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Após queda dos juros, governo Dilma reafirma automonia do BC

Autoridade monetária opera como se não pertencesse ao governo federal. Economistas ligados ao mercado financeiro reclamam de redução da Selic apesar de recessão externa
por Redação da RBA publicado 01/09/2011 16:59, última modificação 01/09/2011 18:03
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Autoridade monetária opera como se não pertencesse ao governo federal. Economistas ligados ao mercado financeiro reclamam de redução da Selic apesar de recessão externa

(Foto: Antonio Cruz/ Arquivo Agência Brasil)

São Paulo - Ministros e a própria presidenta Dilma Rousseff não esconderam satisfação com a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) de baixar a taxa básica de juros da economia – a Selic. Nesta quinta-feira (1º), um dia depois da decisão, membros do primeiro escalão do governo federal reafirmaram que a autonomia operacional da autoridade monetária está garantida.

Na noite de quarta-feira (31), o Copom anunciou corte de 0,5 ponto percentual na Selic, definindo a taxa em 12% ao ano. Foi a primeira redução realizada no governo Dilma, após cinco altas nas cinco reuniões do comitê neste ano. A decisão foi tomada em função da piora no cenário externo, aliado à redução de pressões sobre a inflação, constatadas desde a reunião anterior. Os motivos detalhados que levaram os diretores do Banco Central a baixar os juros serão divulgados no dia 8 de setembro, com a ata do Copom.

Economistas ligados a bancos e corretoras que operam no mercado financeiro enxergaram na decisão o resultado de pressões do Executivo. No início da semana, o Ministério da Fazenda confirmou a elevação da meta de superávit primário (economia para pagar juros da dívida pública) do governo federal. A medida foi justificada como uma forma de criar espaço para reduzir juros. Além disso, Dilma deu reiteradas declarações de que esperava cortes de juros tão logo isso fosse possível.

Dilma afirmou, visita a Minas Gerais nesta quinta, que a decisão do Copom envolve a conjuntura internacional. "Desde o governo do ex-presidente Lula, e até anteriormente a ele, optou-se por uma relação entre o governo e o Banco Central de autonomia", admitiu a presidenta em entrevista a rádios de Minas Gerais. Ela disse que as escolhas do Banco Central no atual momento dependem principalmente "do que ocorrer na conjuntura internacional", de modo que não há como "prever isso".

Ao explicar os motivos por que havia concordado com o aumento da meta de superávit primário, Dilma justificou, em conversas com centrais sindicais e com líderes de partidos da base governista no Congresso Nacional no início da semana, que a decisão serviria para criar condições ao corte de juros. Do ponto de vista de economistas liberais, como o governo é um grande comprador, ao conter despesas, o Executivo reduz pressões sobre a inflação. A ideia é que, pela lei da oferta e da procura, quanto menos aquisições, haveria menos motivos para alta de preços.

Diferentemente da crise internacional de 2008, a economia brasileira sentirá mais os efeitos positivos de redução na Selic do que de investimentos diretos. Há três anos, diante de instabilidade externa, a opção do governo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi apostar no consumo das famílias para sustentar o crescimento e a recuperação da economia.

Ao ceder à agenda de ajuste fiscal, o governo federal buscava eliminar motivos que justificavam a manutenção da taxa de juros brasileira como a mais alta do mundo em termos reais (descontada a inflação). Além da movimentação da política fiscal, um conjunto de protestos de centrais sindicais e de movimentos sociais compunha o cenário de pressão por redução de juros.

Ainda a autonomia

A ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, disse que a redução na Selic é resultado de decisões do governo. Ela incluiu o aumento do superávit primário nesse cenário. Ela esteve no Congresso para um encontro com a bancada de deputados que pretendem ingressar no PSD, partido em processo de legalização junto à Justiça Eleitoral, cujo principal articulador é o prefeito de São Paulo Gilberto Kassab (ex-DEM).

Ideli descartou qualquer forma de intervenção junto ao Banco Central em futuras reuniões do Copom, mantendo o discurso de que tudo depende dos diretores da autoridade monetária.

O secretário-geral da Presidência da República, ministro Gilberto Carvalho, rechaçou como "estranha" a avaliação de economistas ligados ao mercado financeiro de que a redução da Selic seria prematura. Ele ironizou a visão, lembrando que, quando a taxa aumenta, as críticas desse tipo de especialista desaparecem.

"Em todas as vezes em que o Banco Central elevou a taxa de juros, não se falou em interferência do Palácio do Planalto", pontuou Carvalho. Para ele, esse tipo de visão ignora o trabalho do Banco Central nos últimos anos. "Não há essa crítica quando o aumento da taxa de juros interessa a alguns setores da sociedade. Seguiremos agindo com responsabilidade", acrescentou.

“Isso (acusação de que houve pressão) é bobagem", resumiu Guido Mantega, ministro da Fazenda. "O Copom não sofre nenhuma pressão política, tem autonomia e eles julgam os cenários e tomam as decisões", declarou o ministro antes de embarcar para São Paulo. "É melhor esperar a explicação da ata do Copom. Se eles fizeram (a redução de juros), é muito positivo, mas o que vale é a avaliação deles."

Após a reunião anterior do Copom, em junho, economistas ligados à indústria e do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea) alertavam para o desalinhamento do Banco Central em relação ao mercado. Desde o início do Plano Real e principalmente após a adoção do sistema de metas de inflação, em 1999, a autoridade monetária manteve uma conduta próxima à visão defendida pelo mercado financeiro. A sequência de anos com bons resultados econômicos e após o início do governo Dilma, mudanças na condução do BC indicavam uma posição mais coordenada com o Executivo.

Com informações da Agência Brasil e Sul21

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