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Em baixa e desprezado pelo Brasil, começa o Fórum de Davos

Prestigiado no período neoliberal, Fórum Econômico Mundial tem pouca participação de líderes em sua 43ª edição; Dilma não vai ao evento pela terceira vez consecutiva
por Maurício Thuswohl, da RBA publicado 23/01/2013 12h55, última modificação 23/01/2013 14h04
Prestigiado no período neoliberal, Fórum Econômico Mundial tem pouca participação de líderes em sua 43ª edição; Dilma não vai ao evento pela terceira vez consecutiva

Rio de Janeiro – Símbolo maior de um período da economia mundial em que os dogmas neoliberais tinham força de pensamento único, o Fórum Econômico Mundial, realizado anualmente em Davos, na Suíça, não é mais o mesmo. Após meia década de aguda crise econômica nos principais países desenvolvidos, sobretudo os da Europa, o Fórum inicia hoje (23) sua 43ª edição sem o mesmo prestígio do qual desfrutava outrora, fato comprovado pela ausência ou brevíssima participação de líderes da União Europeia e de países não-europeus que sustentavam politicamente o evento, como Estados Unidos, Canadá e Japão.

No Brasil, a pouca importância dada ao Fórum de Davos é marca registrada do governo de Dilma Rousseff, que este ano deixará de comparecer ao evento pela terceira vez consecutiva. As entidades representativas mais importantes da vida econômica do país – Confederação Nacional da Indústria (CNI), a Confederação Nacional do Comércio (CNC) e até mesmo a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) – também não enviarão delegações à Suíça.

Dilma já havia deixado de ir a Davos nos dois primeiros anos de seu governo para participar de eventos como o Fórum Social Mundial (FSM) realizado em Porto Alegre. Em 2011, recém-empossada no cargo, a presidenta brasileira frustrou a organização do evento, que havia programado um painel de discussão especialmente para analisar o novo governo brasileiro.

Desta vez, a assessoria de imprensa do Palácio do Planalto informa que Dilma não irá a Davos porque cumprirá agenda no Brasil e, em seguida, participará da reunião de cúpula da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) com representantes da União Europeia, que ocorrerá em Santiago, no Chile, a partir de amanhã (24): “A presidenta priorizará a Celac, onde serão discutidos temas de suma importância para a relação entre os grupos de países e estarão diversos chefes de Estado ou de governo”.

O principal nome brasileiro a participar dos debates do Fórum Econômico Mundial será o embaixador Roberto Azevedo, em quem o governo deposita suas fichas como futuro diretor geral da Organização Mundial do Comércio (OMC). Chefe da delegação brasileira na OMC, em Genebra, desde 2008, Azevedo goza de bom trânsito entre diversos países e se consolidou nos últimos anos como liderança diplomática no grupo conhecido como Brics, que reúne Brasil, Rússia, Índia e China. Também representará o governo brasileiro em Davos o subsecretário geral para Assuntos Econômicos e Tecnológicos do Ministério das Relações Exteriores (MRE), Valdemar Carneiro Leão.

O ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, que comandou a delegação do Brasil em Davos no ano passado, desta vez acompanhará a presidente Dilma à reunião da Celac. Comandantes de outros ministérios que já prestigiaram com numerosas delegações o Fórum de Davos no passado, os ministros Guido Mantega (Fazenda) e Fernando Pimentel (Desenvolvimento, Indústria e Comércio) também não irão à Suíça este ano.

Estará em Davos o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, que também já representou Dilma nos anos anteriores. Os presidentes do BNDES, Luciano Coutinho, e da Petrobras, Graça Foster, também irão ao Fórum.

Crise atrapalha

Economista e professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, Roberto Macedo afirma que o Fórum Econômico Mundial sucumbiu à própria irrelevância, agora acentuada pela crise econômica global. “Há muitos anos não há nada de concreto saindo daquilo ali. As decisões econômicas internacionais acontecem em outros espaços de discussão. Além disso, aconteceu essa crise na Europa, e em que o Fórum de Davos ajudou?”, provoca.

Cláudio Considera, economista e professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), diz que a crise é o principal motivo da perda de força do evento. “O Fórum de Davos trata de questões de coordenação entre os países, só que agora cada país está cuidando dos seus próprios interesses. Quando está todo mundo crescendo você consegue fazer esse tipo de trabalho, pois todos buscam uma cooperação. Mas, agora ninguém está buscando cooperação, o que atrapalha esse exercício de coordenação. Por isso, o fórum perde com a ausência de figuras importantes de vários países”, diz.

O pouco entusiasmo do governo brasileiro com Davos também se justifica, segundo Considera: “No caso do Brasil, o país tem feito uma objeção grande à política monetária americana e não está fazendo uma política fiscal tão severa quanto a que está sendo recomendada aos países da zona do euro. Fica difícil para o Brasil aparecer nesse tipo de reunião internacional. O mesmo ocorre com alguns outros países. Os elementos-chave dos países desenvolvidos não vão a Davos, e aí também os outros acabam não indo”.

Autor do Blog do Velho Mundo e correspondente da Rede Brasil Atual em Berlim, Flávio Aguiar também aponta a crise global como fator determinante para o declínio do fórum. “A queda de prestígio do Fórum de Davos acentuou-se com a eclosão da crise econômico-financeira de 2007-2008, que solapou as bases de confiança de boa parte de seu ideário e a credibilidade de muitos dos seus frequentadores. O mesmo se deu com o aprofundamento da crise da zona do euro e da União Europeia como um todo, além dos Estados Unidos e do Japão.”

O declínio da relevância do Fórum Econômico Mundial, segundo Aguiar, é inevitável. “Tanto a moldura de apoio do Fórum de Davos como os alicerces do pensamento nele hegemônico entraram em crise, e sua perda de prestígio tornou-se inevitável, tanto no Brasil quanto em outros países. O ideário que alimentava o Fórum de Davos permanece ainda vivo e hegemônico na União Europeia, mas é contestado por economistas de peso – como Paul Krugman e Joseph Stiglitz – e pelo descontentamento crescente no continente”, afirma.