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G-8 não deve continuar por muito tempo, diz pesquisador

Giorgio Romano Schutte acredita que formato atual deve ser ampliado e que não é mais possível sustentar a lógica da economia mundial em torno apenas do dólar
por João Peres, da RBA publicado 09/07/2009 16h13, última modificação 10/07/2009 11h00
Giorgio Romano Schutte acredita que formato atual deve ser ampliado e que não é mais possível sustentar a lógica da economia mundial em torno apenas do dólar

Líderes das nações mais ricas do mundo posam para foto oficial em Áquila, na Itália. G-8 “está totalmente na contramão das tendências estruturais da economia mundial", diz analista (Foto: Maurizio Brambatti/G8website/Ansa)

 O grupo dos países mais ricos do mundo terá que se abrir às nações emergentes e às futuras potências. Para Giorgio Romano Schutte, membro do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional da USP (Gacint), o G-8 “está totalmente na contramão das tendências estruturais da economia mundial. O G-20 vem numa trajetória de legitimar-se como cúpula presidencial exatamente por reconhecer as mudanças que estão acontecendo e que são a base do impacto da crise no mundo”.

O pesquisador aponta que é acertada a visão de que os emergentes não podem estar apenas na hora da “sobremesa” escutando o que o G-8 decidiu. Esta semana, os países mais ricos do mundo estiveram reunidos naquele que foi considerado o último encontro de integração de China, Índia, Brasil, África do Sul e México. De agora em diante, será cada vez mais difícil imaginar que esses países sejam excluídos das conversas. 

Na cúpula atual, em L’Áquila, Itália, os emergentes trataram de barrar um acordo preliminar em torno da redução das emissões de gases. O G-8 havia acertado uma redução de 80% sobre os níveis de 1990 até 2050, desde que os emergentes fizessem um recuo de 50%, o que foi imediatamente rechaçado por China e Brasil. 

Por outro lado, para Giorgio Romano Schutte, o G-20, reunindo países da União Europeia e 11 emergentes, enfrentará resistência para ser o novo fórum de discussão das questões globais. Há pelo menos dois motivos: a resistência de nações medianas do G-8, como a Itália, que teriam o poder dissolvido quando integradas a um grupo muito grande, e a própria dinâmica das discussões, que seria dificultada com muitas vozes em jogo. Por essa razão, decisões no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU) para certos temas também estariam vetadas.

Bric e nova moeda 

 
Estudos de diversas consultorias internacionais mostram que, até 2050, a economia de Brasil, Rússia, Índia e China (os chamados Bric) deve superar a soma dos países do G-7. Além disso, é impossível que qualquer acordo sobre mudança climática exclua China e Índia, duas das maiores emissoras de gases-estufa da atualidade. O Brasil e a Rússia são considerados potências regionais e, por isso, não podem ficar fora.

 

Para o pesquisador do Gacint, o próprio presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, admite que o país tem outro papel dentro de um novo pacto internacional. Ainda será uma potência, sem dúvida, mas dividindo os espaços e as discussões de maneira diferente. 

Parte das mudanças passa pelo peso do dólar frente a outras moedas. Rússia, Brasil e China têm insistido na adoção de uma moeda global. Giorgio Romano Schutte aponta que qualquer alteração nesse sentido não será breve, mas que a colocação em discussão do assunto é um fato muito positivo.

Ele acredita que o caminho mais provável é uma transição usando os Direitos Especiais de Saque do Fundo Monetário Internacional. A ideia é ampliar essa cesta de moedas para contemplar o dólar, o euro, a libra, o ien japonês e o iuan chinês. Para o pesquisador, esse é o embrião de uma moeda global. “Não dá mais para sustentar a economia internacional em torno do dólar. Isso gerou toda uma lógica que permite aos Estados Unidos entrarem em um endividamento enorme e atraírem as reservas do mundo todo. Isso não reflete mais a real situação econômica do mundo”, afirma. 

Como não há outra potência hegemônica neste momento, é impossível a transição do dólar para outra moeda. Além disso, não interessa à China a desvalorização da moeda estadunidense, uma vez que as enormes reservas internacionais do país asiático, US$ 2 trilhões, estão na maioria atreladas a títulos do Tesouro dos Estados Unidos. 

Para Giorgio Romano Schutte, será preciso que chineses – e brasileiros – diversifiquem aos poucos o destino de suas reservas internacionais para que depois se realize um pacto pela adoção de uma moeda global. 

 

 

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