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Idosos são um terço das vítimas por atropelamento em São Paulo

Para especialista, medida da prefeitura de São Paulo de aumentar o tempo dos semáforos na Avenida Mateo Bei e em outras seis vias é insuficiente. Antecipação do vermelho piscante também é contestada
por Tiago Pereira, RBA publicado 14/06/2017 14h34
Para especialista, medida da prefeitura de São Paulo de aumentar o tempo dos semáforos na Avenida Mateo Bei e em outras seis vias é insuficiente. Antecipação do vermelho piscante também é contestada
Arquivo/EBC
Idosos

Idosos levam quase o dobro do tempo para atravessar a rua do que o considerado por autoridades de trânsito

São Paulo – Pessoas com 60 anos ou mais representaram 33,2% das vítimas fatais por atropelamento na cidade de São Paulo, no ano passado, segundo o Relatório Anual de Acidentes de Trânsito, divulgado pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) paulistana. Ao todo, foram 114 idosos que morreram em decorrência de atropelamentos nas vias da capital paulista. Entre os feridos, eles somam 736 casos.

Um dos fatores apontados por especialistas é o tempo semafórico reduzido para se realizar a travessia da via. Estudo realizado pela pesquisadora Etienne Duim, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), constatou que os idosos atravessam as ruas a uma velocidade média de 2,7 km/hora, enquanto que os sinais de trânsito são programados para funcionar considerando velocidade de travessia de 4,3 km/hora. 

Para tentar tratar a questão, a prefeitura anunciou, ainda no mês passado – em meio às ações educativas do Maio Amarelo –, que aumentou em 25% o tempo de travessia nas faixas de pedestre da Avenida Mateo Bei, na região de São Mateus, zona leste, e que a medida seria estendida a seis outras importantes ruas e avenidas da cidade até o fim do semestre. Consultada, a CET afirma que "em breve" a medida deve passar a valer nessas outras vias.

Contudo, tal medida é insuficiente – ou "irrisória" – tanto em relação ao acréscimo de tempo na travessia quando no total de vias envolvidas. "Esse aumento não resolve, 25% de pouco é pouco", afirma Meli Malatesta, doutora em Mobilidade Urbana pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU-USP) e presidenta da Comissão Técnica Mobilidade a Pé e Acessibilidade da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP). "A pessoa idosa sofre de diabetes ou pressão alta, e o médico sugere caminhada. Se ela não tropeça e se arrebenta na calçada, vai atravessar e ser atropelada. Com esse tempo de travessia, não dá."

Segundo a doutora, a mudança no funcionamento da sinalização semafórica para pedestres, iniciada em São Paulo em 2012, também é um dos agravantes para os idosos. Com a alteração, reduziu-se o tempo em que o sinal fica verde e ampliou-se o vermelho piscante, com a orientação de que o pedestre inicie a travessia apenas no verde. 

Para a especialista, essa mudança, além de alarmar os idosos, que agora tem brevíssimo tempo para iniciar a travessia em segurança, entra em contradição com determinação do próprio Código de Trânsito Brasileiro, que determina que o condutor não pode avançar com o veículo até que o pedestre tenha alcançado a calçada oposta.

Sobre o tempo de travessia, a urbanista afirma que é preciso que as autoridades de tráfego revejam as metodologias do cálculo semafórico, passando a considerar também o ritmo dos idosos. Mais do que isso, ela afirma que o tempo determinado nesses cálculos considera a pessoa que já se encontra no local adequado para atravessar, e não o pelotão de pedestres a ser escoado. Com o carro, a lógica é invertida. O tempo é calculado para dar vazão aos veículos acumulados. 

Ela defende a inclusão da educação no trânsito como matéria obrigatória nos currículos escolares, de modo a fortalecer, desde cedo, a cultura de preservação e respeito pelo pedestre – "sensibilizar o futuro condutor para a vulnerabilidade de quem caminha" – bem como a intensificação desses conteúdos nos cursos de formação de condutores, além de campanhas de conscientização voltadas aos motoristas.

Meli Malatesta diz, ainda, que é preciso uma mudança na mentalidade das políticas de mobilidade que, atualmente, têm o carro como centro. Segundo ela, o futuro aponta para a mobilidade ativa (deslocamento a pé, bicicleta) e o transporte público.