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ressocialização ou marketing?

Holofotes para o goleiro Bruno banalizam o feminicídio, dizem jornalistas

Não há problema na reinserção do jogador ao futebol. Mas destaque dado ao caso pela mídia desvaloriza, mais uma vez, a representação da mulher na sociedade
por Felipe Mascari, da RBA publicado 14/03/2017 14h26
Não há problema na reinserção do jogador ao futebol. Mas destaque dado ao caso pela mídia desvaloriza, mais uma vez, a representação da mulher na sociedade
Nelson Antoine/Agif/Folhapress
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Nas redes sociais, torcedores de diversos times pedem o boicote ao Boa Esporte após contratar o goleiro Bruno

São Paulo – O goleiro Bruno Fernandes de Souza foi apresentado hoje (14) como reforço do Boa Esporte, de Varginha (MG), que atua na série C do campeonato brasileiro. A contratação do goleiro, condenado por participar do sequestro e assassinato da modelo Eliza Samudio em 2010, criou polêmica: uma parcela da sociedade acredita que o jogador merece nova chance, depois de ganhar liberdade por ter conseguido um habeas corpus, enquanto outra pede boicote ao clube.

Ainda que os patrocinadores tenham abandonado o clube por esse episódio, a associação ao nome do goleiro está projetando o Boa Esporte na mídia nacional. Para a jornalista Juliana Arreguy, do site Dibradoras, "Bruno merece uma segunda chance, prevista por lei, e que deveria ser regra entre todos os egressos (do sistema prisional)". Mas o que preocupa, acrescenta, é o destaque dado ao seu retorno ao futebol. "Num país em que a violência doméstica e o feminicídio são banalizados, deixar que o goleiro ocupe um posto de evidência é problemático", afirma.

Segundo o advogado de Bruno, Lúcio Adolfo da Silva, nove clubes fizeram proposta pelo goleiro. Juliana questiona a importância dada pelos times para a ressocialização do atleta, ao mesmo tempo em que viram as costas para outros ex-detentos. "Se nossos clubes tivessem uma preocupação mínima com a situação dos egressos no país, poderíamos falar em ressocialização. Mas quantas vezes as equipes se preocuparam em empregar alguém que já passou pelo presídio? Por que a ressocialização de Bruno é tratada com tanta importância diante das outras?"

Nas redes sociais, torcedores de diversos times pedem o boicote ao Boa Esporte. Alguns, até incentivam que o goleiro seja "linchado" verbalmente durante as partidas que disputar. A jornalista Natália Martino, integrante do Projeto Voz (conjunto de iniciativas nas áreas de educação e comunicação desenvolvidas em unidades prisionais), critica o comportamento "punitivo" da sociedade. "Nosso sistema penal diz que as pessoas podem ter outras chances. Não é um sistema de vingança, é o da ressocialização. Se tivermos que voltar ao tempo em que as pessoas que cometeram crimes têm que sofrer, então voltaremos à tortura em praça pública."

Mas Natália também comenta a facilidade com que o goleiro conseguiu a "segunda chance" e critica a falta de espaço para outros. "O problema é o Bruno voltar a trabalhar? Não. O problema é quem voltar à sociedade e não trabalhar, não conseguir se reinserir. Nosso sistema diz que não tem prisão perpétua, mas tem um atestado que praticamente impossibilita  a elas voltar porque não tem oportunidades. No caso do Bruno, ele tem o talento com futebol, mas tem o problema em ocupar um espaço de ídolo."

Bruno foi acusado de ser o mandante do sequestro e assassinato da ex-namorada Eliza Samudio. Ele estava havia seis anos e sete meses preso, sem ser julgado em segunda instância pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais. No último dia 23, o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), considerou que o jogador tem direito a esperar o julgamento em liberdade e concedeu habeas corpus.

Natália vê uma situação de "falência" do sistema judiciário brasileiro e diz que nem todos os presos, ainda que nas mesmas condições, têm a mesma chance de Bruno. "Ele ainda não foi julgado, então juridicamente não devia estar lá. Há um problema no nosso sistema, porque usar esse tipo de recurso é caro e a população carcerária não tem saúde financeira para isso. Então, a gente nega a mesma defesa para a maioria da população carcerária", avalia. "A gente precisa ser coerente. Se defendemos que a população carcerária seja tratada com dignidade e com direito de defesa, não podemos negar isso a nenhum preso", acrescenta.

Marketing falho

O Boa Esporte contratou Bruno para atrair mídia e marketing para o clube. Entretanto, nos últimos dias, depois do anúncio, cinco patrocinadores já abandonaram o time mineiro, inclusive o principal e a fornecedora de material esportivo: o Grupo Góis & Silva, além de Kanxa, Cardiocenter Varginha, Magsul Ressonância Magnética e Nutrends Nutrition.

Em nota, o Boa afirmou que está "apenas cumprindo sua obrigação social". "A ação teria sido mais efetiva se o clube liderasse um movimento pelos egressos do país, e não apenas Bruno", observa Juliana. "Um clube que pensa em contratá-lo visando ao marketing não se importa com a mensagem que passa a seus torcedores. É como se defendêssemos que é normal abandonar um filho e matar uma mulher."

Ela também acredita que o clube não pensou nas próprias torcedoras e funcionárias e se mostrou conivente com a violência doméstica e o feminicídio. "Por mais que Bruno, em si, possa não ser mais uma ameaça, o clube sinaliza que não se importa com a segurança doméstica de tantas mulheres que fazem parte do seu dia a dia."

Feminicídio

Juliana, do Dibradoras, também critica a forma com que Bruno foi recebido pelos fãs e lembra do torcedor com uma máscara de cachorro – em referência à morte de Eliza, que supostamente teve os ossos jogados para cachorros – ao cumprimentar o goleiro. Para a jornalista, isso reforça que a sociedade banaliza a violência de gênero. "Temos parlamentares retrógrados e um presidente conservador. Essas atitudes mostram como as pessoas não se importam que uma mulher tenha sido assassinada, porque um pai não queria pagar a pensão do filho."

"Muita gente relativiza o feminicídio. Não entende que existe uma violência específica de gênero e defende que 'violência é violência', independentemente da vítima. Os crimes tratados como passionais pela mídia são, na verdade, crimes contra a mulher e há cada vez mais estudos e números que comprovam isso", acrescenta.

Ela também critica o tratamento da mídia sobre o caso. Segundo ela, ao noticiar a soltura ou a contratação, o crime não é mencionado. "Considero isso uma forma de violência velada. As declarações de Bruno também foram replicadas tratando-o como vítima. Bruno não é e nunca foi vítima. Tratá-lo como vítima é desrespeitoso e muito perigoso – quantos outros não se acharão impunes para agredir suas parceiras? É trocar o papel do agressor com o papel da vítima."