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Entrevista

Monja Coen: fica a impressão de que há uma perseguição a um partido político

Segundo religiosa, não se pode ter a ilusão de que o Judiciário é infalível. "São seres humanos. A gente fica pensando que juízes e ministros estão além, mas não estão, são humanos"
por Redação RBA publicado 12/05/2018 18h32, última modificação 14/05/2018 17h19
Segundo religiosa, não se pode ter a ilusão de que o Judiciário é infalível. "São seres humanos. A gente fica pensando que juízes e ministros estão além, mas não estão, são humanos"
Reprodução
monja coen

"A democracia é você acolher. Vamos ver nas urnas o que acontece, se as pessoas vão votar ou não"

São Paulo – "Há certos abusos que estão sendo feitos, que dá impressão não só a mim mas a muitas pessoas que inclusive pensam de forma diferente, que está sendo feita uma perseguição a um partido político, que ficou muito tempo de poder e incomodou muitas pessoas." Essa é a avaliação da monja zen budista brasileira Coen Roshi, que é também missionária oficial da tradição Soto Shu, com sede no Japão.

Em entrevista à jornalista Marilu Cabañas, na Rádio Brasil Atual, ela afirmou ter sido "impróprio" o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff e comentou sobre o papel do Poder Judiciário no cenário brasileiro. "O Judiciário... São seres humanos. A gente fica pensando que juízes e ministros estão além, mas não estão, são humanos. Provocados e puxados pela população, pelo que as pessoas pensam, pelos seus próprios egos, sua projeção na carreira, seus pontos de vista. E às vezes nem são deles, dependem de outras pessoas que os provocam."

"Isso não pode. A democracia é você acolher. Vamos ver nas urnas o que acontece, se as pessoas vão votar ou não. Mas estão querendo excluir. E não estão sozinhos, nós vamos encontrar também dentro do Judiciário pessoas que pensam dessa forma", explica.

Coen analisou também o comportamento dos veículos de comunicação no país. "A função da mídia é informar, não dar apenas sua opinião, esconder alguns pontos e mostrar outros, provocar. Influenciam até os juízes", analisa. "Temos sempre a tendência de falar daquilo que está errado e faltando, e esquecendo que há grupos grandes de pessoas trabalhando nessa cultura de paz."

"Não podemos omitir informações. Por exemplo, o serviço de saúde pública nosso é muito bom. Tem falhas? Tem falhas. Mas nunca falam de quantas pessoas atendem por dia, quantas vidas são salvas, quantas pesquisas estão sendo feitas, quantas pessoas trabalham nos hospitais. isso não se fala, só quando existe alguma coisa errada", aponta. "Temos uma questão, mostrar o que tem de bom também e alertar para aquilo que não está indo tão bem para que fique melhor, mas não dizer que não tem solução. Estou percebendo que a população está muito desesperançada, sem saber onde ir. Se todos são corruptos, se nada presta, se não podemos confiar em ninguém, não temos para onde ir."

Para Coen, a educação é necessária em um contexto no qual a cultura de ódio se torna cada vez mais relevante. "Estamos ficando mais intolerantes, e por quê? Ao invés de estarmos criando uma capacidade de cooperar, compreender, de acolher aquele que pensa diferente de nós, queremos eliminar aqueles que pensam diferente de nós", pontua. "Isto é uma cultura de violência, mas faz com que algumas pessoas se levantem para dizer: temos que construir uma cultura de paz, perceber essas intenções em cada um de nós e como transformar isso. Educação, como sempre, é a base de tudo, e tem que permear todas as redes sociais. Não é educação na escola apenas, mas nas casas, nas famílias. Não temos que ter uma mídia estimulando polaridades."

Segundo Coen, não só no Brasil, mas no mundo, existe uma espécie de inversão de valores. "Existem valores econômicos que foram colocados à frente dos humanos, do bem-estar do ser humano. Alguns grupos que se mantêm no poder atendem às necessidades dos mais poderosos economicamente porque nossos valores foram trocados. Em vez de pensar que temos um processo de desenvolvimento para beneficiar o maior número de seres, vamos ter no planeta todo seis, sete famílias riquíssimas enquanto uma população paupérrima é a maioria", afirma. "Alguma coisa está errada nessa maneira de nós pensarmos. Não é que não deva ter riqueza e que alguns sejam mais ricos que os outros, mas ao mesmo tempo é quase absurdo as fortunas que estão nas mãos de poucas famílias enquanto outras são paupérrimas."

"Isso faz parte da nossa natureza humana, mas ela pode ser educada. Uma das razões pelas quais me tornei monja foi perceber exatamente que a revolução maior não é econômica, nem política, é a mudança do ser humano. E tem que ser cada um de nós que tem que acordar, despertar, para perceber que somos a vida da Terra, estamos todos interligados. E só cooperando, cuidando, que vamos ter a sobrevivência da nossa espécie."

Ouça a íntegra da entrevista: