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Inflação é empecilho em negociação salarial; distribuir renda continua sendo desafio

Aumento real médio ficou abaixo do ano anterior, com melhores resultados no segundo semestre, quando o INPC também recuou
por Vitor Nuzzi, da RBA publicado 02/04/2014 14h22, última modificação 02/04/2014 14h42
Aumento real médio ficou abaixo do ano anterior, com melhores resultados no segundo semestre, quando o INPC também recuou
Marcelo Camargo/ABr
comércio

O comércio teve o maior índice de aumentos reais (98% dos acordos)

São Paulo – A inflação foi o principal empecilho para as negociações em 2013, mas os sindicatos ainda enfrentam o desafio de aumentar a participação dos salários na renda nacional. Para o coordenador de Relações Sindicais do Dieese, José Silvestre, há um debate sobre a conveniência de se manter a política de valorização do salário mínimo – fator importante de distribuição de renda – e se critica o dinheiro gasto em programas sociais, mas não há questionamento quando o assunto são os bilhões que saem do orçamento para pagamento de juros, por exemplo. "Com essa alta dos juros, o sistema financeiro recuperou tudo o que havia 'perdido'. Esse é o debate", afirmou, ao comentar os resultados das campanhas salariais no ano passado.

Foi um ano mais difícil para as negociações, em boa parte devido à inflação maior, já que o PIB teve crescimento acima da expectativa (2,3%) e o desemprego se manteve em níveis baixos. "Os meses com inflação mais elevada são os que têm menores índices de aumento real", observa Silvestre. "Quase 70% das negociações ficaram abaixo do crescimento médio da economia", diz o economista, referindo-se ao Produto Interno Bruto (PIB).

O aumento real (acima da inflação) médio em 2013 foi de 1,25 ponto percentual, abaixo do ano anterior (1,98 ponto) e próximo de 2011 (1,36). O melhor momento foi 2010 (média de 1,70 de aumento real), quando o país teve seu maior PIB em 25 anos (7,5%). Dois terços dos reajustes com aumentos reais foram de até dois pontos percentuais.

Os resultados de 2013 foram melhores no segundo semestre – o que tradicionalmente acontece –, quando a inflação arrefeceu. De julho a dezembro, 94% dos acordos incluíram aumento real, que na média foi de 1,52 ponto percentual. Na primeira metade do ano, a média ficou em 1,11 ponto.

Silvestre ressalta que os aumentos reais continuaram predominando, ainda que em menor patamar. De 671 acordos analisados, 87% resultaram em reajustes acima da variação do INPC – um resultado próximo aos de 2010 (89%) e 2011 (87,5%), superior a 2008 (79%) e 2009 (80%) e abaixo de 2012 (95%), o menor ano em toda a série histórica, iniciada em 1996. Ele acredita que a tendência vai se manter. "Acho que a gente não deve fugir dessa trajetória, considerando uma variável importante, que é a inflação. Ajustes em alguns preços represados terão influência na inflação e nas negociações."

Outros fatores mostram-se mais favoráveis à negociação durante este ano. "Não há nada que aponte aumento do desemprego", observa Silvestre. O crescimento da economia deverá ser próximo ao registrado em 2013.

Setores

Entre os setores de atividade, a indústria teve 89% dos acordos com aumentos reais, o comércio registrou 98% e os serviços, 78%.

Na indústria, os acordos com aumento real somam desde 100% no segmento de papel e papelão a 48% no urbano, que concentra empresas estatais e têm o IPCA, e não o INPC, como referência. O maior índice de aumento real foi obtido na construção civil (1,9 ponto), seguido do ramo metalúrgico (1,7). Na média, a indústria fechou 2013 com ganho real médio de 1,34 ponto, ante 2,04 no ano anterior. A proporção de reajustes abaixo da inflação (5%) foi a maior desde 2010.

O comércio teve o maior índice de aumentos reais (98% dos acordos). O economista do Dieese observa que esse setor foi mais influenciado pela alta do salário mínimo. O reajuste médio ficou 1,42 acima do INPC, ante 1,91 em 2012.

Os serviços têm a menor proporção de acordos com aumentos reais (78%). Silvestre lembra que se trata de um setor mais pulverizado, que inclui desde o sistema financeiro, mais organizado, até aqueles com menor estrutura e poder de negociação.

O primeiro-secretário da Força Sindical, Sérgio Luiz Leite, enfatiza a importância da continuação da tendência positiva nas negociações, ainda que com mais dificuldade, e destaca a influência do salário mínimo em várias categorias. Para ele, o resultado menos favorável em 2013 pode ser explicado em parte pela situação da indústria. "Também não acredito que possa haver tendência diferente (este ano). Pontualmente, algum segmento pode ter maior dificuldade." Outro fator de dificuldade é a rotatividade no mercado de trabalho. "Quase metade da mão de obra formal é demitida durante o ano."

Membro da executiva da CSP-Conlutas, Atenágoras Lopes vê retrocesso na tendência de crescimento de aumentos reais. "Há vários elementos que remontam à crise de 2008", afirma, prevendo dificuldades adicionais em 2014.

Silvestre nota que tem havido aumento da participação dos salários na renda nacional.  Mas acrescenta que o cenário ainda é preocupante. "O nosso problema é de outra ordem: os preços no Brasil são muito elevados e os salários são muitos baixos."