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Rapper está entre vítimas de nova chacina em São Paulo

DJ Lah, do grupo Conexão do Morro, é um dos seis assassinados na madrugada desse sábado na periferia da zona sul
por Guilherme Bryan, da Rede Brasil Atual publicado 05/01/2013 14h06, última modificação 05/01/2013 16h00
DJ Lah, do grupo Conexão do Morro, é um dos seis assassinados na madrugada desse sábado na periferia da zona sul

DJ Lah, em imagem postada hoje no Portal Rap Nacional

São Paulo - Em mais uma chacina envolvendo jovens pobres da periferia de São Paulo, seis pessoas foram assassinadas na madrugada deste sábado (5) e outras três ficaram feridas. Entre os mortos está o cantor de rap Laercio de Souza Grimas, mais conhecido como DJ Lah, do grupo Conexão do Morro. Ele tinha 33 anos e era pai de quatro filhos.

A chacina ocorreu num bar do Campo Limpo, zona sul da cidade, onde DJ Lah estava com amigos. O Portal Rap Nacional informa que as vítimas foram executadas por pessoas que estavam num carro modelo Space Fox e passaram atirando. Para a Polícia, no entanto, segundo informações divulgadas hoje de manhã, os assassinos estavam em três carros.

O rapper 2Pac, do grupo Sintonia Lado Sul, também ficou ferido e encontra-se em recuperação num hospital. Outra vítima da chacina foi o homem que, em novembro do anos passado, filmou o assassinato do servente de pedreiro Paulo Batista do Nascimento por policiais, segundo confirmou o delegado-geral da Polícia Civil, Maurício Blazeck, ao jornal SPTV, da TV Globo.

Na mira dos tiras

Formado por Mano Cobra, Cachorrão e DJ Lah, o grupo Conexão do Morro surgiu no Capão Redondo e lançou o primeiro CD, “Saiam da mira dos tiras”, em 1998. Ao todo, foram três discos.

Em 2005, lançou um DVD ao vivo com as participações especiais de Mano Brown, Marie, Lino Crizzz, Nany, Marron e Negra Li. Ali estavam os maiores sucessos, como “Super Billy”, “Viver no Gueto” e “Click, Clack, Bang”. A principal temática dos rapazes era justamente o protesto contra a repressão policial.

“O Conexão do Morro é um grupo que vem de uma longa caminhada, há muitos anos. É um grupo tradicional do nosso rap. Então temos um carinho e admiração pelo trabalho, e é muito triste já começar o ano com violência, ainda mais sendo um representante da nossa cultura perdendo a vida. Na realidade, o que todos nós queremos é um pouco de paz e ela parece cada vez mais longe. Violência não é minha praia, porque todos nós sabemos o que acontece e não vemos solução. São as mesmas falas das autoridades. Ficamos tristes, mas eu não gosto de me aprofundar, porque acreditamos que a cultura é que pode combater a violência e não mais polícia na rua. Falta investir em educação, cultura e lazer. Quem é da periferia sabe que não é fácil viver quando você não sabe quem temer”, disse à RBA o escritor, apresentador e agitador cultural Alessandro Buzo.

O diretor de videoclipes, publicitário e cineasta Mauricio Eça, também em entrevista à RBA, comenta sua relação com DJ Lah:

“Conheci DJ Lah em 99, quando dirigi o meu primeiro clipe do Conexão do Morro, ‘Click clack bang’. Lah sempre foi um cara sossegado, calmo e muito carinhoso e doce. Não tinha estrelismo, nem nada. Era realmente muito do bem. Após isso, me tornei amigo dele, do Cobra e do Cachorrão, todos integrantes do grupo e, juntamente com a minha irmã Teresa Eça, dirigimos o documentário ‘Universo paralelo’, onde Lah foi um dos personagens principais, dando um depoimento supersincero sobre sua vida e seus sonhos. Contou, entre outras coisas, que o rap era a sua vida e com o rap sustentava sua família, lhe dando uma chance na vida e, mais que tudo, autoestima. Além do que, no clipe de ‘Super Billy’, ele vive um traficante de muleta com muito bom humor e divertido. E o clipe é superviolento, o que prova que a vida imita a arte. Lah estava no lugar errado na hora errada e perdeu sua vida traumaticamente. Ele deixa, para mim, muitas saudades, porque era um cara muito carinhoso, talentoso no seu ofício e que adorava os ritmos negros, o funk e cultivar de vez em quando um belo Black na cabeça. Rip, meu mano”.

