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críticas e soluções

Movimentos debatem saída para a crise e resistência contra 'onda de barbárie' no país

Em São Paulo, ativistas e lideranças políticas participam de seminário debatem sobre alternativas democráticas para o desenvolvimento
por Redação RBA publicado 18/08/2017 11h06
Em São Paulo, ativistas e lideranças políticas participam de seminário debatem sobre alternativas democráticas para o desenvolvimento
reprodução;facebook

'Não vamos chorar pelo leite derramado, mas tirar experiências e lições', disse Olívio Dutra

São Paulo - "Não existe democracia sem povo, como querem os partidos que estão no poder por conta do golpe, impondo uma agenda derrotada nas eleições de 2014. O fundamental é afirmar um projeto popular democrático radical", afirmou o ex-governador do Rio Grande do Sul Olívio Dutra (PT), durante aula pública realizada na noite de ontem (17) na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp). Além de Olívio, participaram do encontro representantes de diferentes movimentos organizados da sociedade civil.

Intitulado "A Agenda das Resistências e as Alternativas para o Brasil: Um olhar desde a sociedade civil", o seminário está sendo realizado na instituição, sediada na zona oeste de São Paulo, de quarta-feira até hoje (18). O debate desta quinta tratou de alternativas ao modelo de desenvolvimento brasileiro, abordando convergências e controvérsias, com a finalidade de discutir propostas populares e possíveis soluções para a problemática contemporânea da política nacional.

"Vemos uma onda de barbárie, um tsunami de crimes contra a humanidade. Isso, de certa forma, vem sendo naturalizado pelo esquema poderoso de articulação da mídia e das grandes empresas", contextualizou Olívio sobre o panorama global. Trazendo para o Brasil, o ex-governador realizou uma autocrítica dos governos populares dos últimos anos. "Nossos governos também não mexeram em funções tradicionais do Estado. Não é novidade, o Estado é cidadela dos grandes grupos e de seus capatazes, gerentes e executivos", disse.

Ele avaliou que, apesar de quatro mandatos seguidos no Executivo federal do PT, faltou a consciência de que estar no governo é diferente de ter o poder político e econômico. "Não alteramos a correlação de forças dentro do Estado, nos três poderes, que funcionam, mesmo com governos progressistas, muito bem para poucos (...) Elevamos uma parcela considerável do povo brasileiro através de políticas de governo e não de Estado. Políticas de governo se alteram e se eliminam em mudanças de governo, e nós tivemos essa mudança através de um golpe justamente para interromper o processo de mudanças que ainda estava em um estado inicial", disse.

Entretanto, seguindo a premissa do debate de apresentar possíveis soluções, Olívio afirmou que "não devemos chorar pelo leite derramado", mas tirar experiências e lições. "O que compõe os três poderes é definido pelo voto. Não fizemos direito o debate político, e não agora, de longo tempo. Faltou a discussão do que é a política, o que é a sociedade e o que é o Estado. Temos que debulhar esses temas nos movimentos sociais, nos partidos, nas escolas, em todos os lugares, para que o povo possa compreender a lógica do Estado, para que o povo tome conhecimento e mude a atual situação."

"É muito importante detectar que há indignação muito grande na base da sociedade e na base de todos os movimentos", disse o ex-governador, indicando que essa insatisfação deve ser utilizada para mudanças mais profundas para o benefício do coletivo. "Temos que provocar permanentemente a dúvida nas pessoas, para não aceitarem as coisas prontas. Temos que reproduzir o debate em muitos lugares, tensionarmos. Mudamos o mundo nos transformando, compartilhando, construindo alternativas coletivas sem eliminar a individualidade e sem confundir individualidade com individualismo. Nossa visão é a construção do bem comum com o protagonismo das pessoas", concluiu.

A coordenadora do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação, Renata Mieli, seguiu a mesma linha do petista, e aprofundou a discussão sob a ótica da disputa de hegemonia na mídia e na opinião pública. "Só ganhamos a eleição presidencial quando foi constituída uma aliança com setores do centro e da burguesia. Portanto, um governo que assumiu a presidência e não o poder político. Isso nunca tivemos. Dirigimos parte do Estado, talvez minoritária", disse.

"Compreender que tínhamos um governo de disputa nos faz pensar que tínhamos também de disputar nas ruas. Isso é responsabilidade coletiva", avaliou. "Foi um erro achar que o governo Lula era uma continuidade do FHC, no sentido de não debater com a sociedade o caráter de classe do novo governo, de não disputar com a sociedade o sentido das novas políticas públicas implementadas. Quem recebeu benefícios pensou que aquilo era obrigação do governo. Precisávamos ter dito que eramos diferentes politicamente e socialmente do que o governo anterior, que nunca teremos programas como ProUni e Minha Casa, Minha Vida em governos de direita."

Por fim, Renata classificou como essencial o debate sobre os modelos de mídia no país. "Tínhamos que ter debatido a democratização dos meios de comunicação. Recebemos conteúdos, informação e desinformação, o dia todo. Não fizemos essa disputa. Quanto equívoco! Tivemos ministros dizendo que não precisávamos investir em comunicação pública, própria ou alternativa, porque tínhamos a Globo. Infelizmente quem disse isso foi o José Dirceu, quando estava na Casa Civil. Ele deve se arrepender até o último fio de cabelo."

Representando o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e a Frente Povo sem Medo, o carioca Vitor Guimarães saudou a iniciativa da Frente da construção da plataforma de interação Vamos, como ferramenta de empoderamento e escuta da opinião pública. "Achamos que o povo tem que ser protagonista. Agora, as ideias de cada um tem que ser úteis. Nesse sentido, lançamos uma plataforma e um ciclo de debates. Achamos que a esquerda brasileira tem que se olhar, entender que a situação é muito difícil e ouvir o povo. Temos que fazer o máximo possível para dar espaço", afirmou.

Pautas identitárias 

Pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), Lindomar Terena discursou sobre a importância da organização social para conquistas em diferentes campos. "Movimentos de todas as classes que lutam por igualdade são essenciais. Os povos indígenas também estão organizados. Vivemos em um momento similar com o que vivemos antes da Constituição de 1988. Na época, lutamos para garantir direitos no texto. Atualmente, lutamos para não permitir que retirem tais direitos", disse.

"Para nós, está bem claro que os três poderes estão unidos no sentido de negar direitos constitucionais. Estão tomando posses de indígenas que acabam até mesmo perdendo suas vidas. Então, se houve avanço na demarcação de terras, foi pela mobilização da própria comunidade. Tivemos grandes vitórias, e se olharmos na história, vemos que o Estado fez muito pouco (...) Então, não há uma receita pronta, a construção coletiva do bem viver é feita no dia a dia, no enfrentamento."

Sob essa perspectiva, a ativista da Articulação das Mulheres Brasileiras Ivani Arantes avaliou a necessidade de articulação e luta. "Temos um desafio para a convergência, para a construção de uma força política. Seguimos achando que mulheres, negros e pessoas empobrecidas continuam sendo segmentos, e que racismo, patriarcado e capitalismo são apenas temas. E tudo que está acontecendo está nos descentrando. Nada é mais racista, patriarcal e capitalista do que o esvaziamento do SUS, as reformas trabalhista e da Previdência, o congelamento do orçamento por 20 anos, a concentração de terras, a prisão do Rafael Braga", comentou.