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São Paulo

Condenados por plantar árvores, defensores do Parque dos Búfalos pedem ajuda

Três ativistas terão de pagar R$ 20 mil de custas processuais por protestos e ações contra construção de 193 prédios próximos à represa Billings
por Rodrigo Gomes, da RBA publicado 10/04/2018 17h06, última modificação 10/04/2018 18h02
Três ativistas terão de pagar R$ 20 mil de custas processuais por protestos e ações contra construção de 193 prédios próximos à represa Billings
Apu Gomes/Folhapress
bufalos

Ativistas realizaram vários protestos e um grande plantio de árvores ainda em 2015, pedindo criação do parque

São Paulo – Três defensores da criação do Parque dos Búfalos estão pedindo ajuda nas redes sociais para pagar R$ 20 mil de custas de um processo movido contra eles pela Incorporadora Ingaí, no qual o grupo foi condenado, em dezembro de 2016, por plantar árvores e protestar. Segundo a ação, com o plantio e a mobilização, os ativistas estavam impedindo a liberdade do proprietário, que negociava com a prefeitura de São Paulo a construção de 193 prédios destinados à moradia popular. A área era utilizada para lazer pela população de Cidade Ademar, na zona sul da capital paulista.

Na decisão, a juíza da 5ª Vara Cível, Regina de Oliveira Marques, avaliou que ficou comprovada a prática de “turbação”, quando o dono de um bem é impedido de usufruir dele plenamente por ação de terceiros. Como prova da prática, foram destacados o plantio de árvores e organização de protestos, estes últimos buscados nas redes sociais dos ativistas Wesley Silvestre Rosa, Virgilio Alcides de Farias e Aurélio Prates Rodrigues.

“Se nessa terra plantar árvore é crime, eu sou um criminoso perigoso. Eu quero viver bem, respirar bem. Cidade Ademar tem um dos piores índices de área verde por habitante da cidade. Foram cobertas várias nascentes de água e impermeabilizado o solo no entorno da represa. É um absurdo”, afirmou Rodrigues. O plantio contou com a participação de 4 mil pessoas, segundo ele. Entre elas estavam o vereador Gilberto Natalini (PV) e a pré-candidata à Presidência da República Marina Silva (Rede). 

Rodrigues publicou a história em suas redes sociais, pedindo ajuda para pagar as custas processuais, fixadas em 10% do valor da ação pedido pela construtora. A Ingaí argumentou que o custo para remoção das cerca de mil árvores plantadas pelos ativistas seria de R$ 200 mil.

Ele pondera que errou ao “deixar pra lá” o processo, no qual a condenação foi definida em dezembro de 2016, mas agora prefere esperar o trânsito em julgado para pagar as custas processuais. “Pensamos em pedir ajuda para arrecadar o valor de R$ 8 mil para custear a apresentação de uma apelação, mas percebemos que não vamos ganhar a causa. E depois precisaríamos de mais R$ 20 mil. É um processo claramente intimidatório, para que as pessoas tenham medo de lutar pelo que acreditam”, afirmou.

O ativista disse ainda não ser contra a construção de moradias populares, mas considera que o projeto é duplamente danoso: instala milhares de pessoas em uma região já saturada e distante do centro e acaba com uma das poucas áreas verdes acessíveis à população da região. “O movimento pela preservação da área verde e criação do parque era de toda a comunidade. Não era uma ação de nós três. Sou um trabalhador, cruzo a cidade todo dia para trabalhar e essa situação tem tirado meu sono”, disse Rodrigues.

O Parque dos Búfalos nunca foi oficialmente instalado, mas a população local utilizava a área para lazer. O terreno tem cerca de 900 mil metros quadrados e foi declarado de utilidade pública pelo então prefeito Gilberto Kassab (PSD), em 2012. No ano seguinte, a gestão do ex-prefeito Fernando Haddad (PT) revogou o decreto e iniciou tratativas com a incorporadora e os governos federal e estadual para construção de moradias.

O projeto original incluía a construção de escola, creche, parque e unidade básica de saúde, mas hoje não há previsão de quando e se esses equipamentos serão instalados.

No local, já estão em fase de conclusão os 193 prédios destinados à moradia popular. São 3.860 apartamentos para famílias de baixa renda. O Residencial Espanha, como será chamado, fica às margens da represa Billings, a quase 20 quilômetros do centro, em uma região onde já vivem cerca de 430 mil pessoas, com baixa infraestrutura e poucos equipamentos de saúde. Moradores temem que o adensamento complique ainda mais a vida no distrito.