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Vera Lúcia: mais uma vítima dos crimes de maio de 2006

Uma das fundadoras do Movimento Mães de Maio foi encontrada morta em casa, na periferia de Santos. A filha grávida e o genro foram assassinados em 2006
por Arthur Stabile, da Ponte Jornalismo publicado 07/05/2018 12h41, última modificação 07/05/2018 13h13
Uma das fundadoras do Movimento Mães de Maio foi encontrada morta em casa, na periferia de Santos. A filha grávida e o genro foram assassinados em 2006
reprodução/clipe Emicida
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Vera Lúcia estava cada vez mais isolada e já não queria atender ligações de amigos e companheiras do movimento

Ponte Jornalismo – Desde 15 de maio de 2006, a palavra luto mudou de significado para Vera Lúcia Gonzaga dos Santos. A data marcou os assassinatos da filha Ana Paula, grávida de nove meses de Bianca, e do genro, Eddie Joey. Por quase 12 anos, carregou consigo a dor das perdas ao mesmo tempo em que buscava justiça e denunciava a violência de Estado junto de outras mulheres que militam no Movimento Mães de Maio. Na última quinta-feira, terceiro dia de maio de 2018, Verinha, como era chamada pelas companheiras de luta, foi encontrada morta em sua casa, na periferia de Santos, litoral paulista. Ela se tornou mais uma das vítimas dos Crimes de Maio de 2006.

Mais de 500 assassinatos aconteceram apenas naquele mês. As balas disparadas por grupos de extermínio em resposta aos ataques do Primeiro Comando da Capital (PCC) ainda matam. As vidas daqueles que ficaram mudaram completamente. As marcas emocionais – e em alguns casos físicas, na forma de doenças por exemplo – são incontáveis. Cada morte de uma mãe mostra o quão letais eram aqueles tiros, de potência e alcance estendidos para além de 2006.

Vera estava deprimida há pelo menos um ano, conforme relataram pessoas próximas. Falar dos encontros do movimento já não era o suficiente para a cabeça dela. Certa vez, deu a entender que tomaria remédios para “resolver a situação”, sendo convencida a nem cogitar a ideia. Uma das hipóteses para a morte dela é justamente suicídio. No laudo do IML, são apontadas quatro causas: edema agudo dos pulmões, cardiopatia isquêmica, arterosclerose coronariana e diabetes. “A cabeça dela não estava boa, só eu sei o quanto”, conta Débora Maria da Silva, também fundadora do Movimento Mães de Maio, e pessoa mais próxima de Vera Lúcia.

A mãe – e avó – de maio morreu em casa, deitada na cama de seu quarto com fotos de Ana Paula grávida e de Eddie Joey a seu lado, junto de documentos pessoais. Na porta do quarto do filho, ela deixou pendurada uma camisa branca de mangas longas do movimento para o caçula, Paulo. “Foi um recado claro para eu seguir, para lutar. Estarei junto até o fim, lado a lado”, disse Paulo para Débora, após explicar o que aconteceu.

Naquela tarde, ele e alguns amigos estavam em casa com a mãe. Ela via um programa de TV quando apareceu um quadro com a lista de aniversariantes do dia. Em determinado momento, Vera disse: “Sabe quem também fazia aniversário hoje, filho? O Joey”, relembrou, citando o genro assassinado em maio de 2006. Depois, ela esperou Paulo sair de casa. Fez seu ritual, colocou roupas novas, ajeitou a camiseta na porta do filho e deitou na cama. Ali, começava a viagem para reencontrar Ana Paula, Bianca e Eddie.

Vera Lúcia deixa três filhos: Lucimara, Luciano e Paulo. Foi enterrada no Cemitério Areia Branca, o mesmo no qual foram sepultados a filha Ana Paula, a neta e o genro. Com a faixa do Movimento Mães de Maio, o cortejo foi puxado por mulheres, que, juntas, carregaram o caixão de Vera e rezaram o “Pai Nosso”. Em seguida, em coro gritaram: “Vera, presente! Hoje e sempre”.

A luta como luto

As mortes da filha grávida, da neta que tinha previsão de nascer em 18 de maio de 2006, e do genro colocaram Vera Lúcia frente a frente com a injustiça. Além de não conseguir ver os culpados respondendo pelos homicídios na cadeia, ela acabou criminalizada: em uma batida policial em sua casa, foi acusada e condenada por tráfico após os PMs, segundo ela, forjarem o flagrante colocando drogas em seu tanque de lavar roupas. Vera ficou presa por três anos e dois meses, como contou durante manifestação das Mães de Maio que marcou os dez anos dos crimes.

O sentimento de pesar carregado pela palavra luto adquiriu novo significado: o de enfrentamento. Encontrou em outras mães o alicerce e uma nova família, que surgiu logo após os ataques e foi batizada de Movimento Independente Mães de Maio. De coração partido, não abandonou o ofício de cabeleireira e manicure, mas passou a dedicar um grande espaço no dia a dia para a busca por justiça. Deixou o apartamento no qual morava no centro de Santos para viver em uma espécie de república na periferia. O foco não era mais apenas as unhas ou penteados. Denunciar a violência policial e cobrar punição dos assassinos dos familiares e de tantas outras vítimas tornou seu grande objetivo na vida. A história de Vera e de outras 14 mulheres foi contada no livro "Mães em luta – Dez anos dos Crimes de Maio", escrito por jornalistas da Ponte.

Vera estava sempre ao lado de Débora, mãe de maio acostumada aos discursos incisivos e a apontar o dedo no rosto do Estado e de quem o representa, seja escrevendo tragédias com armas ou disparando tiros com canetas. “A Vera era a primeira a apoiar os atos. A ousadia e coragem dela nos empoderava. Nunca dizia ‘não dá’, ‘não é’, se dizia, é porque tinha algum problema”, lembra Débora. As duas, inclusive, participaram do clipe de “Chapa”, de Emicida, lançado em 2016, justamente quando os crimes de maio completavam dez anos. A música fala sobre as vítimas do braço armado do Estado. 

“Recentemente, ela se despediu de mim na rodoviária de Santos toda sorridente, me deu até um presente. Estava feliz, de bem. Ninguém imaginaria o que ia acontecer”, conta, mostrando a blusa cinza que ganhou, maior do tamanho que usa. “A gente estava há um mês sem nos vermos, ela nem sabia que eu tinha emagrecido 8 kg”, explica Débora. O que motivou a perda de peso? A proximidade com o mês de maio, carregado de lembranças.

A memória que machuca

O mês de maio, por si só, traz um peso às mães. Antes mesmo do mês deste ano chegar, Débora já sentiu no corpo a mudança. Segundo ela, é um reflexo natural. Ver crianças e outras pessoas falando sobre presentes dos dias das mães traz as lembranças de quem morreu violentamente em 2006. As memórias são pesadas, tornam os dias difíceis.

Há dois meses, Vera Lúcia teve o celular furtado após atender uma cliente. Dali em diante, as memórias não saíram de perto. No aparelho estavam as fotos da filha grávida e do genro. A retirada do único contato que restava com os dois e a neta, ainda que na barriga, fez com que o quadro depressivo se agravasse.

O filho caçula, Paulo, conta que ela já não queria mais atender as ligações de pessoas próximas, do movimento e amigos. Além disso, ele conta que ela andava impaciente e as brigas entre os dois aumentaram. As idas aos eventos sobre a violência de Estado diminuíram. É uma reação recorrente entre as mães, adoecidas desde maio de 2006.

Um exemplo é Maria, de São Vicente, mãe de Luís. A depressão criou um bloqueio e ela não consegue lembrar de como aconteceu a morte do filho. Ele foi morto com um amigo na porta de casa, ao lado de uma árvore em que gostava de ficar. O peso foi tão grande que moradores chegaram a tirar a árvore na tentativa de diminuir o sofrimento de Maria. A diarista deixou de trabalhar. Levantar da cama é uma vitória. O marido virou alcoólatra e é comum vê-lo em situação de rua. Nada restou da família desde maio de 2006.

A faxineira Márcia Cruz Reis, mãe de Rodrigo Reis, ficou devastada emocionalmente quando o filho levava a namorada na casa dela e foi assassinado por homens encapuzados. Ela passou a, vez ou outra, sair andando sem rumo, inclusive pela Rodovia dos Imigrantes. O irmão mais novo de Rodrigo teve diagnosticada leucemia, o mais velho, um tumor na cabeça. A família inteira adoeceu desde os crimes de maio. Márcia era responsável pela renda da casa.

Há mães que não conseguem nem sequer sair dos quartos. Preferem ficar no escuro, recolhidas, amargando o luto até o fim. Famílias inteiras passam por pesado tratamento psicológico com remédios motivados pela morte de pai e filho, separadas por três anos, da mesma maneira, como é um outro caso de uma mãe que acompanhava o enterro de Verinha. As execuções idênticas tinham tiros no mesmo lado da cabeça.

Vera Lúcia não resistiu à dor. Como dizia, encarava a morte da filha, da neta é do genro como uma viagem, esperando a volta deles. Enfim, preferiu antecipar a viagem para reencontrá-los. Agora, poderá, quem sabe, dar fim aos 12 anos de saudade.