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Neoliberalismo é condenado à morte, mas recorre e ganha novo julgamento

Estudiosos de diversas áreas indicam que é cedo para enterrar o sistema do livre mercado e alertam que saída em direção a um novo modelo de desenvolvimento será marcada por turbulências
por João Peres, da RBA publicado 14/09/2011 16h45, última modificação 23/11/2011 20h33
Estudiosos de diversas áreas indicam que é cedo para enterrar o sistema do livre mercado e alertam que saída em direção a um novo modelo de desenvolvimento será marcada por turbulências

São Paulo – O neoliberalismo foi condenado à morte, mas apresentou recurso e terá direito a um novo julgamento absolutamente imprevisível – do qual pode, inclusive, sair absolvido e fortalecido. Estudiosos de diversas áreas consideram que o atual momento capitalista não chegou ao fim, acrescentam que os próximos anos não serão fáceis e não se arriscam a prever quando e como o livre mercado estará enterrado.

“Não haverá superação do neoliberalismo se não houver uma alternativa concluída”, afirma Emir Sader, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Ele pontua que tudo o que poderia representar alternativas à superação do capitalismo, em especial o comunismo e o socialismo, sofreu golpes muito duros ao longo do século 20, e a gestação de um novo sistema não será uma tarefa simples. “Há uma disputa hegemônica aberta”, diz, o que significa que a acomodação de novas forças pode levar a atitudes drásticas e violentas.

Ignacy Sachs, professor da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris, é defensor de um novo modelo que integre economia, desenvolvimento sustentável e trabalho decente. Ele indica que a atual crise, em que os países mais ricos optaram por se fechar nas próprias tentativas de soluções em vez de prestar solidariedade aos mais pobres, é uma demonstração da criação de “egoísmos nacionais” criados pelo sistema capitalista. Para ele, abandonou-se ao longo das décadas o hábito de planejamento a longo prazo das ações de Estados e das organizações multilaterais. “Não é uma volta pura e simples ao planejamento antigo. É um planejamento negociado entre os quatro grandes grupos de atores – o Estado, os empresários, os trabalhadores e a sociedade civil”, propõe. 

Para os debatedores do seminário “Neoliberalismo, um colapso inconcluso”, realizado esta semana pela Agência Carta Maior, atravessa-se um momento em que a humanidade precisa buscar saídas criativas para que a transição de um sistema a outro não repita a trajetória do passado, sempre marcada por guerras frente a mudanças. “O paradigma neoliberal está em xeque. Estamos na gestação de alternativas ao que foram os vinte anos perdidos da humanidade”, defende Paulo Kliass, especialista em políticas públicas e gestão governamental.

A atual crise, iniciada em 2008, não é vista como um colapso exclusivamente econômico, mas da estrutura do capitalismo. Por um lado os recursos naturais se mostram absolutamente insuficientes dentro do atual modelo de desenvolvimento, calcado em consumo e em multiplicação de lucros. Por outro, trabalhadores em todo o mundo demonstram cansaço com a manutenção de um sistema desigual e que força a empregar cada vez mais tempo na conquista do sustento próprio. 

“O dinheiro tem essa duplicidade. Como finalidade de vida social, é terrível. Mas pode ser um instrumento libertador”, pondera Luiz Gonzaga Belluzzo, professor do Instituto de Economia da Unicamp. Ele acredita que a atual crise desenha uma reestruturação do capitalismo, e não a superação do mesmo. De todo modo, o desfecho desta situação, adverte, não pode ser previsto mecanicamente, e resta lutar para que se dê tendo como base o bem-estar dos cidadãos. “O neoliberalismo é uma forma do capitalismo que é muito mais perene do que podemos imaginar”, diz Belluzzo.

A atual crise é frequentemente comparada à de 1929, que levou o mundo a uma primeira grande quebra em tempos de capitalismo. De lá para cá, salvo pelo começo da segunda metade do século passado, predominou a falta de regulação sobre o capital, vista como o motivo da crise financeira que tem provocado desemprego e culminado em instabilidade política. Na América Latina, reconhece-se como período de predominância das ideias neoliberais a década de 1990, quando, sob o chamado Consenso de Washington, os governos da região aplicaram a cartilha que prevê privatizações, não interferência do Estado sobre o mercado e enxugamento de gastos, o que implica deixar de prestar serviços outrora considerados básicos. 

Antes disso, a região havia experimentado ditaduras e o aumento das dívidas públicas, com arrocho salarial e inflação. “A herança maldita de Fernando Henrique Cardoso não é apenas a recessão imediata. É o enfraquecimento do Estado e o fim do projeto de desenvolvimento”, exemplifica Emir Sader. “Foi um retrocesso estúpido e brutal, e é nesse contexto que aparecem os governos progressistas, ou pós-neoliberais.” Ele acredita que, embora o processo iniciado por presidentes como Luiz Inácio Lula da Silva, Hugo Chávez e Néstor Kichner esteja longe de conclusão, trata-se da única área do planeta em que se estão gestando projetos descolados da influência direta dos Estados Unidos, nação em decadência.

No mundo como um todo, a globalização resultou, na prática, na universalização da livre ação do chamado “mercado”, o que leva, neste momento de crise, à dúvida sobre quem está comandando a situação. Os governos das nações mais ricas se mostraram hesitantes quanto à aplicação de controles sobre o capital no primeiro episódio de colapso, em 2008, o que é entendido como o motivo para a nova etapa de problemas. 

“Estamos em uma perda sistêmica de governança”, indica Ladislau Dowbor, professor titular da PUC de São Paulo e coordenador do Núcleo de Estudos do Futuro. A falta de um banco central mundial que possa atuar sobre episódios como este é um dos exemplos da ausência de instrumentos de intervenção. Dowbor lembra que as últimas décadas marcaram uma progressão grande da produtividade sem que ocorresse uma evolução dos salários. O aumento de lucros e a criação de instrumentos especulativos levaram a um mundo em que quem toma conta dos processos não está ajudando a produzir nada. 

Pelo contrário, constrói um ideário pró-livre mercado que leva à ampliação das desigualdades sociais. “Crianças morrem de fome e isso não é crise. Pertencemos a um eixo de construção de alternativas econômicas que precisa juntar forças para que os recursos sejam voltados ao que é verdadeiramente essencial.”