia e aumento do endividamento. "Temos uma agenda de reformas parada desde 2007, 2008."

Também para ele, não há risco de o país acabar. "Não é o fim do mundo, porque o Brasil não tem nenhum grande problema energético, tem um sistema político estável, para o bem ou para o mal. Do ponto de vista institucional, o Brasil é melhor. Este país tem tudo para dar certo, se o governo não atrapalhar." Almeida acredita que o desafio é "se preocupar menos com 2015" e pensar nos fundamentos econômicos para os próximos 50 anos. "Os investidores querem o plano de voo, querem a rota."

Secretário de Política Econômica no primeiro mandato de Lula, durante a gestão de Antonio Palocci na Fazenda, Marcos Lisboa afirmou que o Brasil "piorou mais" que o restante do mundo, listando problemas como políticas setorizadas e protecionismo excessivo. "O que muda depois da crise (de 2008)? Tivemos o retorno ao nacional-desenvolvimentismo. É injusto atribuir essa agenda ao governo. Foi uma agenda de diversos setores da sociedade, quase consensual." Para ele, a política de aumentar recursos para os bancos públicos, a fim de estimular o consumo, fracassou.

Ele também fez críticas a medidas protecionistas. "Não se consegue proteger a todos. Não dá para todo mundo pagar meia-entrada", afirmou. Para Lisboa, a concessão desigual de incentivos afeta a produtividade e torna a economia dependente. "Ficamos reféns da armadilha da proteção."  O ex-secretário, hoje vice-presidente do Insper, disse ainda que não se pode afirmar que o governo não foi "sensível" ao setor privado. "Foi sensível em demasia."

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