Em 2002, após a gravação de “Super Billy”, o jovem W., de 16 anos, que interpretou a vítima do tráfico de crack, foi assassinado em circunstâncias semelhantes às mostradas no videoclipe.

“Ele era um cara superalegre, legal, feliz e muito inteligente. Um puta ator. Estávamos pensando em fazer o ‘Universo Paralelo 10 anos depois’ e ele, certamente, seria uma das pessoas principais, pois foi quem ajudou a gente a entender pra caramba o rap, a violência e o Capão. Também era um puta pai, que levava as filhas na escola. Um doce. Há 10 anos, acho que a violência era bem pior do que agora. Havia um clima de medo. Deu uma diminuída por vários motivos, mas agora ela volta com força total”, observa a documentarista Teresa Eça.

“Eu como fã do rap e artista, lamento. Estive com eles em algumas ocasiões no Capão Redondo e antes mesmo de estar lá como artista, eu acompanhei alguns shows do Conexão do Morro e já conhecia o trampo dos caras. Eu era fã. Inclusive, a primeira música deles que estourou, ‘Click, Clack, Bang’, era justamente uma letra que abordava a violência policial. O refrão era: ‘Muito bem, saiam da mira dos tiras / São eles é quem forçam, são eles quem atiram / Reze pra sobreviver’. Foi aquela música que fez o Brasil inteiro os conhecer na época”, diz o rapper, poeta e geógrafo Renan Inquérito.

Para ele, a polícia está pro trás da chacina dessa madrugada. “Tem aquela parada de estar no lugar errado, na hora errada. Mas se você mora na quebrada, todo lugar é errado. Você fica refém e não pode sair de casa. Agora parece que há uma represália da polícia a algumas denúncias e quando se escancara demais algumas truculências policiais, eles rebatem dessa maneira”, lamenta.

Madrugada sangrenta

Logo nas primeiras horas do dia, centenas de mensagens foram postadas no Facebook do DJ Lah. Jéssica Balbino, jornalista e escritora sobre o hip-hop no Brasil, era uma das indignadas:

“Não me sinto à altura para falar da trajetória do Dj Lah para o hip-hop brasileiro, mas me sinto revoltada para falar da chacina que levou mais um nas madrugadas sangrentas da capital paulista. O que me deixa desanimada é que dia desses mesmo eu discutia com uma pessoa que me disse que não existem vítimas. Que todos são seres humanos e que não existe essa de que na favela morrem mais. É com muita pena que eu vejo a cena se repetir. E ela se repete diariamente”. 

O escritor Toni C., autor do romance “O Hip-Hop está morto!”, aponta a triste coincidência com o fato de a chacina ocorrer praticamente 10 anos depois da morte de outro importante rapper paulistano. Em 24 de janeiro de 2003, no bairro da Saúde, o cantor e compositor Mauro Mateus dos Santos, o Sabotage, então com 29 anos, também foi brutalmente assassinado por traficantes.

“Fico chapado com a irônica semelhança entre as denúncias nas letras do Conexão do Morro com a morte do DJ Lah. Não consigo deixar de relacionar com a morte do Sabotage, assassinado há 10 anos. Me pergunto: quando o Hip-Hop deixará de ser profissão perigo? Quando o jovem negro, morador de periferia, não mais será fator de risco?”, escreveu.

Para ele, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) deve ser diretamente responsabilizado por estas e outras mortes. “O primeiro passo parece ser ouvir Mano Brown que pede o impeachment do Chefe da Polícia, o governador do estado Geraldo Alckmin”, diz.