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Sobrevalorização do real é fruto de inflação baixa, câmbio flutuante e disciplina fiscal

Professora da USP entende que atração de capital especulativo não preocupa no momento porque Brasil tem economia forte e não depende tanto da volatilidade dos investidores
por João Peres, da RBA publicado 26/11/2009 15h58, última modificação 26/11/2009 15h00
Professora da USP entende que atração de capital especulativo não preocupa no momento porque Brasil tem economia forte e não depende tanto da volatilidade dos investidores

O governo rejeita mudar o atual sistema de câmbio e aponta que não há meta para a taxa de equilíbrio, mas admite que o ideal seria elevar um pouco o nível atual

A sobrevalorização do real nos últimos meses é fruto de uma série de fatores e de movimentos do mercado internacional. Se por um lado a causa imediata é a maciça entrada de divisas estrangeiras nos primeiros meses pós-crise, esse ingresso é gerado por diversos outros pontos que têm como guia a estabilidade da economia brasileira.

Nesta quinta-feira (26), o banco Goldman Sachs apontou o real como a moeda mais sobrevalorizada do mundo. De acordo com a instituição, a situação se deve à formação de uma “muralha de dinheiro”. Antes da crise, o Brasil atraía em torno de US$ 3,3 bilhões mensalmente e, agora, atinge a cifra de US$ 17,6 bilhões.

O resultado é o dólar desvalorizado, atualmente cotado na casa de R$ 1,70, mesmo com  medidas adotadas pela área econômica do governo para tentar frear a entrada de capitais especulativos, ou seja, o que não entram no país para promover investimentos, mas simplesmente para faturar no mercado financeiro.

Maria Antonieta Del Tedesco Lins, professora do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), aponta à Rede Brasil Atual que a valorização do real já vinha ocorrendo desde 2003 graças a três pilares da política econômica: inflação baixa, câmbio flutuante e disciplina fiscal. Depois, quando o país estava em forte crescimento, atraindo cada vez mais divisas, houve uma queda na entrada de dólares devido à crise, mas a situação foi rapidamente revertida.

Agora, com o país despertando cada vez mais otimismo, tendo recebido avaliações positivas de diversas agências internacionais de classificação de risco, a forte entrada de dólares leva a uma valorização que, na avaliação do Goldman Sachs, é excessiva. O risco imediato é deixar o mercado brasileiro muito aberto aos produtos internacionais: com o real valorizado, fica mais barato importar e se torna menos atraente a exportação.

Em seu relatório, o economista da Goldman Sachs Thomas Stolper manifestou que há indicações de uma trajetória de alta novamente. "Isso incrementa a pressão para implementar uma mescla de políticas mais coerentes ou, alternativamente, existe um risco crescente de que medidas adicionais têm de ser implementadas para frear os ingressos de capital", acrescentou.

Maria Antonieta Del Tedesco Lins considera difícil encontrar um patamar ideal para a taxa de câmbio e aponta que a adoção de medidas restritivas, além de poder sofrer resistência por parte de investidores, poderia ser rapidamente superada pelo mercado, extremamente dinâmico em encontrar novas formas de injeção de dinheiro.

A professora da USP admite a existência de um risco de aumento da presença de capital especulativo, que torna a economia nacional mais vulnerável aos movimentos de divisas de acordo com o local que ofereça maior lucratividade. “Porém, o Brasil hoje está muito mais forte. Nas crises financeiras do final dos anos 90, a gente era muito vulnerável. Atualmente, tem-se um nível de reservas que permitiu ao Banco Central operar como muita tranquilidade durante a crise. A importância relativa do capital especulativo no Brasil é muito menor do que foi no passado”, aponta.

Os setores produtivos brasileiros têm dado mostras de, até o momento, não sentirem os efeitos da apreciação do real. Caminha-se para uma geração recorde de empregos, mesmo em ano de crise, e os indicadores econômicos também são sólidos.

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) divulgou nesta quinta-feira a informação de que a produção industrial paulista fechará o ano em queda, mas que os últimos meses têm apontado para uma forte recuperação em 2010. A Fiesp admite que o câmbio é uma “nuvenzinha” no momento e que os esforços do governo para evitar a sobrevalorização do real, ainda que não tenham surtido efeito, mostram que o câmbio é uma área para a qual se está atento.

Na verdade, a preocupação mundial é com o que ocorre com a grande potência do momento, a China, que há anos sustenta forte crescimento econômico com o acúmulo de uma trilionária reserva em dólares e moeda desvalorizada. O yuan é mantido depreciado pelo governo do país asiático para gerar condições para a exportação.

A professora Maria Antonieta Del Tedesco Lins aponta que o sistema produtivo mundial sofre com isso graças à entrada de produtos chineses excessivamente competitivos em termos de preços. Ela aponta que a solução estaria nas negociações do G-20, o grupo das maiores economias mundiais, mas entende que não há vontade de negociar uma saída para o tema do yuan.

“A China ganhou uma força muito grande na nossa pauta de comércio e os produtos brasileiros ficam cada vez mais caros [por conta da valorização do real], ou seja, perdemos mercado”, afirma.

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