Você está aqui: Página Inicial / Cidadania / 2017 / 05 / Festival no Capão Redondo reforça papel da periferia como polo de cultura

Visibilidade

Festival no Capão Redondo reforça papel da periferia como polo de cultura

Com shows de jazz, rap, rodas de conversa, oficinas de dança, fanzine, horta, reciclagem, escuta criativa e gastronomia periférica, primeiro Festival do Capão atraiu cerca de 500 jovens
por Redação RBA publicado 13/05/2017 18h23
Com shows de jazz, rap, rodas de conversa, oficinas de dança, fanzine, horta, reciclagem, escuta criativa e gastronomia periférica, primeiro Festival do Capão atraiu cerca de 500 jovens
Divulgação
Festival Capão Redondo

Festival do Capão combate a desigualdade urbana por meio da dança, música, gastronomia e debates

São Paulo – No início do século 19, o Capão Redondo era lembrado como a região de São Paulo que tinha um enorme aglomerado de araucárias, formando uma ilha de árvores (um capão) de 50 quilômetros de diâmetro em meio à paisagem rural – daí o nome do bairro. Hoje, a lembrança de muitos paulistanos sobre o distrito ainda remete a questões de violência, falta de moradia digna e ausência de equipamentos sociais para dar conta de uma população de cerca de 300 mil habitantes. 

Entretanto, na última quinta-feira (11), quando aconteceu o primeiro Festival do Capão, o bairro se apresentou de um modo muito diferente: como um polo de manifestações culturais, em plena tarde ensolarada de São Paulo. O evento – que teve o apoio da Oxfam Brasil e foi realizado em parceria com a TV DOC e a Fábrica de Criatividade – proporcionou troca de experiências políticas e sociais entre os coletivos de juventude organizados da zona sul de São Paulo. Houve shows de jazz, rap, rodas de conversa, oficinas de dança, fanzine, horta, reciclagem, escuta criativa e gastronomia periférica.

“É importante combater a desigualdade urbana dando espaço às lideranças da comunidade para mostrarem o que é feito de bom naqueles locais. Essa foi a proposta do Festival do Capão”, explica Tauá Pires, assessora política da Oxfam Brasil. “A história da cidade de São Paulo não pode deixar ser contada sem a inclusão da periferia.”

Para Eliane Dias – diretora da Boogie Naipe, que administra shows e eventos do grupo Racionais MC’s e de Mano Brown –, as mulheres que participam desse tipo de evento são aquelas que não aceitam o “não” como resposta. “Se eu aceitasse o ‘não’, nem teria nascido, pois sou filha de mãe solteira pobre, negra, que teve de viver na rua e sofreu muito para crescer”, disse ela, que também é coordenadora do S.O.S. Racismo, programa antirracismo da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

RBA Festival Capão
Eliane Dias, Karol Oliveira e Jenyffer Nascimento participaram do debate “Juventude, Gênero e Identidade”

Eliane participou da roda de conversa “Juventude, Gênero e Identidade”, moderada por Karol Oliveira, ao lado de Jenyffer Nascimento, da revista Fala Guerreira. “Na minha época, tinha de usar calça larga e camiseta para ser uma menina aceita na visão machista do hip-hop. Hoje não precisamos mais nos masculinizar, é lindo sermos da forma como somos, sem se prender a clichês ou afetar nossa autoestima”, disse Jenyffer, que é negra, escritora e militante feminista no Coletivo Rosas.

O debate de “Literatura Marginal” teve a participação de Isaac Souza, do coletivo Núcleo de Jovens Políticos; Bruno Capão, da Associação Lado B; e Daniel Farias, da Literatura Marginal. Os três autores explicaram como a proposta, até pouco tempo vista como subversiva, consegue chegar mais facilmente à juventude porque usa sua linguagem, com palavrões e gírias, para narrar o dia a dia da comunidade.

“É uma literatura que, de certa forma, dá voz a essa população, mostra sua realidade”, explicou Isaac Souza. “Se você acha que não gosta de ler, pelo menos, carregue um livro na sua mochila. Uma hora você vai querer saber o que está escrito lá dentro, e a aventura vai começar”, disse Bruno Capão. “Sua vida é um livro, mano. Então, trate de ler para aprender como escrevê-la direito", ponderou Daniel Farias. 

Oficinas de horta, reciclagem, forró, jazz, danças urbanas, escuta criativa, gastronomia periférica e shows de encerramento completaram as atrações do Primeiro Festival do Capão.  

Com informações da Oxfam Brasil