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São Paulo

Bebê morto após parto prematuro se torna símbolo da resistência no Paissandu

Recém-nascida, filha de casal vivia no "Prédio de Vidro" que desabou no dia 1º de maio, terá velório nesta sexta, em Vila Formosa. Vítimas do desabamento e do descaso seguem no acampamento
por Vinícius Lima, para a RBA publicado 08/06/2018 15h50, última modificação 08/06/2018 17h27
Recém-nascida, filha de casal vivia no "Prédio de Vidro" que desabou no dia 1º de maio, terá velório nesta sexta, em Vila Formosa. Vítimas do desabamento e do descaso seguem no acampamento
Vinicius Lima
Acampamento no Paissandu

São Paulo – Raphaelly Vitória é novo nome da ocupação formada pelas famílias acampadas no Largo do Paissandu, centro de São Paulo, que nesta sexta-feira (8) completa 39 dias. O título homenageia a filha da auxiliar de cozinha Jaqueline da Silva Moraes, 24 anos, e do ambulante Rafael Alves Ribeiro, 28. Vítima do incêndio seguido de desabamento do edifício Wilton Paes, o casal de sem-teto perdeu o bebê logo o parto prematuro de Raphaelly, aos sete meses de gestação, na quarta-feira (6), em pleno acampamento.

Jaqueline entrou em trabalho de parto às 17h30. Segundo Rafael e amigos acampados, a ambulância demorou cerca de 50 minutos para chegar no local. “Minha esposa me chamou porque estava sentindo dores, quando fui ver dentro da barraca, a minha filha estava nascendo. No meio do parto, a PM interrompeu, disse que eles assumiriam a partir dali. Do nada, chega bombeiro e ambulância”, disse Rafael.

Largo do Paissandu

Acompanhado de um advogado voluntário, Rafael foi ao 2º DP para depor sobre o óbito. Jaqueline foi levada à UTI da Santa Casa, no bairro de Santa Cecília. No boletim de ocorrência de Rafael, foi comprovado que ele residia no “Prédio de Vidro”, como era popularmente conhecido o Edifício Wilton Paes. Jaqueline já recebeu alta e está num apartamento próximo ao Largo do Paissandu, emprestado por voluntários atuantes na ocupação.

“Se alguém achava que a gente estava aqui de brincadeira, agora está vendo que a coisa é séria. Tem gente morrendo aqui na praça. Isso não é brincadeira, é a nossa vida”, enfatiza Rafael.

Segundo a Secretaria de Habitação, das 171 famílias cadastradas na ocupação antes da tragédia, 146 já estão recebendo auxílio-aluguel. Das 300 famílias que fizeram o pedido de assistência depois da tragédia, apenas 67 conseguiram comprovar algum vínculo com a ocupação. A prefeitura afirma que o Rafael, pai da criança, não constava no cadastro realizado pelo município antes da tragédia e, portanto, passou pelo estudo de caso, juntamente com as outras 300 famílias, e teve parecer favorável nesta semana, podendo sacar o benefício desde ontem (7).

A ocupação segue no Largo do Paissandu, agora com um símbolo de resistência: Raphaelly Vitória. Diariamente os moradores recebem doações de diversas instituições e pessoas, mas Rafael afirma, “não queremos só doações, queremos moradia. Abrigo não é lugar para a gente morar. A gente quer casa”. Outras pessoas que estão por lá enfatizam a necessidade de lonas para se proteger da chuva. 

O velório de Raphaelly Vitória será nesta sexta, no cemitério da Vila Formosa, às 21h. Segundo moradores da ocupação, “é de extrema importância a presença de outros movimentos neste dia do velório”. Ainda não existe previsão para um ato. De acordo com Rafael, “vamos esperar o luto passar, pois queremos que a Jaqueline seja uma linha de frente quando fizermos alguma coisa”.